sexta-feira, 7 de abril de 2017

Páscoa

Jesus era judeu, um judeu nazareno,
era um judeu pregador, como ele havia mais,
pregavam contra as injustiças e as desigualdades,
mas Jesus, o Nazareno,
dizia ser Rei do seu Reino e fazia milagres,
por isso, serviram-lhe veneno
em vez de água
quando morria de sede pregado na cruz
Quem o crucificou era um simples cidadão
que se limitou a fazer jus
ao seu dever de carrasco
e Jesus não fugiu à cruz,
queria salvar-nos da perdição
e da maldição do mundo já então amaldiçoado
O mundo continua perdido e amaldiçoado
e ele morreu a gritar na cruz
- Pai, por que me abandonaste?
E tu, Jesus,
porque nos abandonaste?

Sim, tu abandonaste-nos,
mas não te esquecemos,
ó meu caro Jesus,
tu deixaste o teu registo, o teu caminho,
a História fez de ti um ícone
Por isso, sejas tu o Messias, o Filho de Deus,
sejas tu um simples galileu, judeu, samaritano,
nazareno, eritreu, árabe, romano,
palestiniano,
sejas tu ninguém,
sejas tu alguém do além,
sejas tu o que quiseres,
volta cá,
volta a nascer como menino Jesus,
como Filho de Deus,
ou como um ser mortal com a cruz
da vida às costas
como qualquer um de nós,
como queiras,
mas volta cá,
volta para pregares, para salvares,
para encheres as ceiras
de peixe fresco e de pão,
volta, volta que nós gostamos muito de milagres
e da bajulação,
volta, mas não voltes pobre,
volta como um rico proprietário de searas,
ou como um banqueiro,
ou como um rico herdeiro,
volta, mas não voltes a dizer que o teu reino
não é deste mundo,
o teu reino tem que ser deste mundo,
volta, volta outra vez
e serás Rei,
não só dos judeus,
mas de toda a gente,
dos desgraçados, dos doentes,
dos abandonados,
dos que têm falta de tudo,
do rico que vive à custa do pobre,
dos donos dos faustosos templos
onde se invoca o teu nome,
volta, volta cá,
para governares toda esta gente
Volta, mas ficas já avisado,
se voltares pobre e a bater o dente,
serás novamente crucificado
pela tua gente

Feliz Páscoa para todos

quarta-feira, 29 de março de 2017

Fumos e ventos

Fumos de fogueiras
ateadas no palco da guerra
são trazidos por ventos
pestilentos
que a matéria ardida encerra
Corpos humanos, equipamentos
destruidores da esperança, do bem-estar,
do respirar,
equipamentos feitos para estalar
e transformar em estilhaços
vidas que sabiam amar
e  que são agora apenas pedaços
de corpos a fumegar
É fácil disparar e apanhar
os corpos,
o vencedor corre a gritar,
ganhei, ganhei, tenho menos mortos

domingo, 19 de março de 2017

É quase Primavera

Hoje dormi a sesta,
quando despertei
as raras réstias
da luz solar na terra
eram varridas
pelas últimas aragens da tarde,
já sem força
para ventanias
nem para tempestade

Os pássaros que habitam
a grande árvore
da minha rua
já cantam
a Primavera
e eu sinto
que a janela
já aberta
não inunda de frio
o meu refúgio

Espero ouvir ainda o cuco
nesta Primavera
que se anuncia,
mesmo que venha rouco,
ou com pouca energia,
como eu estou

quinta-feira, 16 de março de 2017

Espasticidade

Transporto
este corpo
todo torto
encolhido
Já chega,
digo eu
aos astros
que mandam
na gravidade,
e dizem os meus maestros:
anda assim
porque tem muita espasticidade
Merda,
já não aguento este latim

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Carnaval

Hoje correu mais uma vez
sangue quente no morro da cidade,
morreu apenas um garoto,
um menino que agarrava
com força e tenacidade
a sua metralhadora,
mas não faz mal, é Carnaval
e ele era membro do gangue rival
do que não manda no morro agora

Morreu apenas uma criança,
uma bala perdida
tirou-lhe a vida
e já não viveu a esperança
de um dia ir à avenida
ver o samba que passa
no fim da ravina,
samba colorido
ornado de carne
coberta com penas de aves de rapina
e de lantejoulas de plástico,
é apenas o povo a dançar,
a chorar, a cantar,
é a alegria de um povo
cheio de mar
E eu que continuo preso no meu ovo
não posso dançar
nem voar
Desculpem, caros leitores,
este meu feitio de acabar mal,
triste e mascarado de dores,
mas não me levem a mal,
é Carnaval

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Um ano de avc

Faz hoje um ano de avc,
avc, a vida continua,
vejo-a a passar na rua que se vê
da  janela
do meu solitário quarto,
a minha cela
onde reflicto,
vejo-a a passar
no relógio de quartzo
sempre aflito
a dar horas e ordens,
quando soa o apito:
Bom dia, bom dia,
ergue-te dos lençóis
de Morfeu,
são horas da fisioterapia,
ergue-te, ergue-te
e mira a montanha
de Neruda,
faz-te foguete
e vai para a rua
estalar, voar, explodir,
chorar, rir e agradecer
porque tens ajuda,

Ó Luz, ó Luz,
Ajuda, ajuda!,
ainda preciso de ti
para vestir o capuz
e o bibe.

"Pai, pai,
menos lamúrias,
tanto ai
para nada,
quero mais luta
e menos lamentos",
é a voz da Lúcia
Que já se cansou
dos meus elementos.

Está bem, filha,
vou tentar
não me lamentar mais
nesta ilha
sem cais,
vou cantar

avc, a vida continua,
faz hoje um ano
que me deu a fúria,
mas ainda não se fechou o pano
do palco onde jogo a minha vida,
ainda quero caminhar
de perna esticada e erguida

sábado, 21 de janeiro de 2017

Quem me vende paciência?

Está quase passado
mais um sábado
em que não fui à praça,
não levantei o rabo
a horas,
fiquei enrolado
na cama
como um cágado
fica na lama,
congelado e sem graça,
a tentar restaurar
a sua carapaça
sem o sal e a água do mar
Porra, estou farto desta doença,
quem me vende paciência?

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Boas Festas

Angústia é uma vereda que finda num beco
onde só moram o escuro e o medo,
lágrimas de angústia são pingos de pez
que queimam e enrugam a face de quem as verte,
angústia é tempo perdido e inerte
angústia é talvez, talvez, talvez ...
... acorde um dia a poder ANDAR e com a mão a mexer

Caros leitores, amigos e amigas,
desejo a todos vós
um Feliz Natal
e Boas Festas em geral
com muitas migas,
pedaços de noz
e outras misturas que não façam mal
e se virem o Feiticeiro de Oz
digam-me

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Conformar

Tenho de me conformar
com a forma como o mar
mostra que é feroz
a bater na rocha
e como é meigo a lamber a areia,
Tenho de me conformar
com a forma como o ar
se mostra veloz
quando é vento
a soprar nos telhados da aldeia
onde mora o meu pensamento

domingo, 11 de dezembro de 2016

Guerras

Sete anos durou a guerra dos sete anos,
entre 1756 e 1763 os principais reis da Europa
conduziram os seus exércitos ufanos
para batalhas sangrentas e sem glória

O Luís XV, da França, e o Frederico II, da Prússia,
lá tiveram as suas razões para se desentenderem,
ganharam aliados, força, astúcia
e exércitos poderosos para se combaterem

A guerra dos sete anos
foi mais uma guerra na Europa,
teve muitas batalhas com muita gente,
redesenharam-se fronteiras na óptica
dos vencedores das linhas da frente,
e, como sempre,
os vencedores e os vencidos assinaram
um tratado

E o povo?, e o povo?, sim, o povo?,
como ficou o povo?
o povo morreu esfomeado,
é sempre assim a guerra,
A minha guerra
contra as sequelas
de um severo avc,
um horror,
dura há cerca
de um ano,
serei eu o vencedor?
espero que sim,
apesar de continuar muito aflito
sem armas e sem pujança,
conto com o meu exército:
amigos, família, calor, fisioterapeutas,
esperança