segunda-feira, 19 de junho de 2017

caí no poço

caí no fundo de um poço
está muito frio,
estou preguiçoso.
não consigo agarrar-me á parede,
o musgo é escorregadio,
estou a afogar-me
e a morrer de sede,
quando subo um pouco.
escorrego logo
este poço mede
mede,mede.mede.
não há quem me chegue
uma escada para subir,
as minhas fisioterapeutas
já desenharam várias escadas,
mas ainda não me tiraram daqui
ms dizem-me. tenha paciencia
lá virá o dia que vamos acerta nas escadas


domingo, 18 de junho de 2017

na loca do cabeço

sempre ouvi dizer que que na loca do cabeço
 mora uma moira muito linda e encantada
tão rica que até tem ouro no seu cabelo
 por isso só sai de noite para apanhar ar e luar,
 o seu respirar ouve-se até bastante longe desse lugar,

diz-se no vale que ela está sempre a chorar e a chamar
o seu amado para subir ao cabeço para a amar

também se diz no vale que um homem de lá conseguiu ver
o seu  rosto e ficou logo curado das sequelas de um avc

se assim foi, alguém me diz  como encontrar essa moira mulher

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Escrever

Escrever
por prazer
o ritmo das palavras tortas
sempre curvas,
azar, porra, que merda,
falta de forças
na minha perna
sempre torcida

Que merda de vida,
desespero
e faço desesperar
quem me cuida
com tanto esmero

Até já tolero
alfinetes
em todo o corpo,
dizem-me
que endireitam
o que está torto

Mas depois de tanta picadela,
continuo torto
e chato,
só me apetece
fechar a janela

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Uma noite de trovoada na charneca


Aquele transporte de vinho entre a Perulheira
e a Loureira era, na verdade, uma acção de contrabando,
duas mimosas pipas de vinho atravessavam a charneca
numa noite de trovoada em cima de um carro de bois
puxado por  uma simpática junta de vacas
guiadas pelo bando,
o meu pai e os filhos,

Não era comum estas carradas
circularem de noite por aqueles trilhos,
as autoridades não podiam saber que o vinho
vinha de uma adega
sem licença,
mas nessa noite não se via nada na charneca,
a chuva e o granizo encheram o caminho
de lama e de gelo,
valia o clarão dos relâmpagos
para se verem os lagos
e alguns dos barrocos de lama
que enchiam o caminho
por onde ia o vinho

Estava violenta a calma charneca,
finalmente, o vinho lá chegou a casa,
quando entrou, a lareira ainda estava acesa

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Páscoa

Jesus era judeu, um judeu nazareno,
era um judeu pregador, como ele havia mais,
pregavam contra as injustiças e as desigualdades,
mas Jesus, o Nazareno,
dizia ser Rei do seu Reino e fazia milagres,
por isso, serviram-lhe veneno
em vez de água
quando morria de sede pregado na cruz
Quem o crucificou era um simples cidadão
que se limitou a fazer jus
ao seu dever de carrasco
e Jesus não fugiu à cruz,
queria salvar-nos da perdição
e da maldição do mundo já então amaldiçoado
O mundo continua perdido e amaldiçoado
e ele morreu a gritar na cruz
- Pai, por que me abandonaste?
E tu, Jesus,
porque nos abandonaste?

Sim, tu abandonaste-nos,
mas não te esquecemos,
ó meu caro Jesus,
tu deixaste o teu registo, o teu caminho,
a História fez de ti um ícone
Por isso, sejas tu o Messias, o Filho de Deus,
sejas tu um simples galileu, judeu, samaritano,
nazareno, eritreu, árabe, romano,
palestiniano,
sejas tu ninguém,
sejas tu alguém do além,
sejas tu o que quiseres,
volta cá,
volta a nascer como menino Jesus,
como Filho de Deus,
ou como um ser mortal com a cruz
da vida às costas
como qualquer um de nós,
como queiras,
mas volta cá,
volta para pregares, para salvares,
para encheres as ceiras
de peixe fresco e de pão,
volta, volta que nós gostamos muito de milagres
e da bajulação,
volta, mas não voltes pobre,
volta como um rico proprietário de searas,
ou como um banqueiro,
ou como um rico herdeiro,
volta, mas não voltes a dizer que o teu reino
não é deste mundo,
o teu reino tem que ser deste mundo,
volta, volta outra vez
e serás Rei,
não só dos judeus,
mas de toda a gente,
dos desgraçados, dos doentes,
dos abandonados,
dos que têm falta de tudo,
do rico que vive à custa do pobre,
dos donos dos faustosos templos
onde se invoca o teu nome,
volta, volta cá,
para governares toda esta gente
Volta, mas ficas já avisado,
se voltares pobre e a bater o dente,
serás novamente crucificado
pela tua gente

Feliz Páscoa para todos

quarta-feira, 29 de março de 2017

Fumos e ventos

Fumos de fogueiras
ateadas no palco da guerra
são trazidos por ventos
pestilentos
que a matéria ardida encerra
Corpos humanos, equipamentos
destruidores da esperança, do bem-estar,
do respirar,
equipamentos feitos para estalar
e transformar em estilhaços
vidas que sabiam amar
e  que são agora apenas pedaços
de corpos a fumegar
É fácil disparar e apanhar
os corpos,
o vencedor corre a gritar,
ganhei, ganhei, tenho menos mortos

domingo, 19 de março de 2017

É quase Primavera

Hoje dormi a sesta,
quando despertei
as raras réstias
da luz solar na terra
eram varridas
pelas últimas aragens da tarde,
já sem força
para ventanias
nem para tempestade

Os pássaros que habitam
a grande árvore
da minha rua
já cantam
a Primavera
e eu sinto
que a janela
já aberta
não inunda de frio
o meu refúgio

Espero ouvir ainda o cuco
nesta Primavera
que se anuncia,
mesmo que venha rouco,
ou com pouca energia,
como eu estou

quinta-feira, 16 de março de 2017

Espasticidade

Transporto
este corpo
todo torto
encolhido
Já chega,
digo eu
aos astros
que mandam
na gravidade,
e dizem os meus maestros:
anda assim
porque tem muita espasticidade
Merda,
já não aguento este latim

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Carnaval

Hoje correu mais uma vez
sangue quente no morro da cidade,
morreu apenas um garoto,
um menino que agarrava
com força e tenacidade
a sua metralhadora,
mas não faz mal, é Carnaval
e ele era membro do gangue rival
do que não manda no morro agora

Morreu apenas uma criança,
uma bala perdida
tirou-lhe a vida
e já não viveu a esperança
de um dia ir à avenida
ver o samba que passa
no fim da ravina,
samba colorido
ornado de carne
coberta com penas de aves de rapina
e de lantejoulas de plástico,
é apenas o povo a dançar,
a chorar, a cantar,
é a alegria de um povo
cheio de mar
E eu que continuo preso no meu ovo
não posso dançar
nem voar
Desculpem, caros leitores,
este meu feitio de acabar mal,
triste e mascarado de dores,
mas não me levem a mal,
é Carnaval

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Um ano de avc

Faz hoje um ano de avc,
avc, a vida continua,
vejo-a a passar na rua que se vê
da  janela
do meu solitário quarto,
a minha cela
onde reflicto,
vejo-a a passar
no relógio de quartzo
sempre aflito
a dar horas e ordens,
quando soa o apito:
Bom dia, bom dia,
ergue-te dos lençóis
de Morfeu,
são horas da fisioterapia,
ergue-te, ergue-te
e mira a montanha
de Neruda,
faz-te foguete
e vai para a rua
estalar, voar, explodir,
chorar, rir e agradecer
porque tens ajuda,

Ó Luz, ó Luz,
Ajuda, ajuda!,
ainda preciso de ti
para vestir o capuz
e o bibe.

"Pai, pai,
menos lamúrias,
tanto ai
para nada,
quero mais luta
e menos lamentos",
é a voz da Lúcia
Que já se cansou
dos meus elementos.

Está bem, filha,
vou tentar
não me lamentar mais
nesta ilha
sem cais,
vou cantar

avc, a vida continua,
faz hoje um ano
que me deu a fúria,
mas ainda não se fechou o pano
do palco onde jogo a minha vida,
ainda quero caminhar
de perna esticada e erguida