domingo, 8 de abril de 2018

Armas

Estou desarmado,
faltam-me as ferramentas para ser feliz,
estou desorientado,
sem rumo, sem norte.

Faltam-me as palavras
que o mar diz
quando as vagas
estoiram nas praias
e espalham o iodo das pétalas de sal
que pululam nas saias
das peixeiras que recolhem
o que a rede trouxe
para dentro de caixas
que transportam até à lota
onde a frescura do sangue
que encharcava as guelras
vai ser avaliada
com base na batota
que determinará o preço
das espécies mais aptas
a encher o prato
da gente rica
que ainda pode comer peixe barato.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Arriar

Aqui, onde estou agora,
no hospital de Santa Maria,
ao meu redor está tudo a arriar,
arriam os enfermeiros e os doentes
mais o restante pessoal do hospital
que arria ao redor dos doentes
que jazem em poltronas quentes
do calor causado
pelos químicos ardentes
da quimioterapia vendida
em sacos de plástico
produzido pelo calor geotérmico.

Eu também arrio
e bem
Arrio vapor de água que tem no meio
uma boa dose de raiva
avivada em vão
por não ser eficaz
já que não desfaz
o bicho que me come
e não se satisfaz.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Mais um dia

Olá, caros amigos leitores.

Mais um dia sem andar,
mas não perco a esperança
de um dia acordar
com força e músculos
renovados, oleados, livres,
e iniciar a dança do andar
aos pulos
como uma criança.

Mas agora
tenho para percorrer
um novo caminho mais difícil,
sem termo, sem data,
pois o meu corpo
pregou-me outra partida, muito chata.
Arranjou-me um tumor
no esófago,
ainda por cima maligno.
O maldito
está a atrapalhar o meu caminho
de recuperação plena do avc.

Bolas, bolas, bolas, bolas,
que mais me irá acontecer?...

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Parabéns, Luz

Parabéns, Luz, pelo teu aniversário
desculpa não poder fazer-te mais feliz
Aconteceu isto e a nossa vida
ficou toda ao contrário
O alicerce onde se fixa a nossa raiz
está a ser inundado
e o teu matiz
anda menos corado

Tenho muita pena por te afligir tanto
Queria ser fera

Olá, amigos leitores.
Ainda não consegui dominar a besta
estou cheio de dores
acordei agora da sesta
e apetecia-me ser fera
o rei dos predadores
com dentes de aço afiados
para rasgar todos os tentáculos que atam
o meu corpo

Mas a besta é muito forte e teimosa
deixa-me furioso
e não diz nada
já não suporto
o barulho da sua voz
até já lhe ofereci uma rosa,
para me deixar,
que lhe deu um ataque de gozo
Fiquei ainda mais furioso
pois nem sequer posso amar

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Neuroelasticidade

É isso mesmo,
dizem-me que o nosso cérebro
tem a capacidade de se esticar
como faz um elástico,
ou seja,
ao morrer um neurónio,
outro ainda vivo pode vir
para o seu lugar e tentar
fazer o que o morto fazia
aprendendo a executar
a nova tarefa,
não por magia
mas com muito treino
e teimosia do dono
e dos fisioterapeutas
que nunca me deixaram
ao abandono

Ó neurónios meus
também não me abandonem agora,
vá lá, seus
malandros,
quero voltar para a minha história

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Caí no poço

Caí no fundo de um poço
faz muito frio
estou preguiçoso
Não consigo agarrar-me à parede
o musgo é escorregadio
estou a afogar-me
e a morrer de sede

Quando subo um pouco.
escorrego logo
Este poço mede
mede, mede, mede
não há quem me chegue
uma escada para subir
As minhas fisioterapeutas
já desenharam várias escadas
mas ainda não me tiraram daqui
Dizem-me "tenha paciência
lá virá o dia em que vamos acertar nas escadas"

domingo, 18 de junho de 2017

Na Loca do Cabeço

Sempre ouvi dizer que na Loca do Cabeço
mora uma moira muito linda e encantada
tão rica que até tem ouro no cabelo,
por isso só sai de noite para apanhar ar e luar,
o seu respirar ouve-se até bastante longe desse lugar

Diz-se no vale que ela está sempre a chorar e a chamar
o seu amado para subir ao cabeço para a amar

Também se diz no vale que um homem de lá conseguiu ver
o seu  rosto e ficou logo curado das sequelas de um avc

Se assim foi, alguém me diga como encontrar essa moira mulher

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Escrever

Escrever
por prazer
o ritmo das palavras tortas
sempre curvas,
azar, porra, que merda,
falta de forças
na minha perna
sempre torcida

Que merda de vida,
desespero
e faço desesperar
quem me cuida
com tanto esmero

Até já tolero
alfinetes
em todo o corpo,
dizem-me
que endireitam
o que está torto

Mas depois de tanta picadela,
continuo torto
e chato,
só me apetece
fechar a janela

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Uma noite de trovoada na charneca


Aquele transporte de vinho entre a Perulheira
e a Loureira era, na verdade, uma acção de contrabando,
duas mimosas pipas de vinho atravessavam a charneca
numa noite de trovoada em cima de um carro de bois
puxado por  uma simpática junta de vacas
guiadas pelo bando,
o meu pai e os filhos,

Não era comum estas carradas
circularem de noite por aqueles trilhos,
as autoridades não podiam saber que o vinho
vinha de uma adega
sem licença,
mas nessa noite não se via nada na charneca,
a chuva e o granizo encheram o caminho
de lama e de gelo,
valia o clarão dos relâmpagos
para se verem os lagos
e alguns dos barrocos de lama
que enchiam o caminho
por onde ia o vinho

Estava violenta a calma charneca,
finalmente, o vinho lá chegou a casa,
quando entrou, a lareira ainda estava acesa