Poema adolescente
Estava acorrentado a uma rocha
quando alguém,
possuído de rezas e de força,
rasgou os ferros
da corrente
e, aos berros,
anunciou um nascimento
Assim nasci,
nasci livre, solto,
mamei, chupei, chorei, rezei,
ri, cantei,
fui bebé, miúdo, garoto,
chateei, encantei
Nasci e cresci
sempre solto,
era franzino, inocente,
era o mais novo,
depois encontrei-me adolescente
e voltaram os ferros,
outros ferros,
com eles rolei pelas encostas,
rasguei os joelhos,
deixei-me ir em águas revoltas,
espantei bichos e feras,
mergulhei em barreiros e lagoas,
encharquei-me nas marés,
remei contra a corrente,
que força! que raiva!,
sempre aos pulos, sempre impaciente,
queria sempre mais
Até que, encostado
a um tronco esburacado,
descansei um pouco,
estava exausto de miragens,
não estava louco,
era só um viajante de más viagens
Foi quando
uma folha caída se agitou,
não havia vento,
a folha era uma uma voz
- eu sou alguém de que tu precisas,
ó alma adolescente,
sou a musa das premissas
e chamo-me Consequência,
segue-me
e afasta-te da inconsequência
Fiquei agarrado
e amparado
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
A pantera
Desequilibrou-se a pantera
e caiu no fundo da cratera
depois de um longo voo
sempre em queda
sem pára-quedas
e sem enjoo,
era cor de rosa
e ficou da cor das panquecas,
mas logo se recompôs
e seguiu a sua vida airosa,
era pantera e era cor de rosa
Desenhos animados,
animados porque andam
e porque me animam,
vivam os desenhos animados,
abaixo os desenhos desanimados
Hoje é o Dia Mundial do Desenho Animado
Desequilibrou-se a pantera
e caiu no fundo da cratera
depois de um longo voo
sempre em queda
sem pára-quedas
e sem enjoo,
era cor de rosa
e ficou da cor das panquecas,
mas logo se recompôs
e seguiu a sua vida airosa,
era pantera e era cor de rosa
Desenhos animados,
animados porque andam
e porque me animam,
vivam os desenhos animados,
abaixo os desenhos desanimados
Hoje é o Dia Mundial do Desenho Animado
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Sou do Governo
Hoje apetece-me ser do Governo,
apetece-me ser o Ministro
da Despensa e do Frigorífico
e, ao mesmo tempo,
o Ministro Tesoureiro
do Fisco,
esperem, tenho uma mensagem do Primeiro ...
lá está ele a chatear!
quer saber se há caviar, Moët & Chandon e marisco,
já estou a desesperar, o dinheiro
nem chega para a marmelada!
bem, vou telefonar ao meu peixeiro
e talvez arranje uma caldeirada
Hoje apetece-me ser do Governo,
apetece-me ser o Ministro
da Despensa e do Frigorífico
e, ao mesmo tempo,
o Ministro Tesoureiro
do Fisco,
esperem, tenho uma mensagem do Primeiro ...
lá está ele a chatear!
quer saber se há caviar, Moët & Chandon e marisco,
já estou a desesperar, o dinheiro
nem chega para a marmelada!
bem, vou telefonar ao meu peixeiro
e talvez arranje uma caldeirada
sábado, 24 de outubro de 2015
Sou caucasiano
Sempre me foi mais fácil determinar
a origem de uma mercadoria
do que identificar
a origem de uma pessoa
As regras de origem das mercadorias
estão escritas nos códigos aduaneiros
e nos acordos bilaterais, ou multilaterais,
negociados e assinados por suas senhorias,
os patrões desta aldeia global donos dos dinheiros,
das almas e dos materiais
As regras de origem das mercadorias
são muito divertidas,
ainda por cima estão escritas,
estudem-nas, sim, estudem-nas,
de certeza que se vão rir
Não é o que se passa
com as regras de origem das pessoas,
estas não estão escritas em acordos,
apenas estão escritas as normas
que determinam a nacionalidade,
ou a dupla nacionalidade,
que passam a constar no passaporte
Mas, cidadania não é o mesmo que origem,
sendo assim, não entendo por que razão
continuam a existir grupos de cidadãos
a defender a pureza da origem das pessoas
gritando a quem passa:
- não, não queremos cá os que não são da nossa raça
Eu explico,
agarramos em mim,
tenho a nacionalidade portuguesa
porque nasci aqui,
se tivesse nascido mais a norte,
ou mais a sul, ou do outro lado da fortaleza,
teria outra cor o meu passaporte
Mas, qual é a minha origem?
Seguramente, os meus antepassados
remotos não eram daqui, vieram para cá,
sim, vieram de lá para cá
e ficaram cá porque não lhes apeteceu
voltar para lá,
terão vindo para cá
como invasores, peregrinos,
refugiados sequiosos, famintos,
sei lá,
mas vieram e ficaram
Desde 1179, ano em que o Papa
reconheceu o primeiro Rei de Portugal
(ele não era filho da mãe, nem do pai,
era filho do aio),
todos os humanos que viviam aqui
passaram a ter nacionalidade portuguesa,
a não ser que tivessem de fugir
para não morrer,
e tiveram mesmo, e muitas vezes,
e continuam a fugir
Pronto, eu não fugi,
mas, repito, qual será a minha origem?
Será que tenho tecidos fenícios, cartagineses,
celtas, iberos, romanos, alanos,
vândalos, suevos, visigodos,
judeus, bascos, saxões, sarracenos,
castelhanos, francos, africanos ...?
Não sei,
mas acho que sou de origem dispersa,
acho que sou predominantemente alano
da Ossétia,
com uma pitada de sarraceno e de sefardita,
falo e escrevo o português, uma língua do ramo
do baixo latim,
mas a minha língua-mãe deveria ser o farsi
Ai se alguém sabe, o que será de mim?
Por favor, não digam nada, nem façam caso,
é tudo tão relativo, não, não me expulsem daqui,
por favor, não façam isso,
não, não me obriguem a regressar ao Cáucaso
Sempre me foi mais fácil determinar
a origem de uma mercadoria
do que identificar
a origem de uma pessoa
As regras de origem das mercadorias
estão escritas nos códigos aduaneiros
e nos acordos bilaterais, ou multilaterais,
negociados e assinados por suas senhorias,
os patrões desta aldeia global donos dos dinheiros,
das almas e dos materiais
As regras de origem das mercadorias
são muito divertidas,
ainda por cima estão escritas,
estudem-nas, sim, estudem-nas,
de certeza que se vão rir
Não é o que se passa
com as regras de origem das pessoas,
estas não estão escritas em acordos,
apenas estão escritas as normas
que determinam a nacionalidade,
ou a dupla nacionalidade,
que passam a constar no passaporte
Mas, cidadania não é o mesmo que origem,
sendo assim, não entendo por que razão
continuam a existir grupos de cidadãos
a defender a pureza da origem das pessoas
gritando a quem passa:
- não, não queremos cá os que não são da nossa raça
Eu explico,
agarramos em mim,
tenho a nacionalidade portuguesa
porque nasci aqui,
se tivesse nascido mais a norte,
ou mais a sul, ou do outro lado da fortaleza,
teria outra cor o meu passaporte
Mas, qual é a minha origem?
Seguramente, os meus antepassados
remotos não eram daqui, vieram para cá,
sim, vieram de lá para cá
e ficaram cá porque não lhes apeteceu
voltar para lá,
terão vindo para cá
como invasores, peregrinos,
refugiados sequiosos, famintos,
sei lá,
mas vieram e ficaram
Desde 1179, ano em que o Papa
reconheceu o primeiro Rei de Portugal
(ele não era filho da mãe, nem do pai,
era filho do aio),
todos os humanos que viviam aqui
passaram a ter nacionalidade portuguesa,
a não ser que tivessem de fugir
para não morrer,
e tiveram mesmo, e muitas vezes,
e continuam a fugir
Pronto, eu não fugi,
mas, repito, qual será a minha origem?
Será que tenho tecidos fenícios, cartagineses,
celtas, iberos, romanos, alanos,
vândalos, suevos, visigodos,
judeus, bascos, saxões, sarracenos,
castelhanos, francos, africanos ...?
Não sei,
mas acho que sou de origem dispersa,
acho que sou predominantemente alano
da Ossétia,
com uma pitada de sarraceno e de sefardita,
falo e escrevo o português, uma língua do ramo
do baixo latim,
mas a minha língua-mãe deveria ser o farsi
Ai se alguém sabe, o que será de mim?
Por favor, não digam nada, nem façam caso,
é tudo tão relativo, não, não me expulsem daqui,
por favor, não façam isso,
não, não me obriguem a regressar ao Cáucaso
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Um poema do meu sótão
Amor livre,
amor impossível,
amor à primeira vista,
amor hippie,
amor utópico,
amor à Woodstock,
amor desgosto,
amor a arder no fogo
do inferno
porque não entra no paraíso,
diz o confessor
como aviso,
não, não sigam esse amor,
repete o confessor,
porque é pecado e merece castigo,
sigam antes o destino
já destinado pelo destino
Mas eu não engulo esse fogo,
por isso sou esta tristeza ambulante,
um ser perdido
no meio da floresta
de abetos,
sou um condor ferido,
não, não quero o meu destino,
não quero esta tristeza ambulante,
quem me mandou ler Dante?
E sonhei que parti,
que parti com o sonho de ser cavaleiro andante,
sonhei que parti sozinho com a desventura
por esse mundo além
à procura do palácio encantado da ventura,
sonhei que cheguei a um castelo
e que perguntei:
- vive aqui alguém?
e ninguém respondeu,
mas continuei,
subi uma montanha,
desci uma colina,
atravessei um vale,
e vi numa esquina
um ser vivo
e perguntei:
- vive aqui alguém?
e ele respondeu,
- ninguém,
depois atravessei um rio,
transpus um outeiro,
aguentei o sol
e numa árvore
encontrei um rouxinol
a cantar, e cantava, e cantava,
e perguntei:
- cantas sozinho?,
- sim, eu canto sozinho,
também ele!
Mas, quem é que me mandou para este vale?
mas, quem é que me mandou ler Antero de Quental?
Amor livre,
amor impossível,
amor à primeira vista,
amor hippie,
amor utópico,
amor à Woodstock,
amor desgosto,
amor a arder no fogo
do inferno
porque não entra no paraíso,
diz o confessor
como aviso,
não, não sigam esse amor,
repete o confessor,
porque é pecado e merece castigo,
sigam antes o destino
já destinado pelo destino
Mas eu não engulo esse fogo,
por isso sou esta tristeza ambulante,
um ser perdido
no meio da floresta
de abetos,
sou um condor ferido,
não, não quero o meu destino,
não quero esta tristeza ambulante,
quem me mandou ler Dante?
E sonhei que parti,
que parti com o sonho de ser cavaleiro andante,
sonhei que parti sozinho com a desventura
por esse mundo além
à procura do palácio encantado da ventura,
sonhei que cheguei a um castelo
e que perguntei:
- vive aqui alguém?
e ninguém respondeu,
mas continuei,
subi uma montanha,
desci uma colina,
atravessei um vale,
e vi numa esquina
um ser vivo
e perguntei:
- vive aqui alguém?
e ele respondeu,
- ninguém,
depois atravessei um rio,
transpus um outeiro,
aguentei o sol
e numa árvore
encontrei um rouxinol
a cantar, e cantava, e cantava,
e perguntei:
- cantas sozinho?,
- sim, eu canto sozinho,
também ele!
Mas, quem é que me mandou para este vale?
mas, quem é que me mandou ler Antero de Quental?
domingo, 18 de outubro de 2015
Deus
Vejo cruzes, vejo campanários,
vejo estátuas, vejo colunatas,
vejo basílicas, catedrais, torreões,
conventos, santuários,
vejo altares, vejo arcadas,
ouço missas, terços, sermões,
ouço milagres em promessas pagas,
tudo em nome de Deus,
aí O procuro, mas não O vejo
Vejo muros, lamentações,
vejo explosões e orações
em terras prometidas
pelo mesmo Deus
a tribos por Ele escolhidas,
aí O procuro, mas não O vejo
Vejo mesquitas, minaretes,
multidões de fiéis
a atirar seixos a paredes
transfiguradas no diabo
e a vociferar contra os infiéis
que abominam o mesmo diabo,
tudo em nome do mesmo Deus,
aí O procuro, mas não O vejo
Vejo um sorriso
de uma criança feliz
a jogar ao berlinde
com outra criança feliz,
não o fazem em nome de Deus,
mas, se Ele existe, talvez esteja aí,
escondido, para eu não O ver
Vejo cruzes, vejo campanários,
vejo estátuas, vejo colunatas,
vejo basílicas, catedrais, torreões,
conventos, santuários,
vejo altares, vejo arcadas,
ouço missas, terços, sermões,
ouço milagres em promessas pagas,
tudo em nome de Deus,
aí O procuro, mas não O vejo
Vejo muros, lamentações,
vejo explosões e orações
em terras prometidas
pelo mesmo Deus
a tribos por Ele escolhidas,
aí O procuro, mas não O vejo
Vejo mesquitas, minaretes,
multidões de fiéis
a atirar seixos a paredes
transfiguradas no diabo
e a vociferar contra os infiéis
que abominam o mesmo diabo,
tudo em nome do mesmo Deus,
aí O procuro, mas não O vejo
Vejo um sorriso
de uma criança feliz
a jogar ao berlinde
com outra criança feliz,
não o fazem em nome de Deus,
mas, se Ele existe, talvez esteja aí,
escondido, para eu não O ver
sábado, 17 de outubro de 2015
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
A boda dos espíritos
A sala tem uma excelente acústica,
vibra desde o soalho até ao topo,
neste serão vai vibrar com música
clássica allegro ma non troppo
A orquestra já afinou os tons,
na plateia já não há pigarreia,
os dedos dos músicos estão prontos,
o maestro levanta a mão direita
E a orquestra começa a tocar,
os tímbalos marcam a cadência,
tumba, tumba, tumba, a dar, a dar,
e o maestro a perder a paciência
Os tímbalos não abrandam o ritmo,
os violoncelos falham os acordes,
os violinos entram em desatino,
seguindo os oboés e os fagotes
O piano embala uma valsa,
as cordas das violas um flamenco,
o pífaro chama nomes à flauta
e as trompas levantam um pé-de-vento
Uma tuba sussurra que não toca
mais nesta ditadura da batuta,
a harpa quer violar a viola
e a lira delira com o kama sutra
O piano começa a dar pulos,
um violino voa contra o tímbalo,
um contrabaixo só emite urros
e o maestro cai redondo no palco
Todos os instrumentos estão loucos,
os das cordas enrolam os dos sopros,
os dos metais vomitam bicharocos,
os da percussão estão todos rotos
O caos finda quando o gongo anuncia
o início da boda dos espíritos,
os músicos ficam quietos e hirtos
e na plateia começa uma orgia
A sala tem uma excelente acústica,
vibra desde o soalho até ao topo,
neste serão vai vibrar com música
clássica allegro ma non troppo
A orquestra já afinou os tons,
na plateia já não há pigarreia,
os dedos dos músicos estão prontos,
o maestro levanta a mão direita
E a orquestra começa a tocar,
os tímbalos marcam a cadência,
tumba, tumba, tumba, a dar, a dar,
e o maestro a perder a paciência
Os tímbalos não abrandam o ritmo,
os violoncelos falham os acordes,
os violinos entram em desatino,
seguindo os oboés e os fagotes
O piano embala uma valsa,
as cordas das violas um flamenco,
o pífaro chama nomes à flauta
e as trompas levantam um pé-de-vento
Uma tuba sussurra que não toca
mais nesta ditadura da batuta,
a harpa quer violar a viola
e a lira delira com o kama sutra
O piano começa a dar pulos,
um violino voa contra o tímbalo,
um contrabaixo só emite urros
e o maestro cai redondo no palco
Todos os instrumentos estão loucos,
os das cordas enrolam os dos sopros,
os dos metais vomitam bicharocos,
os da percussão estão todos rotos
O caos finda quando o gongo anuncia
o início da boda dos espíritos,
os músicos ficam quietos e hirtos
e na plateia começa uma orgia
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Caminhadas
Ando a caminhar
no ar
de pernas para o ar,
vejo o mundo
a ir ao fundo,
não sou capaz
de aterrar
Ando a caminhar
no chão
de pernas para o chão,
vejo o mundo
de olhos no chão,
não sou capaz
de os levantar
Ando a caminhar
na Lua
sem gravidade,
vejo a Terra iluminada,
bonita, azul,
será mesmo verdade?
Ando a caminhar
no ar
de pernas para o ar,
vejo o mundo
a ir ao fundo,
não sou capaz
de aterrar
Ando a caminhar
no chão
de pernas para o chão,
vejo o mundo
de olhos no chão,
não sou capaz
de os levantar
Ando a caminhar
na Lua
sem gravidade,
vejo a Terra iluminada,
bonita, azul,
será mesmo verdade?
sábado, 10 de outubro de 2015
A partir de hoje sou 60tão
Dêem-me um aperto de mão,
mirem bem este meu rosto,
apalpem este meu corpo,
a partir de hoje sou 60tão
Estou como um melão que não foi comido
na época estival, nas festas de Agosto,
fiquei de parte, não fui escolhido,
mas ainda me podem tomar o gosto
Apalpem-me, cortem-me às talhadas,
sirvam-se das rugas e da pilosidade,
cheirem o meu suor, tragam-me carradas
de amor fora do prazo de validade
Dispam-se, dancem para mim o fandango,
cantem-me os parabéns na versão abreviada,
aquela versão que se canta assobiando,
depois comam e bebam do que houver na bancada,
enquanto eu fico a murmurar estes versos,
como se fossem ladainhas de terços:
Já não sirvo para colher,
já não dou para sementeira,
muito menos para comer,
já sinto o calor da lareira;
Mas ainda quero ser
um papiro para escrever,
um átomo para arder,
um sopro de amanhecer;
Um gelado a derreter,
muitos beijos a bailar,
um desejo a ansiar,
uma caneta a escrever;
Um coração a pulsar
e uma voz a provocar
com a manha de garoto
até ao último sopro
Dêem-me um aperto de mão,
a partir de hoje sou 60tão,
vou ter de fazer contas com o passado,
vou ter de somar o que fiz
e não devia ter feito,
ao que podia ter feito e não fiz,
e não fiz apenas porque não quis
e, quiçá, porque se o fizesse
ficaria cativo dos remorsos
que despertam quando lhes apetece,
são fortes os remorsos
Sim, vou ter de fazer contas com o passado,
mas, em vez de somar, vou antes subtrair,
vou subtrair ao que fiz e devia ter feito,
ao que não devia ter feito e fiz,
assim, ficarei apenas com o que fiz e devia ter feito
(estão confusos com a minha aritmética?
também eu,
nunca tive jeito para a aritmética, nem para a dialética)
Mas vou contar com o futuro,
sim, com o futuro que está sempre próximo,
conto, porque ainda estou vivo,
porque ainda me apetece buscar o tempo perdido,
não, não vou reler o Proust,
nem procurar divindades nas entranhas do meu fígado,
mas vou tentar gozar os prazeres dos deuses do Olimpo,
daqueles que, por se portarem mal, também tiveram uma vida efémera,
vou dormir, ler, escrever, comer, beber, et cetera
Vá lá,
dêem-me um aperto de mão,
dêem-me um bacalhau, um espadarte,
um pífaro, um carro de mão,
um palácio, uma obra de arte
uma enxada, um buraco no chão,
um pontapé, uma bofetada,
uma corda, um cordão,
uma gravata, um alfinete,
um arrependimento, uma vergastada,
uma concha, um búzio,
um livro, um torniquete,
uma contrição, umas orelhas de burro,
dêem-me, dêem-me uma fornada de pão,
dêem-me também uma estrada e uma paixão
para caminhar até à exaustão,
porque a partir de hoje sou 60tão
Mas se não me derem nada
não faz mal,
se calhar até é melhor
não me darem nada,
a genial Natália já me deu
tudo, ou quase tudo,
deu-me:
"um lírio e um canivete,
um barco e um chapéu,
um esquife feito de ferro,
um pente e um espelho,
um avião e um violino"
e continua a dar-me todo o seu verso,
a sua voz, o seu grito,
só ainda não me deu
"o animal que espeta os cornos no destino"
Obrigado por terem vindo
Dêem-me um aperto de mão,
mirem bem este meu rosto,
apalpem este meu corpo,
a partir de hoje sou 60tão
Estou como um melão que não foi comido
na época estival, nas festas de Agosto,
fiquei de parte, não fui escolhido,
mas ainda me podem tomar o gosto
Apalpem-me, cortem-me às talhadas,
sirvam-se das rugas e da pilosidade,
cheirem o meu suor, tragam-me carradas
de amor fora do prazo de validade
Dispam-se, dancem para mim o fandango,
cantem-me os parabéns na versão abreviada,
aquela versão que se canta assobiando,
depois comam e bebam do que houver na bancada,
enquanto eu fico a murmurar estes versos,
como se fossem ladainhas de terços:
Já não sirvo para colher,
já não dou para sementeira,
muito menos para comer,
já sinto o calor da lareira;
Mas ainda quero ser
um papiro para escrever,
um átomo para arder,
um sopro de amanhecer;
Um gelado a derreter,
muitos beijos a bailar,
um desejo a ansiar,
uma caneta a escrever;
Um coração a pulsar
e uma voz a provocar
com a manha de garoto
até ao último sopro
Dêem-me um aperto de mão,
a partir de hoje sou 60tão,
vou ter de fazer contas com o passado,
vou ter de somar o que fiz
e não devia ter feito,
ao que podia ter feito e não fiz,
e não fiz apenas porque não quis
e, quiçá, porque se o fizesse
ficaria cativo dos remorsos
que despertam quando lhes apetece,
são fortes os remorsos
Sim, vou ter de fazer contas com o passado,
mas, em vez de somar, vou antes subtrair,
vou subtrair ao que fiz e devia ter feito,
ao que não devia ter feito e fiz,
assim, ficarei apenas com o que fiz e devia ter feito
(estão confusos com a minha aritmética?
também eu,
nunca tive jeito para a aritmética, nem para a dialética)
Mas vou contar com o futuro,
sim, com o futuro que está sempre próximo,
conto, porque ainda estou vivo,
porque ainda me apetece buscar o tempo perdido,
não, não vou reler o Proust,
nem procurar divindades nas entranhas do meu fígado,
mas vou tentar gozar os prazeres dos deuses do Olimpo,
daqueles que, por se portarem mal, também tiveram uma vida efémera,
vou dormir, ler, escrever, comer, beber, et cetera
Vá lá,
dêem-me um aperto de mão,
dêem-me um bacalhau, um espadarte,
um pífaro, um carro de mão,
um palácio, uma obra de arte
uma enxada, um buraco no chão,
um pontapé, uma bofetada,
uma corda, um cordão,
uma gravata, um alfinete,
um arrependimento, uma vergastada,
uma concha, um búzio,
um livro, um torniquete,
uma contrição, umas orelhas de burro,
dêem-me, dêem-me uma fornada de pão,
dêem-me também uma estrada e uma paixão
para caminhar até à exaustão,
porque a partir de hoje sou 60tão
Mas se não me derem nada
não faz mal,
se calhar até é melhor
não me darem nada,
a genial Natália já me deu
tudo, ou quase tudo,
deu-me:
"um lírio e um canivete,
um barco e um chapéu,
um esquife feito de ferro,
um pente e um espelho,
um avião e um violino"
e continua a dar-me todo o seu verso,
a sua voz, o seu grito,
só ainda não me deu
"o animal que espeta os cornos no destino"
Obrigado por terem vindo
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
A minha aguarela
Uma palete de cores, um pincel, uma tela
de papel, um quadro vazio,
vou pintar a minha aguarela,
vou pintar os meus amores, o meu rio,
a minha alma, a minha janela,
vou pintar a minha vida
com a minha tinta
e com o meu pincel naïf
Um pingo de amarelo e tenho o sol
a nascer,
um pingo de verde e tenho o meu lençol
de relva a crescer,
vários pingos de várias cores
e tenho casinhas, a igreja, caminhos,
crianças a brincar, flores,
arvoredo, passarinhos,
rebanhos, pastores
Um pingo de azul e tenho o céu
sem nuvens,
falta-me pintar o rio, o rio que é só meu,
- diz-me ó suave pincel de penugens,
de que cor devo pintar o rio da minha vida?
- mistura no godé um pingo de vermelho,
a cor do sangue que corre em ti,
um pingo de azul, a cor de fundo do teu espelho,
um pingo de verde, a cor da alegria,
muitos pingos de branco e de preto,
as cores neutras que reflectem a tua dor, a tua fúria,
mistura tudo muito bem e tens a cor do teu rio,
por onde corre a tua vida, o teu destino
Eu sei que a água deve espelhar a cor do céu,
por isso deveria ser azul o rio da minha aguarela,
mas não é,
a água do meu rio é negra como o breu,
volto a misturar, ponho um pouco mais de azul,
e nada, a água do meu rio continua escura
Olhem, olhem,
o meu rio está a inundar a minha aguarela,
está a ficar toda negra a minha aguarela,
toda negra, toda negra,
ai as minhas casinhas, as minhas crianças,
ai os rebanhos, os pastores,
não acredito no que me está a acontecer,
fecho os olhos, não quero ver,
parece que ouço gritos, clamores,
estarão a morrer?
Mas que lamaçal!
inundou-se a aguarela
da minha vida, que fiz eu de mal?
talvez o meu estilo de pintar
não se dê com esta tela,
talvez tenha doseado mal a água,
talvez tenha faltado a luz na minha aguarela,
talvez seja do pincel,
ou das minhas mãos que não o agarram bem
Vou tentar pintar outra vez
a minha aguarela,
mas agora não vou usar pincel,
vou encher a minha tela
só com palavras,
mas vou procurar palavras
que só podem ser escritas com tinta de mel
e aparos de favos,
palavras doces, temperadas, afáveis,
mas eu não sei como fazer tinta de mel
nem aparos de favos,
alguém sabe?
Uma palete de cores, um pincel, uma tela
de papel, um quadro vazio,
vou pintar a minha aguarela,
vou pintar os meus amores, o meu rio,
a minha alma, a minha janela,
vou pintar a minha vida
com a minha tinta
e com o meu pincel naïf
Um pingo de amarelo e tenho o sol
a nascer,
um pingo de verde e tenho o meu lençol
de relva a crescer,
vários pingos de várias cores
e tenho casinhas, a igreja, caminhos,
crianças a brincar, flores,
arvoredo, passarinhos,
rebanhos, pastores
Um pingo de azul e tenho o céu
sem nuvens,
falta-me pintar o rio, o rio que é só meu,
- diz-me ó suave pincel de penugens,
de que cor devo pintar o rio da minha vida?
- mistura no godé um pingo de vermelho,
a cor do sangue que corre em ti,
um pingo de azul, a cor de fundo do teu espelho,
um pingo de verde, a cor da alegria,
muitos pingos de branco e de preto,
as cores neutras que reflectem a tua dor, a tua fúria,
mistura tudo muito bem e tens a cor do teu rio,
por onde corre a tua vida, o teu destino
Eu sei que a água deve espelhar a cor do céu,
por isso deveria ser azul o rio da minha aguarela,
mas não é,
a água do meu rio é negra como o breu,
volto a misturar, ponho um pouco mais de azul,
e nada, a água do meu rio continua escura
Olhem, olhem,
o meu rio está a inundar a minha aguarela,
está a ficar toda negra a minha aguarela,
toda negra, toda negra,
ai as minhas casinhas, as minhas crianças,
ai os rebanhos, os pastores,
não acredito no que me está a acontecer,
fecho os olhos, não quero ver,
parece que ouço gritos, clamores,
estarão a morrer?
Mas que lamaçal!
inundou-se a aguarela
da minha vida, que fiz eu de mal?
talvez o meu estilo de pintar
não se dê com esta tela,
talvez tenha doseado mal a água,
talvez tenha faltado a luz na minha aguarela,
talvez seja do pincel,
ou das minhas mãos que não o agarram bem
Vou tentar pintar outra vez
a minha aguarela,
mas agora não vou usar pincel,
vou encher a minha tela
só com palavras,
mas vou procurar palavras
que só podem ser escritas com tinta de mel
e aparos de favos,
palavras doces, temperadas, afáveis,
mas eu não sei como fazer tinta de mel
nem aparos de favos,
alguém sabe?
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Blocos
Eu tenho três blocos,
todos eles ocos,
um à minha direita, o bloco da direita,
outro à minha frente, o bloco central,
outro à minha esquerda, o bloco da esquerda,
o da direita é de esferovite contrafeita,
o central é de pedra sem cimento e sem cal,
o da esquerda é de tijolo feito de palha e de erva
Se lhes der um pontapé,
caem como um baralho de cartas,
mas tenho esperança e fé
que os políticos carpinteiros e pedreiros
vão-me construir um bloco de retaguarda,
um bloco forte e sem rodeios
Eu tenho três blocos,
todos eles ocos,
um à minha direita, o bloco da direita,
outro à minha frente, o bloco central,
outro à minha esquerda, o bloco da esquerda,
o da direita é de esferovite contrafeita,
o central é de pedra sem cimento e sem cal,
o da esquerda é de tijolo feito de palha e de erva
Se lhes der um pontapé,
caem como um baralho de cartas,
mas tenho esperança e fé
que os políticos carpinteiros e pedreiros
vão-me construir um bloco de retaguarda,
um bloco forte e sem rodeios
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
A vida é como um rio
Vai com a força do rio
esta água a correr,
como posso eu beber
água fresca deste rio?
Um rio é como a vida,
nasce do chão a chorar
por não saber respirar,
mas logo sai em corrida
Daí a pouco já brinca
a refilar com as margens
e a colorir paisagens,
sendo a água a sua tinta
Quilómetros mais à frente
vai mais foito o meu rio,
encontra um afluente
e abraça-o como amigo
Mas vem muito poluído
o ribeiro afluente,
dá um grito o meu rio
e desmaia de repente
Já não bebo desta água,
poluíram o meu rio,
já não paro nesta fraga,
cheira mal este meu rio
Não te deixes abater
ó rio da minha vida,
arrebita, arrebita,
quero-te para beber
Um rio é como a vida,
nasce, corre e faz viver
tudo o que nele se abriga,
tudo o que dele beber
Mas se a água do rio
não for agua de beber,
ele é um morto vivo,
morreu antes de morrer
Um rio é como a vida,
a vida é como um rio,
nascem para a descida
e descem até ao fim
E o fim é só um esgar,
foi um ar que lhe deu,
o rio fica no mar
e a vida quer ir prò céu
Vai com a força do rio
esta água a correr,
como posso eu beber
água fresca deste rio?
Um rio é como a vida,
nasce do chão a chorar
por não saber respirar,
mas logo sai em corrida
Daí a pouco já brinca
a refilar com as margens
e a colorir paisagens,
sendo a água a sua tinta
Quilómetros mais à frente
vai mais foito o meu rio,
encontra um afluente
e abraça-o como amigo
Mas vem muito poluído
o ribeiro afluente,
dá um grito o meu rio
e desmaia de repente
Já não bebo desta água,
poluíram o meu rio,
já não paro nesta fraga,
cheira mal este meu rio
Não te deixes abater
ó rio da minha vida,
arrebita, arrebita,
quero-te para beber
Um rio é como a vida,
nasce, corre e faz viver
tudo o que nele se abriga,
tudo o que dele beber
Mas se a água do rio
não for agua de beber,
ele é um morto vivo,
morreu antes de morrer
Um rio é como a vida,
a vida é como um rio,
nascem para a descida
e descem até ao fim
E o fim é só um esgar,
foi um ar que lhe deu,
o rio fica no mar
e a vida quer ir prò céu
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Sou Rei
Olá, sou o Vitório Rei
e hoje apetece-me ser Rei
a sério,
vou pôr a minha coroa de ouro de lei
e não saio do meu castelo
do Restelo,
abaixo a República,
até fico com todo o meu pêlo
em pé,
só de ousar pronunciar essa palavra
que viola a minha mais íntima fé
Hoje sou Rei
e fico em casa a reflectir,
vou ter de decidir
quem hei-de
chamar para formar governo,
se a coligação de direita,
se o saco de gatos da esquerda,
todos uns republicanos de merda
Hoje quero ser um Rei a sério,
não quero sair do meu castelo,
abaixo a República,
quero outra vez o meu império
- vai-te embora ó velho cavaco,
nunca valeste nada, seu velhaco
Mau,
uma manifestação debaixo da janela
do meu castelo,
vou já chamar a Guarda Nacional Republicana,
porra, lá tive que dizer outra vez
aquela palavra
Hoje é dia da República,
viva a República de Portugal
Olá, sou o Vitório Rei
e hoje apetece-me ser Rei
a sério,
vou pôr a minha coroa de ouro de lei
e não saio do meu castelo
do Restelo,
abaixo a República,
até fico com todo o meu pêlo
em pé,
só de ousar pronunciar essa palavra
que viola a minha mais íntima fé
Hoje sou Rei
e fico em casa a reflectir,
vou ter de decidir
quem hei-de
chamar para formar governo,
se a coligação de direita,
se o saco de gatos da esquerda,
todos uns republicanos de merda
Hoje quero ser um Rei a sério,
não quero sair do meu castelo,
abaixo a República,
quero outra vez o meu império
- vai-te embora ó velho cavaco,
nunca valeste nada, seu velhaco
Mau,
uma manifestação debaixo da janela
do meu castelo,
vou já chamar a Guarda Nacional Republicana,
porra, lá tive que dizer outra vez
aquela palavra
Hoje é dia da República,
viva a República de Portugal
sábado, 3 de outubro de 2015
Uma tarde de reflexão
Os sons do entardecer deste Outono
ainda quente, teimoso,
fazem-me sono,
enrolam-me em filamentos de letargia
e cobrem de melancolia o meu espírito,
não estou triste,
mas também não sinto alegria
Estou ensonado
nesta tarde de Outono
e não consigo ver-me em nenhum lado,
estou assim, insosso,
atrofiado, no meu pátio
Mas estou obrigado
a reflectir
nesta tarde de Outono,
pedem-me para decidir
a quem dar o meu voto
quando amanhã estiver só
na cabine de voto
Está bem, vou reflectir:
Eu voto sempre,
e voto porque posso votar em liberdade,
há muita gente
que não o pode fazer,
e houve muita gente
que lutou até morrer
para eu agora o poder fazer,
por isso, voto sempre,
e nunca anulo o meu voto,
nem o pinto de branco,
porque ainda acredito que me dizem a verdade
quando pedem o meu voto,
voto e tento não votar em quem mente,
antes ou depois do meu voto,
mas diz-me a voz do povo:
quem mente uma vez, mente sempre,
e na política só deixam de mentir
quando as galinhas tiverem dentes
Será mesmo assim?
Eu sei que o meu Estado
está nas mãos dos credores,
mas, quem quer governar
não o diz,
eu sei que o meu Estado
continua a tirar aos pobres
para pagar juros à usura dos vendedores
de dinheiro, a quem chamam "mercados",
mas, quem quer governar
não o diz,
eu sei que o meu Estado
pediu e continua a pedir
muito dinheiro emprestado
para poder gerir
e sustentar a sua clientela,
aqueles que enriquecem a sugar o meu Estado,
sobrando apenas uma pequena parcela
para os seus empregados,
para a saúde pública, para a educação
para a solidariedade,
para uma nação feliz,
mas, quem quer governar
não o diz
Eu sei que o Banco Central Europeu
vai deixar de comprar dívida pública
e que o meu Estado vai entrar em falência técnica,
depois terei que aturar aquela linguagem pudica
dos economistas a explicar
que a dívida do meu Estado é insustentável,
mas todos temos que a pagar
e não se pode dar a entender aos credores
que não a podemos pagar,
caso contrário, aumenta para o dobro
logo no dia seguinte,
e quem governa limita-se a dizer
que a culpa não é dele,
- não, a culpa não é minha,
a culpa é daquele
que governou antes de mim
Eu sei que, apesar dos esforços
dos mais pobres,
a dívida pública do meu Estado
aumentou muito nos últimos quatro anos,
sim, aumentou em vez de diminuir,
já me explicaram porquê
e eu não percebi,
mas, quem governa
também não percebe
A política
será mesmo uma mentira?
Teremos outra alternativa
a esta democracia representativa
baseada em partidos de caciques?
Pronto,
não reflicto mais,
já não maço mais a minha cabeça,
vou continuar insosso
e esperar que este dia anoiteça,
amanhã será outro dia de Outono,
os magos do tempo prevêem tempestade,
ventos fortes e chuva pesada,
os magos do tempo costumam dizer a verdade
Os sons do entardecer deste Outono
ainda quente, teimoso,
fazem-me sono,
enrolam-me em filamentos de letargia
e cobrem de melancolia o meu espírito,
não estou triste,
mas também não sinto alegria
Estou ensonado
nesta tarde de Outono
e não consigo ver-me em nenhum lado,
estou assim, insosso,
atrofiado, no meu pátio
Mas estou obrigado
a reflectir
nesta tarde de Outono,
pedem-me para decidir
a quem dar o meu voto
quando amanhã estiver só
na cabine de voto
Está bem, vou reflectir:
Eu voto sempre,
e voto porque posso votar em liberdade,
há muita gente
que não o pode fazer,
e houve muita gente
que lutou até morrer
para eu agora o poder fazer,
por isso, voto sempre,
e nunca anulo o meu voto,
nem o pinto de branco,
porque ainda acredito que me dizem a verdade
quando pedem o meu voto,
voto e tento não votar em quem mente,
antes ou depois do meu voto,
mas diz-me a voz do povo:
quem mente uma vez, mente sempre,
e na política só deixam de mentir
quando as galinhas tiverem dentes
Será mesmo assim?
Eu sei que o meu Estado
está nas mãos dos credores,
mas, quem quer governar
não o diz,
eu sei que o meu Estado
continua a tirar aos pobres
para pagar juros à usura dos vendedores
de dinheiro, a quem chamam "mercados",
mas, quem quer governar
não o diz,
eu sei que o meu Estado
pediu e continua a pedir
muito dinheiro emprestado
para poder gerir
e sustentar a sua clientela,
aqueles que enriquecem a sugar o meu Estado,
sobrando apenas uma pequena parcela
para os seus empregados,
para a saúde pública, para a educação
para a solidariedade,
para uma nação feliz,
mas, quem quer governar
não o diz
Eu sei que o Banco Central Europeu
vai deixar de comprar dívida pública
e que o meu Estado vai entrar em falência técnica,
depois terei que aturar aquela linguagem pudica
dos economistas a explicar
que a dívida do meu Estado é insustentável,
mas todos temos que a pagar
e não se pode dar a entender aos credores
que não a podemos pagar,
caso contrário, aumenta para o dobro
logo no dia seguinte,
e quem governa limita-se a dizer
que a culpa não é dele,
- não, a culpa não é minha,
a culpa é daquele
que governou antes de mim
Eu sei que, apesar dos esforços
dos mais pobres,
a dívida pública do meu Estado
aumentou muito nos últimos quatro anos,
sim, aumentou em vez de diminuir,
já me explicaram porquê
e eu não percebi,
mas, quem governa
também não percebe
A política
será mesmo uma mentira?
Teremos outra alternativa
a esta democracia representativa
baseada em partidos de caciques?
Pronto,
não reflicto mais,
já não maço mais a minha cabeça,
vou continuar insosso
e esperar que este dia anoiteça,
amanhã será outro dia de Outono,
os magos do tempo prevêem tempestade,
ventos fortes e chuva pesada,
os magos do tempo costumam dizer a verdade
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Música
Gostava de escrever um poema
com sons de notas e de ritmos,
mas não posso, a minha pena
só tem ouvidos
para palavras e tons tremidos
Gostava de escrever uma canção
com sons de pássaros e de abelhas,
mas da minha mão
não saem claves, nem colcheias,
nem fusas, nem semifusas,
só saem linhas e teias
de letras e de vírgulas
Gostava de escrever uma sinfonia,
dar sons aos violinos, aos violoncelos,
aos tímbalos, às tubas, aos oboés,
uma sublime harmonia emanaria
de toda a orquestra,
tão sublime que subiria aos céus
conduzida pela batuta do maestro
Gostava de escrever um fado,
um fado vestido de lágrimas
e de saudade para ser tocado
por chorosas guitarras
num qualquer beco mal afamado
acompanhando vozes agarradas
às lamúrias do nosso triste fado
Gostava de saber escrever música,
gostava de a saber ler, tocar e cantar,
assim amaria mais a minha musa,
dar-lhe-ia uma harpa de encantar,
seria tão bom, ela a tocar
e eu escrever a letra e a música,
sempre a cantar
Mas não sei escrever música,
não sei nada de música,
não tenho esse dom de deuses,
também não o tem a minha musa,
ela só me dita frases
Hoje é o Dia Mundial da Música, que viva a música
Gostava de escrever um poema
com sons de notas e de ritmos,
mas não posso, a minha pena
só tem ouvidos
para palavras e tons tremidos
Gostava de escrever uma canção
com sons de pássaros e de abelhas,
mas da minha mão
não saem claves, nem colcheias,
nem fusas, nem semifusas,
só saem linhas e teias
de letras e de vírgulas
Gostava de escrever uma sinfonia,
dar sons aos violinos, aos violoncelos,
aos tímbalos, às tubas, aos oboés,
uma sublime harmonia emanaria
de toda a orquestra,
tão sublime que subiria aos céus
conduzida pela batuta do maestro
Gostava de escrever um fado,
um fado vestido de lágrimas
e de saudade para ser tocado
por chorosas guitarras
num qualquer beco mal afamado
acompanhando vozes agarradas
às lamúrias do nosso triste fado
Gostava de saber escrever música,
gostava de a saber ler, tocar e cantar,
assim amaria mais a minha musa,
dar-lhe-ia uma harpa de encantar,
seria tão bom, ela a tocar
e eu escrever a letra e a música,
sempre a cantar
Mas não sei escrever música,
não sei nada de música,
não tenho esse dom de deuses,
também não o tem a minha musa,
ela só me dita frases
Hoje é o Dia Mundial da Música, que viva a música
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