Recordo
Estou aqui e recordo,
recordo um tempo ido,
recordo o calor, o frio, os fumos,
o carinho, o colo, o abrigo,
recordo o cheiro podre dos fungos
quando se tirava o esterco húmido
dos currais dos fundos
do movimentado pátio
Recordo como a vida corria,
a agricultura de subsistência,
os sons e os cheiros da eira,
a junta de vacas, o burro, as ovelhas,
as galinhas, os leitões na pocilga
que não largavam as tetas
da volumosa marrã aflita,
recordo os coelhos e as suas moléstias,
- ó prima,
unte a coelheira com creolina
Recordo a venda, as tulhas, a taberna,
os pratos da balança, os fregueses,
o cheiro a vinho, a aguardente, a ginebra,
a prateleira dos "Portos", dos "Provisórios",
a bancada das jarras, dos copos,
a gaveta dos trocos,
recordo os bêbedos da aldeia às turras,
recordo a caixa dos lenços, das cuecas,
das meias de vidro, das peúgas,
recordo as mulheres com saias de pregas
e os homens de barrete e de colete
quando regressavam da feira ou do dia treze
a cavalo nos seus burros em trânsito para a Torre,
eles nem desciam das suas montadas
para beberem a sua dose,
aquilo é que eram albardas!
Recordo os dias bons, os dias maus,
recordo o vazio e a falta de esperança
ao ver os irmãos e irmãs partirem
com o peso das malas
para uma estranha França
Recordo agora o que passou,
recordo também esta sala,
era tão acolhedora,
sempre com flores, soalheira,
arrumada e bonita como a dona,
recordo o cheiro do seu chão de madeira
sempre encerado, tinha um ar tão doce
Mas tudo acaba quando tudo abala
e já tudo abalou deste casarão em ruínas,
ficaram apenas os restos desta sala,
as janelas, as cortinas,
a luz do sol, o sítio do relógio,
uma moldura com rostos de meninas,
um calendário com o Santo António,
um fruto de plástico, umas mesinhas
já carcomidas,
focos de caruncho e de pó,
e silêncio, muito silêncio,
um silêncio doloroso,
já não ouço aquela voz
Recordo e choro
domingo, 2 de agosto de 2015
sexta-feira, 31 de julho de 2015
Credo, tanta merda
Metade dos indianos defeca
ao ar livre, li eu nos jornais,
credo, tanta merda!
são muitos cus, nem menos, nem mais,
são quinhentos e noventa
e sete milhões de cus ao léu,
credo, tanta gente
e tanta merda a ver-se do céu
Os indianos obram assim
porque é mais arejado,
dizem uns,
porque não há sanitas,
dizem outros,
talvez só evacuem caganitas,
digo eu
Vão em fila indiana para o descampado,
as mulheres encostam à direita,
os homens à esquerda,
uns escondem o rabo,
outros é logo ali,
ganha quem fizer mais merda
e verter mais chichi
E como defecarão as mulheres
com aqueles vestidos coloridos?
Como limparão elas as fezes
e outros restos dos corpos moídos?
- Ó vizinha, ó vizinha,
eu já não aguento.
não quer vir comigo ao relento,
tenho medo de cagar sozinha
E eis um país que gasta fortunas
a armar um dos exércitos
mais poderosos da Terra,
um país que tem foguetões, pumas,
satélites,
centenas de aviões de combate,
searas de mísseis terra-terra
e terra-ar,
um país que tem o "Buda Sorridente",
sim, tem o "Buda Sorridente",
o nome de baptismo da sua bomba nuclear
armazenada no grosso ventre
de um Buda a arreganhar o dente
E eis um país
que tem mais sei lá o quê,
tem, tem,
mas não tem dinheiro para sanitas,
nem para canalizar a merda,
credo, tanta merda!
Metade dos indianos defeca
ao ar livre, li eu nos jornais,
credo, tanta merda!
são muitos cus, nem menos, nem mais,
são quinhentos e noventa
e sete milhões de cus ao léu,
credo, tanta gente
e tanta merda a ver-se do céu
Os indianos obram assim
porque é mais arejado,
dizem uns,
porque não há sanitas,
dizem outros,
talvez só evacuem caganitas,
digo eu
Vão em fila indiana para o descampado,
as mulheres encostam à direita,
os homens à esquerda,
uns escondem o rabo,
outros é logo ali,
ganha quem fizer mais merda
e verter mais chichi
E como defecarão as mulheres
com aqueles vestidos coloridos?
Como limparão elas as fezes
e outros restos dos corpos moídos?
- Ó vizinha, ó vizinha,
eu já não aguento.
não quer vir comigo ao relento,
tenho medo de cagar sozinha
E eis um país que gasta fortunas
a armar um dos exércitos
mais poderosos da Terra,
um país que tem foguetões, pumas,
satélites,
centenas de aviões de combate,
searas de mísseis terra-terra
e terra-ar,
um país que tem o "Buda Sorridente",
sim, tem o "Buda Sorridente",
o nome de baptismo da sua bomba nuclear
armazenada no grosso ventre
de um Buda a arreganhar o dente
E eis um país
que tem mais sei lá o quê,
tem, tem,
mas não tem dinheiro para sanitas,
nem para canalizar a merda,
credo, tanta merda!
domingo, 26 de julho de 2015
Outra Terra
O Homem descobriu outra Terra,
chama-se Keppler 452b,
mas isto é nome que se dê
a um irmão gémeo
que também respira oxigênio?
Chamem-lhe antes Terrão,
é maior que a Terra, tem 385 dias o ano,
chega mais tarde o Verão,
o Natal e a passagem de ano também
Quando vou á aldeia onde nasci,
digo aos amigos,
aos que não têm terra,
que vou à minha terra,
quando se morre é-se enterrado
debaixo de dois palmos de terra,
quando juramos uma verdade,
dizemos que a vimos
com os olhos que a terra nos há-de comer,
tudo o que temos de certo e de errado
tem origem na Terra,
a lata, o latão, os sapatos,
o chapéu, as calças, a samarra,
a água, as armas, os parvos,
o nascer, o viver, o morrer,
o conforto, o alimento,
porra, é tudo da Terra
e tudo o que mexe apodrece na terra,
menos a água e o vento
E há os que fogem da sua terra,
porque aí não são nada,
procuram outra terra,
outro solo, outra madrugada,
onde haja pão, trabalho, liberdade,
uma vida digna, mesmo a chorar
de saudade,
muitos desses perdem a sua terra
e nunca encontram outra,
são os desterrados que se enterram
cada vez mais nesta Terra,
um planeta azul com muitas lágrimas
e onde se prega
que as dores terráqueas
abrem as portas da vida eterna
no etéreo,
onde o chão não tem terra,
só céu
Mas o Homem descobriu outra Terra!
embora para lá, estou farto desta
E alguém diz:
- fica à distância de 1400 anos-luz,
na constelação do Cisne;
- ora bolas,
alguém me traduz
isso em quilómetros?
O Homem descobriu outra Terra,
chama-se Keppler 452b,
mas isto é nome que se dê
a um irmão gémeo
que também respira oxigênio?
Chamem-lhe antes Terrão,
é maior que a Terra, tem 385 dias o ano,
chega mais tarde o Verão,
o Natal e a passagem de ano também
Quando vou á aldeia onde nasci,
digo aos amigos,
aos que não têm terra,
que vou à minha terra,
quando se morre é-se enterrado
debaixo de dois palmos de terra,
quando juramos uma verdade,
dizemos que a vimos
com os olhos que a terra nos há-de comer,
tudo o que temos de certo e de errado
tem origem na Terra,
a lata, o latão, os sapatos,
o chapéu, as calças, a samarra,
a água, as armas, os parvos,
o nascer, o viver, o morrer,
o conforto, o alimento,
porra, é tudo da Terra
e tudo o que mexe apodrece na terra,
menos a água e o vento
E há os que fogem da sua terra,
porque aí não são nada,
procuram outra terra,
outro solo, outra madrugada,
onde haja pão, trabalho, liberdade,
uma vida digna, mesmo a chorar
de saudade,
muitos desses perdem a sua terra
e nunca encontram outra,
são os desterrados que se enterram
cada vez mais nesta Terra,
um planeta azul com muitas lágrimas
e onde se prega
que as dores terráqueas
abrem as portas da vida eterna
no etéreo,
onde o chão não tem terra,
só céu
Mas o Homem descobriu outra Terra!
embora para lá, estou farto desta
E alguém diz:
- fica à distância de 1400 anos-luz,
na constelação do Cisne;
- ora bolas,
alguém me traduz
isso em quilómetros?
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Cantiga a um mexilhão
O mexilhão perdeu o "lhão",
perdeu também a sua concha,
está lixado o mexilhão
Foi expulso da sua rocha,
ficou sem lar o mexilhão,
boia à deriva pela costa
a procurar casa e pão,
queria ser uma lagosta,
mas lixaram o mexilhão
Encosta-se a uma lapa,
mas esta não lhe dá a mão,
os percebes não vêem nada,
uma amêijoa diz-lhe que não,
e o mexilhão já é papa,
está comido o mexilhão
Um mexilhão que se mexia
na rocha pra não ser lixado,
ele era assim, não queria
ser sempre ele o quilhado,
pois é mexilhão, melhor seria
estares quieto e calado
Cagou-o na praia a gaivota,
é caca que não caga o chão,
nem borra o pé, nem a bota,
nem sequer é um cagalhão
ele que queria ser lagosta,
coitado do meu mexilhão
E aqui fica este meu canto
a um mexilhão que mexia
por não aguentar o canto
daquela rocha onde crescia
com o fado de ser tutano
de um bivalve que se lixa
O mexilhão perdeu o "lhão",
perdeu também a sua concha,
está lixado o mexilhão
Foi expulso da sua rocha,
ficou sem lar o mexilhão,
boia à deriva pela costa
a procurar casa e pão,
queria ser uma lagosta,
mas lixaram o mexilhão
Encosta-se a uma lapa,
mas esta não lhe dá a mão,
os percebes não vêem nada,
uma amêijoa diz-lhe que não,
e o mexilhão já é papa,
está comido o mexilhão
Um mexilhão que se mexia
na rocha pra não ser lixado,
ele era assim, não queria
ser sempre ele o quilhado,
pois é mexilhão, melhor seria
estares quieto e calado
Cagou-o na praia a gaivota,
é caca que não caga o chão,
nem borra o pé, nem a bota,
nem sequer é um cagalhão
ele que queria ser lagosta,
coitado do meu mexilhão
E aqui fica este meu canto
a um mexilhão que mexia
por não aguentar o canto
daquela rocha onde crescia
com o fado de ser tutano
de um bivalve que se lixa
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Os reis do petróleo
Pelo-me de medo
quando vejo os rostos
carrancudos dos reis
do deserto,
são façanhudos,
não devem rir,
nunca,
e são pançudos
os seus corpos
sempre envoltos
em sobretudos,
são os reis do crude
que jaz debaixo do deserto
inóspito e rude,
são todos iguais ao original,
o guerreiro beduíno
que tinha cara de mau
e corpo de mé-mé
Esses reis
têm todos barriga de rei,
não como a minha,
(sou o Vitório Rei),
que está quase vazia
E soube agora
que um desses reis,
o mau dos maus,
exigiu a um "maire"
da Côte D'Azur
o encerramento ao público
de uma praia pública
que está junto ao seu palácio
de férias
O "maire" disse que sim,
vai à merda,
ó "maire"
Pelo-me de medo
quando vejo os rostos
carrancudos dos reis
do deserto,
são façanhudos,
não devem rir,
nunca,
e são pançudos
os seus corpos
sempre envoltos
em sobretudos,
são os reis do crude
que jaz debaixo do deserto
inóspito e rude,
são todos iguais ao original,
o guerreiro beduíno
que tinha cara de mau
e corpo de mé-mé
Esses reis
têm todos barriga de rei,
não como a minha,
(sou o Vitório Rei),
que está quase vazia
E soube agora
que um desses reis,
o mau dos maus,
exigiu a um "maire"
da Côte D'Azur
o encerramento ao público
de uma praia pública
que está junto ao seu palácio
de férias
O "maire" disse que sim,
vai à merda,
ó "maire"
domingo, 19 de julho de 2015
Uma flor azul
Sou um gineceu
d´uma flor azul,
azul como o céu
que me dá a luz
Abano o estigma,
sacudo o estilete,
estou feminina,
quero ser semente
Bate as asas, bate,
pássaro do céu,
com o teu bate, bate,
cai o androceu
E eu aqui ao léu
para o amar,
e tu a voar,
pássaro do céu
Vem meu androceu,
beija o meu estilete
com o teu filete,
vem que tu és meu
Vem meu androceu,
quero que me ames,
vem meu androceu,
dá-me os teus estames
Fizemos amor,
guardei o pólen,
se brilhar o Sol
nasce outra flor
Sou um gineceu
d´uma flor azul,
azul como o céu
que me dá a luz
Abano o estigma,
sacudo o estilete,
estou feminina,
quero ser semente
Bate as asas, bate,
pássaro do céu,
com o teu bate, bate,
cai o androceu
E eu aqui ao léu
para o amar,
e tu a voar,
pássaro do céu
Vem meu androceu,
beija o meu estilete
com o teu filete,
vem que tu és meu
Vem meu androceu,
quero que me ames,
vem meu androceu,
dá-me os teus estames
Fizemos amor,
guardei o pólen,
se brilhar o Sol
nasce outra flor
sexta-feira, 17 de julho de 2015
O velho da praia dos Medos
O velho da praia dos Medos
apanhava sol e sal
sem segredos,
mostrava tudo tal e qual,
mostrava o cu e o vergalho,
mostrava as nádegas
e o volumoso malho
que das pernas lhe pendia
como um chocalho
a badalar o meio-dia
O velho da praia dos Medos
estava a ser honesto,
estava com calor
como quando veio ao mundo,
e veio todo nu, sem complexos,
despido de panos e de pudor
Um dia,
se eu chegar a velho
e se perder o medo
de não ter coragem de ser velho,
alguém dirá também
que me viu velho
a apanhar sol e sal
na praia dos Medos,
feio, sem complexos
e animal
O velho da praia dos Medos
apanhava sol e sal
sem segredos,
mostrava tudo tal e qual,
mostrava o cu e o vergalho,
mostrava as nádegas
e o volumoso malho
que das pernas lhe pendia
como um chocalho
a badalar o meio-dia
O velho da praia dos Medos
estava a ser honesto,
estava com calor
como quando veio ao mundo,
e veio todo nu, sem complexos,
despido de panos e de pudor
Um dia,
se eu chegar a velho
e se perder o medo
de não ter coragem de ser velho,
alguém dirá também
que me viu velho
a apanhar sol e sal
na praia dos Medos,
feio, sem complexos
e animal
quarta-feira, 15 de julho de 2015
domingo, 12 de julho de 2015
Enquadrando o tempo
Acordo e ouço o tempo,
muito sol no continente,
nortada no norte e centro,
no sul, vento do poente
Ouço o tempo que faz,
que está ou que vai fazer,
o que passa já não está
e passou sem nada dizer
O tempo que passa, voa,
tem uma rota, um destino
e nada o abalroa,
segue sempre o seu caminho
O tempo voa e passa
por nós, mas não o sentimos
a passar, nem o ouvimos,
passa por cima, perpassa
Mas envelhece-nos, mói-nos,
cruza-nos com tempestades,
raios, coriscos, demónios,
alegrias, ansiedades
O tempo passa por nós
e nós temos que ocupá-lo
com o nosso corpo e voz,
dentro do nosso espaço
O tempo passa por nós
e nós passamos o tempo,
mas há quem o mate só,
e quem o perca pra sempre
E cada um de nós tem
o seu tempo, não há mais,
há-que aproveitá-lo bem
porque ele não volta atrás
Amanhã quero acordar
novamente a escutar
o tempo, se o meu tempo
me deixar chegar a tempo
Estou eu assim modorrento,
quando uma voz me reclama:
- acorda, salta da cama,
estás a perder o teu tempo
E também me diz o tempo:
- levanta-te, companheiro,
na cama e pachorrento
perdes tempo e dinheiro
Sigo a voz e o tempo
salto da cama alfazema,
lavo o meu pensamento
e escrevo este poema
Acordo e ouço o tempo,
muito sol no continente,
nortada no norte e centro,
no sul, vento do poente
Ouço o tempo que faz,
que está ou que vai fazer,
o que passa já não está
e passou sem nada dizer
O tempo que passa, voa,
tem uma rota, um destino
e nada o abalroa,
segue sempre o seu caminho
O tempo voa e passa
por nós, mas não o sentimos
a passar, nem o ouvimos,
passa por cima, perpassa
Mas envelhece-nos, mói-nos,
cruza-nos com tempestades,
raios, coriscos, demónios,
alegrias, ansiedades
O tempo passa por nós
e nós temos que ocupá-lo
com o nosso corpo e voz,
dentro do nosso espaço
O tempo passa por nós
e nós passamos o tempo,
mas há quem o mate só,
e quem o perca pra sempre
E cada um de nós tem
o seu tempo, não há mais,
há-que aproveitá-lo bem
porque ele não volta atrás
Amanhã quero acordar
novamente a escutar
o tempo, se o meu tempo
me deixar chegar a tempo
Estou eu assim modorrento,
quando uma voz me reclama:
- acorda, salta da cama,
estás a perder o teu tempo
E também me diz o tempo:
- levanta-te, companheiro,
na cama e pachorrento
perdes tempo e dinheiro
Sigo a voz e o tempo
salto da cama alfazema,
lavo o meu pensamento
e escrevo este poema
quinta-feira, 9 de julho de 2015
A vida deste mar imenso
Estou na praia e o mar está ali,
calmo, sereno, maré vazia,
entrei nele há pouco,
mas só me molhou os pés,
não gostou de mim,
pois é,
este mar imenso
seduz-me, droga-me
e depois não me deixa entrar no silêncio
do seu ventre,
se lá entro, afoga-me
Por isso só vejo o que se passa
à flor da sua água
Se está bravo,
ruge, fustiga, enerva-se, escuma,
suga as pesadas nuvens de chuva,
cria grandes ondas para, uma a uma,
morrerem na praia,
numa cama de espuma,
ou contra as rochas,
num choque de raiva
Se está calmo,
é um vasto espelho de água
onde a Lua espalha
os seus cabelos de prata
e onde o Sol se esconde
para lá do horizonte
E não consigo ver mais nada
que seja dele
Ó mar imenso,
por que razão não me mostras
a vida que tens no teu ventre?
por que razão me afogas
se eu entrar por ti adentro?
Responde-me, ó mar imenso,
pode ser com um remoinho,
com um bramido mais intenso,
com um guincho de um golfinho,
pode ser como quiseres,
mas responde-me, ó mar imenso
E nada, ele não me responde,
só me manda ondas e marés,
ó, quem me dera ser anfíbio,
ó, quem me dera ser esponja,
ó, quem me dera ser tudo,
para poder mergulhar no infinito
profundo
Estou na praia e o mar está ali,
calmo, sereno, maré vazia,
entrei nele há pouco,
mas só me molhou os pés,
não gostou de mim,
pois é,
este mar imenso
seduz-me, droga-me
e depois não me deixa entrar no silêncio
do seu ventre,
se lá entro, afoga-me
Por isso só vejo o que se passa
à flor da sua água
Se está bravo,
ruge, fustiga, enerva-se, escuma,
suga as pesadas nuvens de chuva,
cria grandes ondas para, uma a uma,
morrerem na praia,
numa cama de espuma,
ou contra as rochas,
num choque de raiva
Se está calmo,
é um vasto espelho de água
onde a Lua espalha
os seus cabelos de prata
e onde o Sol se esconde
para lá do horizonte
E não consigo ver mais nada
que seja dele
Ó mar imenso,
por que razão não me mostras
a vida que tens no teu ventre?
por que razão me afogas
se eu entrar por ti adentro?
Responde-me, ó mar imenso,
pode ser com um remoinho,
com um bramido mais intenso,
com um guincho de um golfinho,
pode ser como quiseres,
mas responde-me, ó mar imenso
E nada, ele não me responde,
só me manda ondas e marés,
ó, quem me dera ser anfíbio,
ó, quem me dera ser esponja,
ó, quem me dera ser tudo,
para poder mergulhar no infinito
profundo
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