A minha porta
A minha porta dá para a rua,
é uma porta branquinha e nua
Há pouco, bateram à minha porta,
não estava surda,
- trazemos uma boa nova,
estamos salvos, Deus é a cura,
nós somos a sua testemunha
Escutei o que diziam,
também me escutaram,
- Deus salva toda a gente,
ou só salva quem nele acredita?
Despediram-se de mim,
- não perca a esperança
e dê graças à vida
Eu dei-lhes pêssegos
e beijos
terça-feira, 18 de agosto de 2015
domingo, 16 de agosto de 2015
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
As Perseidas
Da janela do meu sótão
distingo a Estrela do Norte,
fixo-a longamente enquanto aguardo as Perseidas,
mas, sem querer, envolvo-me na filosofia do infinito
e mergulho na quinta dimensão,
vejo-me a vaguear pequenino
na abóbada celeste,
vou recostado numa jangada
que é a cama do meu sótão,
uma cama com uma janela mágica,
através dela sou barqueiro,
que me proteja São Cristóvão
nesta jangada sem velas
a viajar neste vespeiro
de planetas e de estrelas
Não falta o ar na minha jangada,
mas perdeu a gravidade,
passo ao lado de Marte
e diz-me que não tem nada,
despeço-me de Júpiter
que me empurra sem piedade
para lá do sistema solar
Ao cruzar a fronteira,
sou parado por uma estrela,
- stop, estás preso, ó barqueiro,
a tua jangada não tem bandeira,
- desculpe, ó Senhora Estrela do Sul,
o Plutão ficou-me com a bandeira,
doze estrelas num fundo azul,
- ah, acredito em ti, como vens da Terra do Sol
deixo-te passar a fronteira
Ainda lhe pergunto por Deus,
o criador do Universo,
não responde, mas dá-me um panfleto
com detalhes do seu Céu,
aí diz que todo o Universo nasceu
de uma violenta explosão após um duelo
entre o hélio e o hidrogénio
E a Estrela do Sul não quis mais conversa,
com uma bojarda estelar
manda a minha jangada
para os caminhos da Via Láctea,
urra, urra,
sou um filho de Hera,
urra, urra,
mamo quanto quero
Mas logo ouço a Estrela Feiticeira
a resmungar:
- há muitas estrelas e estrelinhas,
eu sou a maior,
sou muito mais velha que o teu Sol,
vi-o nascer, ele sempre foi um lingrinhas,
dentro de pouco tempo vou comer o teu Sol,
eh, eh, eh, eh, lol
Fico desanimado na minha jangada,
mas alegram-me as três Marias,
têm nomes estrangeiros, uma maçada,
mas em português chamam-se Marias,
ainda bem,
são a Maria José, a Maria Manuel e a Maria Antónia,
uma torra café, a outra colhe mel e a outra destila ambrósia,
sorriem para mim e desejam-me boa viagem,
ainda me falam numa quarta Maria, uma irmã anã
que quase não se vê,
chamam-lhe Maria Belém
Credo,
vejo uma seta para um buraco negro,
desvio-me abruptamente,
sofro muito de claustrofobia e de vertigens,
tento evitar os cães, o Maior e o Menor,
e abordo as estrelas virgens
da constelação Virgem, que horror!
estão a ser violadas por mártires,
eles são aos milhares a gritar:
á-lá, á-lá, que-bar!
distingo a Estrela do Norte,
fixo-a longamente enquanto aguardo as Perseidas,
mas, sem querer, envolvo-me na filosofia do infinito
e mergulho na quinta dimensão,
vejo-me a vaguear pequenino
na abóbada celeste,
vou recostado numa jangada
que é a cama do meu sótão,
uma cama com uma janela mágica,
através dela sou barqueiro,
que me proteja São Cristóvão
nesta jangada sem velas
a viajar neste vespeiro
de planetas e de estrelas
Não falta o ar na minha jangada,
mas perdeu a gravidade,
passo ao lado de Marte
e diz-me que não tem nada,
despeço-me de Júpiter
que me empurra sem piedade
para lá do sistema solar
Ao cruzar a fronteira,
sou parado por uma estrela,
- stop, estás preso, ó barqueiro,
a tua jangada não tem bandeira,
- desculpe, ó Senhora Estrela do Sul,
o Plutão ficou-me com a bandeira,
doze estrelas num fundo azul,
- ah, acredito em ti, como vens da Terra do Sol
deixo-te passar a fronteira
Ainda lhe pergunto por Deus,
o criador do Universo,
não responde, mas dá-me um panfleto
com detalhes do seu Céu,
aí diz que todo o Universo nasceu
de uma violenta explosão após um duelo
entre o hélio e o hidrogénio
E a Estrela do Sul não quis mais conversa,
com uma bojarda estelar
manda a minha jangada
para os caminhos da Via Láctea,
urra, urra,
sou um filho de Hera,
urra, urra,
mamo quanto quero
Mas logo ouço a Estrela Feiticeira
a resmungar:
- há muitas estrelas e estrelinhas,
eu sou a maior,
sou muito mais velha que o teu Sol,
vi-o nascer, ele sempre foi um lingrinhas,
dentro de pouco tempo vou comer o teu Sol,
eh, eh, eh, eh, lol
Fico desanimado na minha jangada,
mas alegram-me as três Marias,
têm nomes estrangeiros, uma maçada,
mas em português chamam-se Marias,
ainda bem,
são a Maria José, a Maria Manuel e a Maria Antónia,
uma torra café, a outra colhe mel e a outra destila ambrósia,
sorriem para mim e desejam-me boa viagem,
ainda me falam numa quarta Maria, uma irmã anã
que quase não se vê,
chamam-lhe Maria Belém
Credo,
vejo uma seta para um buraco negro,
desvio-me abruptamente,
sofro muito de claustrofobia e de vertigens,
tento evitar os cães, o Maior e o Menor,
e abordo as estrelas virgens
da constelação Virgem, que horror!
estão a ser violadas por mártires,
eles são aos milhares a gritar:
á-lá, á-lá, que-bar!
E continuo a navegar,
mas já me falta o ar,
já não consigo relatar mais
do que vi e do que vejo da minha jangada,
assim no Céu como na Terra,
anda tudo em guerra,
é só explosões termonucleares,
as estrelas mais fortes comem as mais fracas
e ressuscitam com mais raiva e mais força,
umas tornam-se novas, outras supernovas,
afinal, o Universo é todo infeliz,
que me inspire o Odisseu,
a quem chamam Ulisses,
quero regressar à dimensão
do meu espaço e do meu tempo
Pum, catrapum, trás,
estourou a minha jangada,
acho que bati no fundo do Norte,
ó!, choquei mesmo com a Estrela do Norte
mas já me falta o ar,
já não consigo relatar mais
do que vi e do que vejo da minha jangada,
assim no Céu como na Terra,
anda tudo em guerra,
é só explosões termonucleares,
as estrelas mais fortes comem as mais fracas
e ressuscitam com mais raiva e mais força,
umas tornam-se novas, outras supernovas,
afinal, o Universo é todo infeliz,
que me inspire o Odisseu,
a quem chamam Ulisses,
quero regressar à dimensão
do meu espaço e do meu tempo
Pum, catrapum, trás,
estourou a minha jangada,
acho que bati no fundo do Norte,
ó!, choquei mesmo com a Estrela do Norte
Ai, ai, ai,
ai a minha cabeça,
bati com ela com tanta força
que até vi estrelas,
uma chuva de estrelas,
serão as Perseidas?
Não são as Perseidas?
Mas onde estou eu?
O que faço aqui?
ai a minha cabeça,
bati com ela com tanta força
que até vi estrelas,
uma chuva de estrelas,
serão as Perseidas?
Não são as Perseidas?
Mas onde estou eu?
O que faço aqui?
Ah!, já sei,
levantei-me da cama
e dei uma estrondosa cabeçada
no tecto do sótão,
a minha cabeça está magoada
e pede-me desculpa,
diz-me que acabou de chegar da Estrela do Norte
e ainda não se habituou à dimensão
do espaço e do tempo do meu corpo
e do meu sótão
Não sei o que fazer com a minha cabeça,
anda sempre no ar a viajar
e raramente me leva com ela,
já não tem paciência para me transportar,
foi o que aconteceu esta noite,
eu só queria ver as Perseidas
mas ela quis mais, ela quer sempre mais,
escondeu-me as Perseidas
e foi à Estrela do Norte sem mim,
levantei-me da cama
e dei uma estrondosa cabeçada
no tecto do sótão,
a minha cabeça está magoada
e pede-me desculpa,
diz-me que acabou de chegar da Estrela do Norte
e ainda não se habituou à dimensão
do espaço e do tempo do meu corpo
e do meu sótão
Não sei o que fazer com a minha cabeça,
anda sempre no ar a viajar
e raramente me leva com ela,
já não tem paciência para me transportar,
foi o que aconteceu esta noite,
eu só queria ver as Perseidas
mas ela quis mais, ela quer sempre mais,
escondeu-me as Perseidas
e foi à Estrela do Norte sem mim,
qualquer dia abandona-me de vez
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
A nascente do Lis
Desta fonte escondida
no sopé do meu monte
não corre água fresquinha,
não chora a minha fonte
Secaram-lhe as lágrimas,
não chora a minha fonte,
já me secam as rimas
desta pena de bronze
Mas se há sons no monte,
a cigarra, o zângão,
a sombra, o horizonte,
o calor do Verão
Mas se há sardaniscas
e outros rastejantes,
lagartos, lagartixas,
cobras arrepiantes
Mas se há o alecrim,
o tojo, o rosmaninho,
a silva, o capim,
a ruína dum moinho
Mas se há a branca pedra
da cor da pura neve
onde o calcário medra
e o sol se embebe
Mas se há tanta coisa,
tanto cheiro no ar,
tanta ave a voar,
tanta ave que poisa
Porque não brota água
desta fonte do monte?
- é o monte que a guarda,
diz-me a santa do monte
- Ó Senhora do Monte,
ainda bem que m'atendes,
faz com que esta fonte
liberte os seus duendes
E aguardo um milagre,
ou uma aparição,
mas foi reza em vão,
só veio um milhafre
Que me valham as rimas
e as musas que m'as ditam,
que me valham as ninfas
e a luz que irradiam
Acordem esta fonte,
esta fonte das Fontes,
onde acabam os montes
e o rio Lis desponta
Desta fonte escondida
no sopé do meu monte
não corre água fresquinha,
não chora a minha fonte
Secaram-lhe as lágrimas,
não chora a minha fonte,
já me secam as rimas
desta pena de bronze
Mas se há sons no monte,
a cigarra, o zângão,
a sombra, o horizonte,
o calor do Verão
Mas se há sardaniscas
e outros rastejantes,
lagartos, lagartixas,
cobras arrepiantes
Mas se há o alecrim,
o tojo, o rosmaninho,
a silva, o capim,
a ruína dum moinho
Mas se há a branca pedra
da cor da pura neve
onde o calcário medra
e o sol se embebe
Mas se há tanta coisa,
tanto cheiro no ar,
tanta ave a voar,
tanta ave que poisa
Porque não brota água
desta fonte do monte?
- é o monte que a guarda,
diz-me a santa do monte
- Ó Senhora do Monte,
ainda bem que m'atendes,
faz com que esta fonte
liberte os seus duendes
E aguardo um milagre,
ou uma aparição,
mas foi reza em vão,
só veio um milhafre
Que me valham as rimas
e as musas que m'as ditam,
que me valham as ninfas
e a luz que irradiam
Acordem esta fonte,
esta fonte das Fontes,
onde acabam os montes
e o rio Lis desponta
domingo, 2 de agosto de 2015
Recordo
Estou aqui e recordo,
recordo um tempo ido,
recordo o calor, o frio, os fumos,
o carinho, o colo, o abrigo,
recordo o cheiro podre dos fungos
quando se tirava o esterco húmido
dos currais dos fundos
do movimentado pátio
Recordo como a vida corria,
a agricultura de subsistência,
os sons e os cheiros da eira,
a junta de vacas, o burro, as ovelhas,
as galinhas, os leitões na pocilga
que não largavam as tetas
da volumosa marrã aflita,
recordo os coelhos e as suas moléstias,
- ó prima,
unte a coelheira com creolina
Recordo a venda, as tulhas, a taberna,
os pratos da balança, os fregueses,
o cheiro a vinho, a aguardente, a ginebra,
a prateleira dos "Portos", dos "Provisórios",
a bancada das jarras, dos copos,
a gaveta dos trocos,
recordo os bêbedos da aldeia às turras,
recordo a caixa dos lenços, das cuecas,
das meias de vidro, das peúgas,
recordo as mulheres com saias de pregas
e os homens de barrete e de colete
quando regressavam da feira ou do dia treze
a cavalo nos seus burros em trânsito para a Torre,
eles nem desciam das suas montadas
para beberem a sua dose,
aquilo é que eram albardas!
Recordo os dias bons, os dias maus,
recordo o vazio e a falta de esperança
ao ver os irmãos e irmãs partirem
com o peso das malas
para uma estranha França
Recordo agora o que passou,
recordo também esta sala,
era tão acolhedora,
sempre com flores, soalheira,
arrumada e bonita como a dona,
recordo o cheiro do seu chão de madeira
sempre encerado, tinha um ar tão doce
Mas tudo acaba quando tudo abala
e já tudo abalou deste casarão em ruínas,
ficaram apenas os restos desta sala,
as janelas, as cortinas,
a luz do sol, o sítio do relógio,
uma moldura com rostos de meninas,
um calendário com o Santo António,
um fruto de plástico, umas mesinhas
já carcomidas,
focos de caruncho e de pó,
e silêncio, muito silêncio,
um silêncio doloroso,
já não ouço aquela voz
Recordo e choro
Estou aqui e recordo,
recordo um tempo ido,
recordo o calor, o frio, os fumos,
o carinho, o colo, o abrigo,
recordo o cheiro podre dos fungos
quando se tirava o esterco húmido
dos currais dos fundos
do movimentado pátio
Recordo como a vida corria,
a agricultura de subsistência,
os sons e os cheiros da eira,
a junta de vacas, o burro, as ovelhas,
as galinhas, os leitões na pocilga
que não largavam as tetas
da volumosa marrã aflita,
recordo os coelhos e as suas moléstias,
- ó prima,
unte a coelheira com creolina
Recordo a venda, as tulhas, a taberna,
os pratos da balança, os fregueses,
o cheiro a vinho, a aguardente, a ginebra,
a prateleira dos "Portos", dos "Provisórios",
a bancada das jarras, dos copos,
a gaveta dos trocos,
recordo os bêbedos da aldeia às turras,
recordo a caixa dos lenços, das cuecas,
das meias de vidro, das peúgas,
recordo as mulheres com saias de pregas
e os homens de barrete e de colete
quando regressavam da feira ou do dia treze
a cavalo nos seus burros em trânsito para a Torre,
eles nem desciam das suas montadas
para beberem a sua dose,
aquilo é que eram albardas!
Recordo os dias bons, os dias maus,
recordo o vazio e a falta de esperança
ao ver os irmãos e irmãs partirem
com o peso das malas
para uma estranha França
Recordo agora o que passou,
recordo também esta sala,
era tão acolhedora,
sempre com flores, soalheira,
arrumada e bonita como a dona,
recordo o cheiro do seu chão de madeira
sempre encerado, tinha um ar tão doce
Mas tudo acaba quando tudo abala
e já tudo abalou deste casarão em ruínas,
ficaram apenas os restos desta sala,
as janelas, as cortinas,
a luz do sol, o sítio do relógio,
uma moldura com rostos de meninas,
um calendário com o Santo António,
um fruto de plástico, umas mesinhas
já carcomidas,
focos de caruncho e de pó,
e silêncio, muito silêncio,
um silêncio doloroso,
já não ouço aquela voz
Recordo e choro
sexta-feira, 31 de julho de 2015
Credo, tanta merda
Metade dos indianos defeca
ao ar livre, li eu nos jornais,
credo, tanta merda!
são muitos cus, nem menos, nem mais,
são quinhentos e noventa
e sete milhões de cus ao léu,
credo, tanta gente
e tanta merda a ver-se do céu
Os indianos obram assim
porque é mais arejado,
dizem uns,
porque não há sanitas,
dizem outros,
talvez só evacuem caganitas,
digo eu
Vão em fila indiana para o descampado,
as mulheres encostam à direita,
os homens à esquerda,
uns escondem o rabo,
outros é logo ali,
ganha quem fizer mais merda
e verter mais chichi
E como defecarão as mulheres
com aqueles vestidos coloridos?
Como limparão elas as fezes
e outros restos dos corpos moídos?
- Ó vizinha, ó vizinha,
eu já não aguento.
não quer vir comigo ao relento,
tenho medo de cagar sozinha
E eis um país que gasta fortunas
a armar um dos exércitos
mais poderosos da Terra,
um país que tem foguetões, pumas,
satélites,
centenas de aviões de combate,
searas de mísseis terra-terra
e terra-ar,
um país que tem o "Buda Sorridente",
sim, tem o "Buda Sorridente",
o nome de baptismo da sua bomba nuclear
armazenada no grosso ventre
de um Buda a arreganhar o dente
E eis um país
que tem mais sei lá o quê,
tem, tem,
mas não tem dinheiro para sanitas,
nem para canalizar a merda,
credo, tanta merda!
Metade dos indianos defeca
ao ar livre, li eu nos jornais,
credo, tanta merda!
são muitos cus, nem menos, nem mais,
são quinhentos e noventa
e sete milhões de cus ao léu,
credo, tanta gente
e tanta merda a ver-se do céu
Os indianos obram assim
porque é mais arejado,
dizem uns,
porque não há sanitas,
dizem outros,
talvez só evacuem caganitas,
digo eu
Vão em fila indiana para o descampado,
as mulheres encostam à direita,
os homens à esquerda,
uns escondem o rabo,
outros é logo ali,
ganha quem fizer mais merda
e verter mais chichi
E como defecarão as mulheres
com aqueles vestidos coloridos?
Como limparão elas as fezes
e outros restos dos corpos moídos?
- Ó vizinha, ó vizinha,
eu já não aguento.
não quer vir comigo ao relento,
tenho medo de cagar sozinha
E eis um país que gasta fortunas
a armar um dos exércitos
mais poderosos da Terra,
um país que tem foguetões, pumas,
satélites,
centenas de aviões de combate,
searas de mísseis terra-terra
e terra-ar,
um país que tem o "Buda Sorridente",
sim, tem o "Buda Sorridente",
o nome de baptismo da sua bomba nuclear
armazenada no grosso ventre
de um Buda a arreganhar o dente
E eis um país
que tem mais sei lá o quê,
tem, tem,
mas não tem dinheiro para sanitas,
nem para canalizar a merda,
credo, tanta merda!
domingo, 26 de julho de 2015
Outra Terra
O Homem descobriu outra Terra,
chama-se Keppler 452b,
mas isto é nome que se dê
a um irmão gémeo
que também respira oxigênio?
Chamem-lhe antes Terrão,
é maior que a Terra, tem 385 dias o ano,
chega mais tarde o Verão,
o Natal e a passagem de ano também
Quando vou á aldeia onde nasci,
digo aos amigos,
aos que não têm terra,
que vou à minha terra,
quando se morre é-se enterrado
debaixo de dois palmos de terra,
quando juramos uma verdade,
dizemos que a vimos
com os olhos que a terra nos há-de comer,
tudo o que temos de certo e de errado
tem origem na Terra,
a lata, o latão, os sapatos,
o chapéu, as calças, a samarra,
a água, as armas, os parvos,
o nascer, o viver, o morrer,
o conforto, o alimento,
porra, é tudo da Terra
e tudo o que mexe apodrece na terra,
menos a água e o vento
E há os que fogem da sua terra,
porque aí não são nada,
procuram outra terra,
outro solo, outra madrugada,
onde haja pão, trabalho, liberdade,
uma vida digna, mesmo a chorar
de saudade,
muitos desses perdem a sua terra
e nunca encontram outra,
são os desterrados que se enterram
cada vez mais nesta Terra,
um planeta azul com muitas lágrimas
e onde se prega
que as dores terráqueas
abrem as portas da vida eterna
no etéreo,
onde o chão não tem terra,
só céu
Mas o Homem descobriu outra Terra!
embora para lá, estou farto desta
E alguém diz:
- fica à distância de 1400 anos-luz,
na constelação do Cisne;
- ora bolas,
alguém me traduz
isso em quilómetros?
O Homem descobriu outra Terra,
chama-se Keppler 452b,
mas isto é nome que se dê
a um irmão gémeo
que também respira oxigênio?
Chamem-lhe antes Terrão,
é maior que a Terra, tem 385 dias o ano,
chega mais tarde o Verão,
o Natal e a passagem de ano também
Quando vou á aldeia onde nasci,
digo aos amigos,
aos que não têm terra,
que vou à minha terra,
quando se morre é-se enterrado
debaixo de dois palmos de terra,
quando juramos uma verdade,
dizemos que a vimos
com os olhos que a terra nos há-de comer,
tudo o que temos de certo e de errado
tem origem na Terra,
a lata, o latão, os sapatos,
o chapéu, as calças, a samarra,
a água, as armas, os parvos,
o nascer, o viver, o morrer,
o conforto, o alimento,
porra, é tudo da Terra
e tudo o que mexe apodrece na terra,
menos a água e o vento
E há os que fogem da sua terra,
porque aí não são nada,
procuram outra terra,
outro solo, outra madrugada,
onde haja pão, trabalho, liberdade,
uma vida digna, mesmo a chorar
de saudade,
muitos desses perdem a sua terra
e nunca encontram outra,
são os desterrados que se enterram
cada vez mais nesta Terra,
um planeta azul com muitas lágrimas
e onde se prega
que as dores terráqueas
abrem as portas da vida eterna
no etéreo,
onde o chão não tem terra,
só céu
Mas o Homem descobriu outra Terra!
embora para lá, estou farto desta
E alguém diz:
- fica à distância de 1400 anos-luz,
na constelação do Cisne;
- ora bolas,
alguém me traduz
isso em quilómetros?
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Cantiga a um mexilhão
O mexilhão perdeu o "lhão",
perdeu também a sua concha,
está lixado o mexilhão
Foi expulso da sua rocha,
ficou sem lar o mexilhão,
boia à deriva pela costa
a procurar casa e pão,
queria ser uma lagosta,
mas lixaram o mexilhão
Encosta-se a uma lapa,
mas esta não lhe dá a mão,
os percebes não vêem nada,
uma amêijoa diz-lhe que não,
e o mexilhão já é papa,
está comido o mexilhão
Um mexilhão que se mexia
na rocha pra não ser lixado,
ele era assim, não queria
ser sempre ele o quilhado,
pois é mexilhão, melhor seria
estares quieto e calado
Cagou-o na praia a gaivota,
é caca que não caga o chão,
nem borra o pé, nem a bota,
nem sequer é um cagalhão
ele que queria ser lagosta,
coitado do meu mexilhão
E aqui fica este meu canto
a um mexilhão que mexia
por não aguentar o canto
daquela rocha onde crescia
com o fado de ser tutano
de um bivalve que se lixa
O mexilhão perdeu o "lhão",
perdeu também a sua concha,
está lixado o mexilhão
Foi expulso da sua rocha,
ficou sem lar o mexilhão,
boia à deriva pela costa
a procurar casa e pão,
queria ser uma lagosta,
mas lixaram o mexilhão
Encosta-se a uma lapa,
mas esta não lhe dá a mão,
os percebes não vêem nada,
uma amêijoa diz-lhe que não,
e o mexilhão já é papa,
está comido o mexilhão
Um mexilhão que se mexia
na rocha pra não ser lixado,
ele era assim, não queria
ser sempre ele o quilhado,
pois é mexilhão, melhor seria
estares quieto e calado
Cagou-o na praia a gaivota,
é caca que não caga o chão,
nem borra o pé, nem a bota,
nem sequer é um cagalhão
ele que queria ser lagosta,
coitado do meu mexilhão
E aqui fica este meu canto
a um mexilhão que mexia
por não aguentar o canto
daquela rocha onde crescia
com o fado de ser tutano
de um bivalve que se lixa
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Os reis do petróleo
Pelo-me de medo
quando vejo os rostos
carrancudos dos reis
do deserto,
são façanhudos,
não devem rir,
nunca,
e são pançudos
os seus corpos
sempre envoltos
em sobretudos,
são os reis do crude
que jaz debaixo do deserto
inóspito e rude,
são todos iguais ao original,
o guerreiro beduíno
que tinha cara de mau
e corpo de mé-mé
Esses reis
têm todos barriga de rei,
não como a minha,
(sou o Vitório Rei),
que está quase vazia
E soube agora
que um desses reis,
o mau dos maus,
exigiu a um "maire"
da Côte D'Azur
o encerramento ao público
de uma praia pública
que está junto ao seu palácio
de férias
O "maire" disse que sim,
vai à merda,
ó "maire"
Pelo-me de medo
quando vejo os rostos
carrancudos dos reis
do deserto,
são façanhudos,
não devem rir,
nunca,
e são pançudos
os seus corpos
sempre envoltos
em sobretudos,
são os reis do crude
que jaz debaixo do deserto
inóspito e rude,
são todos iguais ao original,
o guerreiro beduíno
que tinha cara de mau
e corpo de mé-mé
Esses reis
têm todos barriga de rei,
não como a minha,
(sou o Vitório Rei),
que está quase vazia
E soube agora
que um desses reis,
o mau dos maus,
exigiu a um "maire"
da Côte D'Azur
o encerramento ao público
de uma praia pública
que está junto ao seu palácio
de férias
O "maire" disse que sim,
vai à merda,
ó "maire"
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