A minha aguarela
Uma palete de cores, um pincel, uma tela
de papel, um quadro vazio,
vou pintar a minha aguarela,
vou pintar os meus amores, o meu rio,
a minha alma, a minha janela,
vou pintar a minha vida
com a minha tinta
e com o meu pincel naïf
Um pingo de amarelo e tenho o sol
a nascer,
um pingo de verde e tenho o meu lençol
de relva a crescer,
vários pingos de várias cores
e tenho casinhas, a igreja, caminhos,
crianças a brincar, flores,
arvoredo, passarinhos,
rebanhos, pastores
Um pingo de azul e tenho o céu
sem nuvens,
falta-me pintar o rio, o rio que é só meu,
- diz-me ó suave pincel de penugens,
de que cor devo pintar o rio da minha vida?
- mistura no godé um pingo de vermelho,
a cor do sangue que corre em ti,
um pingo de azul, a cor de fundo do teu espelho,
um pingo de verde, a cor da alegria,
muitos pingos de branco e de preto,
as cores neutras que reflectem a tua dor, a tua fúria,
mistura tudo muito bem e tens a cor do teu rio,
por onde corre a tua vida, o teu destino
Eu sei que a água deve espelhar a cor do céu,
por isso deveria ser azul o rio da minha aguarela,
mas não é,
a água do meu rio é negra como o breu,
volto a misturar, ponho um pouco mais de azul,
e nada, a água do meu rio continua escura
Olhem, olhem,
o meu rio está a inundar a minha aguarela,
está a ficar toda negra a minha aguarela,
toda negra, toda negra,
ai as minhas casinhas, as minhas crianças,
ai os rebanhos, os pastores,
não acredito no que me está a acontecer,
fecho os olhos, não quero ver,
parece que ouço gritos, clamores,
estarão a morrer?
Mas que lamaçal!
inundou-se a aguarela
da minha vida, que fiz eu de mal?
talvez o meu estilo de pintar
não se dê com esta tela,
talvez tenha doseado mal a água,
talvez tenha faltado a luz na minha aguarela,
talvez seja do pincel,
ou das minhas mãos que não o agarram bem
Vou tentar pintar outra vez
a minha aguarela,
mas agora não vou usar pincel,
vou encher a minha tela
só com palavras,
mas vou procurar palavras
que só podem ser escritas com tinta de mel
e aparos de favos,
palavras doces, temperadas, afáveis,
mas eu não sei como fazer tinta de mel
nem aparos de favos,
alguém sabe?
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Blocos
Eu tenho três blocos,
todos eles ocos,
um à minha direita, o bloco da direita,
outro à minha frente, o bloco central,
outro à minha esquerda, o bloco da esquerda,
o da direita é de esferovite contrafeita,
o central é de pedra sem cimento e sem cal,
o da esquerda é de tijolo feito de palha e de erva
Se lhes der um pontapé,
caem como um baralho de cartas,
mas tenho esperança e fé
em que os políticos carpinteiros e pedreiros
me vão construir um bloco de retaguarda,
um bloco forte e sem rodeios
Eu tenho três blocos,
todos eles ocos,
um à minha direita, o bloco da direita,
outro à minha frente, o bloco central,
outro à minha esquerda, o bloco da esquerda,
o da direita é de esferovite contrafeita,
o central é de pedra sem cimento e sem cal,
o da esquerda é de tijolo feito de palha e de erva
Se lhes der um pontapé,
caem como um baralho de cartas,
mas tenho esperança e fé
em que os políticos carpinteiros e pedreiros
me vão construir um bloco de retaguarda,
um bloco forte e sem rodeios
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
A vida é como um rio
Vai com a força do rio
esta água a correr,
como posso eu beber
água fresca deste rio?
Um rio é como a vida,
nasce do chão a chorar
por não saber respirar,
mas logo sai em corrida
Daí a pouco já brinca
a refilar com as margens
e a colorir paisagens,
sendo a água a sua tinta
Quilómetros mais à frente
vai mais foito o meu rio,
encontra um afluente
e abraça-o como amigo
Mas vem muito poluído
o ribeiro afluente,
dá um grito o meu rio
e desmaia de repente
Já não bebo desta água,
poluíram o meu rio,
já não paro nesta fraga,
cheira mal este meu rio
Não te deixes abater
ó rio da minha vida,
arrebita, arrebita,
quero-te para beber
Um rio é como a vida,
nasce, corre e faz viver
tudo o que nele se abriga,
tudo o que dele beber
Mas se a água do rio
não for água de beber,
ele é um morto vivo,
morreu antes de morrer
Um rio é como a vida,
a vida é como um rio,
nascem para a descida
e descem até ao fim
E o fim é só um esgar,
foi um ar que lhe deu,
o rio fica no mar
e a vida quer ir prò céu
Vai com a força do rio
esta água a correr,
como posso eu beber
água fresca deste rio?
Um rio é como a vida,
nasce do chão a chorar
por não saber respirar,
mas logo sai em corrida
Daí a pouco já brinca
a refilar com as margens
e a colorir paisagens,
sendo a água a sua tinta
Quilómetros mais à frente
vai mais foito o meu rio,
encontra um afluente
e abraça-o como amigo
Mas vem muito poluído
o ribeiro afluente,
dá um grito o meu rio
e desmaia de repente
Já não bebo desta água,
poluíram o meu rio,
já não paro nesta fraga,
cheira mal este meu rio
Não te deixes abater
ó rio da minha vida,
arrebita, arrebita,
quero-te para beber
Um rio é como a vida,
nasce, corre e faz viver
tudo o que nele se abriga,
tudo o que dele beber
Mas se a água do rio
não for água de beber,
ele é um morto vivo,
morreu antes de morrer
Um rio é como a vida,
a vida é como um rio,
nascem para a descida
e descem até ao fim
E o fim é só um esgar,
foi um ar que lhe deu,
o rio fica no mar
e a vida quer ir prò céu
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Sou Rei
Olá, sou o Vitório Rei
e hoje apetece-me ser Rei
a sério,
vou pôr a minha coroa de ouro de lei
e não saio do meu castelo
do Restelo,
abaixo a República,
até fico com todo o meu pêlo
em pé,
só de ousar pronunciar essa palavra
que viola a minha mais íntima fé
Hoje sou Rei
e fico em casa a reflectir,
vou ter de decidir
quem hei-de
chamar para formar governo,
se a coligação de direita,
se o saco de gatos da esquerda,
todos uns republicanos de merda
Hoje quero ser um Rei a sério,
não quero sair do meu castelo,
abaixo a República,
quero outra vez o meu império
- vai-te embora ó velho cavaco,
nunca valeste nada, seu velhaco
Mau,
uma manifestação debaixo da janela
do meu castelo,
vou já chamar a Guarda Nacional Republicana,
porra, lá tive que dizer outra vez
aquela palavra
------------------------------------------
Hoje é dia da República,
viva a República de Portugal
Olá, sou o Vitório Rei
e hoje apetece-me ser Rei
a sério,
vou pôr a minha coroa de ouro de lei
e não saio do meu castelo
do Restelo,
abaixo a República,
até fico com todo o meu pêlo
em pé,
só de ousar pronunciar essa palavra
que viola a minha mais íntima fé
Hoje sou Rei
e fico em casa a reflectir,
vou ter de decidir
quem hei-de
chamar para formar governo,
se a coligação de direita,
se o saco de gatos da esquerda,
todos uns republicanos de merda
Hoje quero ser um Rei a sério,
não quero sair do meu castelo,
abaixo a República,
quero outra vez o meu império
- vai-te embora ó velho cavaco,
nunca valeste nada, seu velhaco
Mau,
uma manifestação debaixo da janela
do meu castelo,
vou já chamar a Guarda Nacional Republicana,
porra, lá tive que dizer outra vez
aquela palavra
------------------------------------------
Hoje é dia da República,
viva a República de Portugal
sábado, 3 de outubro de 2015
Uma tarde de reflexão
Os sons do entardecer deste Outono
ainda quente, teimoso,
fazem-me sono,
enrolam-me em filamentos de letargia
e cobrem de melancolia o meu espírito,
não estou triste,
mas também não sinto alegria
Estou ensonado
nesta tarde de Outono
e não consigo ver-me em nenhum lado,
estou assim, insosso,
atrofiado, no meu pátio
Mas estou obrigado
a reflectir
nesta tarde de Outono,
pedem-me para decidir
a quem dar o meu voto
quando amanhã estiver só
na cabine de voto
Está bem, vou reflectir:
Eu voto sempre,
e voto porque posso votar em liberdade,
há muita gente
que não o pode fazer,
e houve muita gente
que lutou até morrer
para eu agora o poder fazer,
por isso, voto sempre,
e nunca anulo o meu voto,
nem o pinto de branco,
porque ainda acredito que me dizem a verdade
quando pedem o meu voto,
voto e tento não votar em quem mente,
antes ou depois do meu voto,
mas diz-me a voz do povo:
quem mente uma vez, mente sempre,
e na política só deixam de mentir
quando as galinhas tiverem dentes
Será mesmo assim?
Eu sei que o meu Estado
está nas mãos dos credores,
mas, quem quer governar
não o diz,
eu sei que o meu Estado
continua a tirar aos pobres
para pagar juros à usura dos vendedores
de dinheiro, a quem chamam "mercados",
mas, quem quer governar
não o diz,
eu sei que o meu Estado
pediu e continua a pedir
muito dinheiro emprestado
para poder gerir
e sustentar a sua clientela,
aqueles que enriquecem a sugar o meu Estado,
sobrando apenas uma pequena parcela
para os seus empregados,
para a saúde pública, para a educação
para a solidariedade,
para uma nação feliz,
mas, quem quer governar
não o diz
Eu sei que o Banco Central Europeu
vai deixar de comprar dívida pública
e que o meu Estado vai entrar em falência técnica,
depois terei que aturar aquela linguagem pudica
dos economistas a explicar
que a dívida do meu Estado é insustentável,
mas todos temos que a pagar
e não se pode dar a entender aos credores
que não a podemos pagar,
caso contrário, aumenta para o dobro
logo no dia seguinte,
e quem governa limita-se a dizer
que a culpa não é dele,
- não, a culpa não é minha,
a culpa é daquele
que governou antes de mim
Eu sei que, apesar dos esforços
dos mais pobres,
a dívida pública do meu Estado
aumentou muito nos últimos quatro anos,
sim, aumentou em vez de diminuir,
já me explicaram porquê
e eu não percebi,
mas, quem governa
também não percebe
A política
será mesmo uma mentira?
Teremos outra alternativa
a esta democracia representativa
baseada em partidos de caciques?
Pronto,
não reflicto mais,
já não maço mais a minha cabeça,
vou continuar insosso
e esperar que este dia anoiteça,
amanhã será outro dia de Outono,
os magos do tempo prevêem tempestade,
ventos fortes e chuva pesada,
os magos do tempo costumam dizer a verdade
Os sons do entardecer deste Outono
ainda quente, teimoso,
fazem-me sono,
enrolam-me em filamentos de letargia
e cobrem de melancolia o meu espírito,
não estou triste,
mas também não sinto alegria
Estou ensonado
nesta tarde de Outono
e não consigo ver-me em nenhum lado,
estou assim, insosso,
atrofiado, no meu pátio
Mas estou obrigado
a reflectir
nesta tarde de Outono,
pedem-me para decidir
a quem dar o meu voto
quando amanhã estiver só
na cabine de voto
Está bem, vou reflectir:
Eu voto sempre,
e voto porque posso votar em liberdade,
há muita gente
que não o pode fazer,
e houve muita gente
que lutou até morrer
para eu agora o poder fazer,
por isso, voto sempre,
e nunca anulo o meu voto,
nem o pinto de branco,
porque ainda acredito que me dizem a verdade
quando pedem o meu voto,
voto e tento não votar em quem mente,
antes ou depois do meu voto,
mas diz-me a voz do povo:
quem mente uma vez, mente sempre,
e na política só deixam de mentir
quando as galinhas tiverem dentes
Será mesmo assim?
Eu sei que o meu Estado
está nas mãos dos credores,
mas, quem quer governar
não o diz,
eu sei que o meu Estado
continua a tirar aos pobres
para pagar juros à usura dos vendedores
de dinheiro, a quem chamam "mercados",
mas, quem quer governar
não o diz,
eu sei que o meu Estado
pediu e continua a pedir
muito dinheiro emprestado
para poder gerir
e sustentar a sua clientela,
aqueles que enriquecem a sugar o meu Estado,
sobrando apenas uma pequena parcela
para os seus empregados,
para a saúde pública, para a educação
para a solidariedade,
para uma nação feliz,
mas, quem quer governar
não o diz
Eu sei que o Banco Central Europeu
vai deixar de comprar dívida pública
e que o meu Estado vai entrar em falência técnica,
depois terei que aturar aquela linguagem pudica
dos economistas a explicar
que a dívida do meu Estado é insustentável,
mas todos temos que a pagar
e não se pode dar a entender aos credores
que não a podemos pagar,
caso contrário, aumenta para o dobro
logo no dia seguinte,
e quem governa limita-se a dizer
que a culpa não é dele,
- não, a culpa não é minha,
a culpa é daquele
que governou antes de mim
Eu sei que, apesar dos esforços
dos mais pobres,
a dívida pública do meu Estado
aumentou muito nos últimos quatro anos,
sim, aumentou em vez de diminuir,
já me explicaram porquê
e eu não percebi,
mas, quem governa
também não percebe
A política
será mesmo uma mentira?
Teremos outra alternativa
a esta democracia representativa
baseada em partidos de caciques?
Pronto,
não reflicto mais,
já não maço mais a minha cabeça,
vou continuar insosso
e esperar que este dia anoiteça,
amanhã será outro dia de Outono,
os magos do tempo prevêem tempestade,
ventos fortes e chuva pesada,
os magos do tempo costumam dizer a verdade
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Música
Gostava de escrever um poema
com sons de notas e de ritmos,
mas não posso, a minha pena
só tem ouvidos
para palavras e tons tremidos
Gostava de escrever uma canção
com sons de pássaros e de abelhas,
mas da minha mão
não saem claves, nem colcheias,
nem fusas, nem semifusas,
só saem linhas e teias
de letras e de vírgulas
Gostava de escrever uma sinfonia,
dar sons aos violinos, aos violoncelos,
aos tímbalos, às tubas, aos oboés,
uma sublime harmonia emanaria
de toda a orquestra,
tão sublime que subiria aos céus
conduzida pela batuta do maestro
Gostava de escrever um fado,
um fado vestido de lágrimas
e de saudade para ser tocado
por chorosas guitarras
num qualquer beco mal afamado
acompanhando vozes agarradas
às lamúrias do nosso triste fado
Gostava de saber escrever música,
gostava de a saber ler, tocar e cantar,
assim amaria mais a minha musa,
dar-lhe-ia uma harpa de encantar,
seria tão bom, ela a tocar
e eu escrever a letra e a música,
sempre a cantar
Mas não sei escrever música,
não sei nada de música,
não tenho esse dom de deuses,
também não o tem a minha musa,
ela só me dita frases
--------------------------------------------
Hoje é o Dia Mundial da Música, que viva a música
Gostava de escrever um poema
com sons de notas e de ritmos,
mas não posso, a minha pena
só tem ouvidos
para palavras e tons tremidos
Gostava de escrever uma canção
com sons de pássaros e de abelhas,
mas da minha mão
não saem claves, nem colcheias,
nem fusas, nem semifusas,
só saem linhas e teias
de letras e de vírgulas
Gostava de escrever uma sinfonia,
dar sons aos violinos, aos violoncelos,
aos tímbalos, às tubas, aos oboés,
uma sublime harmonia emanaria
de toda a orquestra,
tão sublime que subiria aos céus
conduzida pela batuta do maestro
Gostava de escrever um fado,
um fado vestido de lágrimas
e de saudade para ser tocado
por chorosas guitarras
num qualquer beco mal afamado
acompanhando vozes agarradas
às lamúrias do nosso triste fado
Gostava de saber escrever música,
gostava de a saber ler, tocar e cantar,
assim amaria mais a minha musa,
dar-lhe-ia uma harpa de encantar,
seria tão bom, ela a tocar
e eu escrever a letra e a música,
sempre a cantar
Mas não sei escrever música,
não sei nada de música,
não tenho esse dom de deuses,
também não o tem a minha musa,
ela só me dita frases
--------------------------------------------
Hoje é o Dia Mundial da Música, que viva a música
terça-feira, 29 de setembro de 2015
O cão e a dona
Ia toda airosa
pela rua fora
a dona do cão,
ia de salto alto,
acima do chão,
cara pó de talco,
riso flor da rosa,
ancas a dar a dar
toda vaporosa,
toda perfumada,
o seu cão ia atrás,
muito carinhoso,
muito lustroso
O cão parou
e cheirou o chão,
depois cagou
um cagalhão,
depois outro,
ela nem olhou
e pensou:
merda de cão,
que fedor,
que horror
Seguiram rua
a dona e o cão,
iam airosos, vaporosos,
um regalo de asseio,
os seus cagalhões malcheirosos
ficaram a secar no passeio
Ia toda airosa
pela rua fora
a dona do cão,
ia de salto alto,
acima do chão,
cara pó de talco,
riso flor da rosa,
ancas a dar a dar
toda vaporosa,
toda perfumada,
o seu cão ia atrás,
muito carinhoso,
muito lustroso
O cão parou
e cheirou o chão,
depois cagou
um cagalhão,
depois outro,
ela nem olhou
e pensou:
merda de cão,
que fedor,
que horror
Seguiram rua
a dona e o cão,
iam airosos, vaporosos,
um regalo de asseio,
os seus cagalhões malcheirosos
ficaram a secar no passeio
sábado, 26 de setembro de 2015
Fui peixe
Acordei agora
e já é hoje
há muita hora,
dormi bem esta noite,
mas ainda não sei bem o que se passou,
parece que dormi dentro do mar,
houve tempestade,
muito vento e as vagas
arrastavam-me para uma praia
que não estava lá,
era um náufrago, mas era peixe,
nadava com tubarões, mantas, raias,
baleias,
uma moreia ria-se de mim,
ela nunca tinha chocado
com um peixe assim,
sem barbatanas e sem rabo
Acordei agora
e já é hoje
há muita hora,
dormi bem esta noite,
mas ainda não sei bem o que se passou,
parece que dormi dentro do mar,
houve tempestade,
muito vento e as vagas
arrastavam-me para uma praia
que não estava lá,
era um náufrago, mas era peixe,
nadava com tubarões, mantas, raias,
baleias,
uma moreia ria-se de mim,
ela nunca tinha chocado
com um peixe assim,
sem barbatanas e sem rabo
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
Viver é ter paciência
Viver é ter paciência
para ver o tempo a passar,
a fazer tiquetaque, tiquetaque,
sempre a mesma cadência
de noite e de dia
Viver é ter paciência
para a matéria que nos enforma,
para esta massa mole
que nos fere com a doença
e que não aguenta a sede e a fome
Viver é ter paciência para nascer
e para crescer como somos,
é ter paciência para ver morrer
e para ouvir dizer que todos
temos que morrer
Viver é ter paciência para o entardecer,
para o desânimo,
para a infelicidade, para a tristeza,
para a ilusão, para o engano,
para a crueza
Viver é ter paciência
para ver o fausto e a riqueza
de poucos
ao lado da miséria e da pobreza
de todos os outros
Viver é ter paciência
para optar entre matar ou morrer,
é ter paciência para amar, odiar,
recordar, aguar, ajudar, sobreviver,
aprender, ensinar, acreditar, trabalhar ...
Viver é ter paciência
para viver
Viver é ter paciência
para ver o tempo a passar,
a fazer tiquetaque, tiquetaque,
sempre a mesma cadência
de noite e de dia
Viver é ter paciência
para a matéria que nos enforma,
para esta massa mole
que nos fere com a doença
e que não aguenta a sede e a fome
Viver é ter paciência para nascer
e para crescer como somos,
é ter paciência para ver morrer
e para ouvir dizer que todos
temos que morrer
Viver é ter paciência para o entardecer,
para o desânimo,
para a infelicidade, para a tristeza,
para a ilusão, para o engano,
para a crueza
Viver é ter paciência
para ver o fausto e a riqueza
de poucos
ao lado da miséria e da pobreza
de todos os outros
Viver é ter paciência
para optar entre matar ou morrer,
é ter paciência para amar, odiar,
recordar, aguar, ajudar, sobreviver,
aprender, ensinar, acreditar, trabalhar ...
Viver é ter paciência
para viver
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Outono
Ó Setembro,
acorda o Outono,
é daqui a pouco que o Sol vai bater
na linha do tempo,
é o momento do equinócio
deste hemisfério
mais a norte,
é o momento em que se deita o Verão
no leito onde dorme,
emergindo o Outono
do fresco subterrâneo
onde hibernou
Bem-vindo, ó Outono,
não te via desde o ano passado,
vem e começa já a despir as árvores
e a vestir os campos de cores
de amarelo torrado,
vem e vai ao mar buscar
o húmido vento
e trá-lo carregado de nuvens de água
e de sustento,
que venha esse vento,
que venha livre, a uivar,
que não esmoreça,
que se desfaça em mornas chuvas
nos vales, nas serras, nas várzeas,
que se desfaça antes que arrefeça,
antes que me calce as pantufas
e me cubra as orelhas e a cabeça
de lãs, ou de camurças
Bem-vindo, ó Outono de 2015
Ó Setembro,
acorda o Outono,
é daqui a pouco que o Sol vai bater
na linha do tempo,
é o momento do equinócio
deste hemisfério
mais a norte,
é o momento em que se deita o Verão
no leito onde dorme,
emergindo o Outono
do fresco subterrâneo
onde hibernou
Bem-vindo, ó Outono,
não te via desde o ano passado,
vem e começa já a despir as árvores
e a vestir os campos de cores
de amarelo torrado,
vem e vai ao mar buscar
o húmido vento
e trá-lo carregado de nuvens de água
e de sustento,
que venha esse vento,
que venha livre, a uivar,
que não esmoreça,
que se desfaça em mornas chuvas
nos vales, nas serras, nas várzeas,
que se desfaça antes que arrefeça,
antes que me calce as pantufas
e me cubra as orelhas e a cabeça
de lãs, ou de camurças
Bem-vindo, ó Outono de 2015
Subscrever:
Mensagens (Atom)