terça-feira, 19 de abril de 2016

A cama

A minha cama é eléctrica,
frenética
não me deixa
ir embora
levanta e baixa
e dobra
carregando num botão
que está sempre à mão

É uma cama simpática,
apática
acho que gosta de mim.
Quando acordo
estou sempre torto
mas a cama não tem culpa,
fui eu que dei a volta
diz-me ela
com certeza absoluta
E depois cá me aguento
quando me sentam na borda
à força, em forte tormento

Dói-me o corpo todo,
deitado ou em pé
parece uma rocha
que racharia
com um simples pontapé

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Estou

Estou colado a uma cama,
só me levantam para o cadeirão,
dizem que faz bem e que traz chama
ao corpo sem articulação

Estou a fazer fisioterapia,
todos dizem que resulta
e que vai acordar um dia
a minha perna adulta
e este braço sem vida

Estou derrotado,
o inimigo foi forte demais
mas continuo soldado
que quer vencer a guerra
e aguenta os maus sinais

A espera por dias melhores noutro ar
é partilhada pela família
e pelos meus amigos.
Dão-me a mão
e força para acreditar
na plena recuperação

Estou assim. Pronto.
A minha existência é monótona
e os meus relatos também.
Desculpem-me, caros leitores,
muita saúde para todos.  

domingo, 10 de abril de 2016

Lutar

Olá, amigos leitores,
é muito duro
não poder andar
no meio das flores.

O meu avc foi muito forte,
tirou-me o andar
e a mão esquerda
mas continuo a lutar
para recuperar a perda.

Quero voltar a andar
quero voltar a saltar a cerca
e ir a pé até ao
meu segundo andar. 

Vai levar tempo,
muito,
mas não desisto de lutar
e de ter paciência.
Não quero que o meu forte avc
me vença.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Hematoma avc
Ora toma
Um hematoma
Ficas sem o braço esquerdo
E sem a perna esquerda
Estou cheio de medo
De não voltar
A ser quem era
Por agora continuo preso
A uma cama hospitalar

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

[Por motivos rebeldes à sua vontade, o Vitório Rei vai estar algum tempo sem acesso a instrumentos de escrita. Hoje pediu-me que deixasse aos seus leitores os versos que com forte emoção e imerecido privilégio aqui reproduzo.
Serei fiel às palavras que ditou para o meu bloco. Do mesmo modo, conto respeitar-lhe o "estilo" de apresentação.
Em seu nome, muito obrigado.
08.Fev.2016.
Um amigo]
Corpo-refinaria

Olá, pessoal, bom dia
estou na enfermaria
sou um corpo-refinaria

Produzo krakatoa
da cor da broa

Estou todo entubado
mas hei-de sair daqui curado

Até breve

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Suor de menino

Vejo meninos mineiros andantes,
carregam pesados sacos de lama
tirada das entranhas da savana,
é lama de sangue com diamantes

Vejo meninos a coser as bolas
de futebol, as mãos e a agulha
não adormecem, e fura e fura,
os calos já esconderam as bolhas

Vejo meninos que fazem tijolos,
com os pezinhos amassam a massa,
os rostos e as mãos pedem carinho

Vejo ainda mais meninos sem colos
que não fugiram à mesma desgraça,
terá este plasma suor de menino?

sábado, 30 de janeiro de 2016

Canto à dor

Confrange-me a dor,
a minha e a alheia,
ela faz sofrer,
e sofrer é mais confrangedor
quando é dor traiçoeira,
quando é dor que dói
e não deixa cor,
quando é dor
que não diz onde dói,
quando é dor que mói
só para fingir que não é dor

Mas é mesmo dor,
ela aparece enredada em ânsias,
perdas, solidão, desânimos, tristezas,
angústias, medos, fraquezas,
aparece e começa logo a minar as esperanças
de quem sofre,
aparece e não desaparece, é dor teimosa,
e não alivia, e não abranda,
nem com uma poção milagrosa
de valeriana

Coitado do sofredor,
ainda tenta fingir a dor,
"a dor que deveras sente",
mas quando lhe perguntam
se navega na crista da onda,
ele desmente,
desmente e confessa com vergonha
que não consegue domar a dor
que o atormenta

Canta, ó sofredor,
canta a tua dor e o teu pranto,
canta, ó sofredor amigo,
canta, canta, que eu também canto
contigo

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Rouhani não pode ver nus

Ele não pode ver nus,
nem vivos, nem mortos,
nem estátuas, nem pinturas

Ele é o Presidente do Irão
e está de visita a Roma,
por ele, a cidade eterna
cobriu com cobertores
as suas estátuas nuas,
ai se ele entra numa Igreja,
que horror! credo!
vai ver um homem pregado na cruz
quase nu

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Temos Presidente

O Baltazar teve um filho
e chamou-lhe Marcelo,
o nome do padrinho

O pai foi salazarista
e o padrinho teve uma primavera só para si
quando foi o nosso Chefe,
até chegou a conversar connosco em família,
nós à volta da fogueira e ele na TV

Agora o filho e afilhado Marcelo
vai ser o nosso Presidente,
e vai sê-lo
porque também habituou a gente
a ouvi-lo e a vê-lo
na TV a conversar em família,
e até tinha jeito,
se ele quisesse, podia ser uma estrela
da TV,
mas não quis,
quis antes ser nosso Presidente

Que tenha muito sucesso
Senhor Presidente Marcelo,
e, já agora, deixe-me aconselhá-lo,
não nos sirva nenhuma Vichyssoise

sábado, 23 de janeiro de 2016

Guerras

Guelfos e Gibelinos

Os Guelfos queriam ser governados pelos papas,
os Gibelinos pelos imperadores,
combatiam-se ferozmente com muitas armas,
houve vencidos, houve vencedores,
muitas mortes, sangue, saques, raptos, batalhas

Nesse tempo viveu Dante em Florença,
cidade dominada pelos Guelfos
que se engalfinhavam contra os Gibelinos
e também entre eles,
os Guelfos brancos contra os Guelfos negros,
uns moderados, outros assassinos

Dante era um Guelfo branco,
em 1301, os Guelfos negros
derrotaram os Guelfos brancos,
Dante teve que fugir de Florença
para não morrer,
nunca mais voltou,
morreu em 1321 exilado em Ravena,
Guelfos e Gibelinos continuaram a guerra,
Dante deixou-nos a Divina Comédia