Guerras
Sete anos durou a guerra dos sete anos,
entre 1756 e 1763 os principais reis da Europa
conduziram os seus exércitos ufanos
para batalhas sangrentas e sem glória
O Luís XV, da França, e o Frederico II, da Prússia,
lá tiveram as suas razões para se desentenderem,
ganharam aliados, força, astúcia
e exércitos poderosos para se combaterem
A guerra dos sete anos
foi mais uma guerra na Europa,
teve muitas batalhas com muita gente,
redesenharam-se fronteiras na óptica
dos vencedores das linhas da frente,
e, como sempre,
os vencedores e os vencidos assinaram
um tratado
E o povo?, e o povo?, sim, o povo?,
como ficou o povo?
o povo morreu esfomeado,
é sempre assim a guerra,
A minha guerra
contra as sequelas
de um severo avc,
um horror,
dura há cerca
de um ano,
serei eu o vencedor?
espero que sim,
apesar de continuar muito aflito
sem armas e sem pujança,
conto com o meu exército:
amigos, família, calor, fisioterapeutas,
esperança
domingo, 11 de dezembro de 2016
domingo, 13 de novembro de 2016
Nas margens de um rio
Já sinto o frio
nas margens deste rio
Ó rio, leva-me contigo
leva-me na força da tua corrente
até ao sopé
da colina.
Não te levo, não,
facilmente perdes o pé
e ninguém te dá a mão.
Mas, ó rio
eu levo o meu tripé
O que é isso?
Acho que tens razão,
é melhor não ir
contigo,
o tripé não é barco
e tu és muito rápido
Fico
aqui
nesta margem
a olhar para ti
e a sonhar
na minha
próxima viagem,
quando o meu andar
for visto assim:
"Olhem, ele já caminha!"
Já sinto o frio
nas margens deste rio
Ó rio, leva-me contigo
leva-me na força da tua corrente
até ao sopé
da colina.
Não te levo, não,
facilmente perdes o pé
e ninguém te dá a mão.
Mas, ó rio
eu levo o meu tripé
O que é isso?
Acho que tens razão,
é melhor não ir
contigo,
o tripé não é barco
e tu és muito rápido
Fico
aqui
nesta margem
a olhar para ti
e a sonhar
na minha
próxima viagem,
quando o meu andar
for visto assim:
"Olhem, ele já caminha!"
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
Olá, meus queridos pais
Desculpem-me por não ter ido ontem, 2 de Novembro,
visitar o sítio onde repousam os vossos restos mortais
Não fui porque não pude
e não por falta de virtude
Sabem, a minha vida agora é andar em cais
cada vez mais
escorregadios e, porque não me consigo segurar,
se não tiver quem me ajude,
qualquer dia caio ao mar
Se me faltar a mão de quem me anda a ajudar
se cair não consigo nadar
nem sequer navegar,
depressa ficarei com falta de ar
Nessa altura alguém no cais
ficará a chorar
como eu por vocês,
meus queridos pais,
quando deixaram de respirar
Mas enquanto não chegar a minha vez
continuarei a segurar-me a este cais
embora ainda não consiga andar
sem contar um, dois, três,
e sempre muito devagar
até voltar a renascer
como faz o mar
ao amanhecer
Desculpem-me por não ter ido ontem, 2 de Novembro,
visitar o sítio onde repousam os vossos restos mortais
Não fui porque não pude
e não por falta de virtude
Sabem, a minha vida agora é andar em cais
cada vez mais
escorregadios e, porque não me consigo segurar,
se não tiver quem me ajude,
qualquer dia caio ao mar
Se me faltar a mão de quem me anda a ajudar
se cair não consigo nadar
nem sequer navegar,
depressa ficarei com falta de ar
Nessa altura alguém no cais
ficará a chorar
como eu por vocês,
meus queridos pais,
quando deixaram de respirar
Mas enquanto não chegar a minha vez
continuarei a segurar-me a este cais
embora ainda não consiga andar
sem contar um, dois, três,
e sempre muito devagar
até voltar a renascer
como faz o mar
ao amanhecer
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Ensinem-me
Ensinem-me a remar,
ensinem-me a remar
contra a maré, contra a maré
ensinem-me a andar,
ensinem-me a andar,
a andar de pé, a andar de pé
ensinem-me a ter fé,
a ter fé, a ter fé
ensinem-me a suportar,
a suportar a dor, a dor
e a amar, a amar
seja como for, seja como for
ensinem-me a não desistir,
a não desistir
de passar o Bojador,
de encontrar de novo o meu corpo,
com mais calor
ensinem-me o caminho, o caminho
para ir "além da dor"
e ouço: cresça, cresça, cresça mais um pouquinho,
estique o joelho, estique o joelho, se faz favor
olhe em frente, olhe em frente!
Ensinem-me a remar,
ensinem-me a remar
contra a maré, contra a maré
ensinem-me a andar,
ensinem-me a andar,
a andar de pé, a andar de pé
ensinem-me a ter fé,
a ter fé, a ter fé
ensinem-me a suportar,
a suportar a dor, a dor
e a amar, a amar
seja como for, seja como for
ensinem-me a não desistir,
a não desistir
de passar o Bojador,
de encontrar de novo o meu corpo,
com mais calor
ensinem-me o caminho, o caminho
para ir "além da dor"
e ouço: cresça, cresça, cresça mais um pouquinho,
estique o joelho, estique o joelho, se faz favor
olhe em frente, olhe em frente!
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Boa noite, doença
ainda estás aí?
queres dar cabo de mim?
Vai-te embora daqui, da minha cabeça,
do meu corpo, das minhas pernas,
do meu tronco avesso,
das minhas mãos perras
Vai-te embora, peço,
por que razão me encerras?
Confesso,
isto é duro como o aço,
"Não desista, mais um passo,
é uma ordem,
continue a lutar e tenha calma",
diz-me a terapeuta
com voz crente
e inteligente
Está bem, continuo em frente
mas por onde andará a minha alma?
ainda estás aí?
queres dar cabo de mim?
Vai-te embora daqui, da minha cabeça,
do meu corpo, das minhas pernas,
do meu tronco avesso,
das minhas mãos perras
Vai-te embora, peço,
por que razão me encerras?
Confesso,
isto é duro como o aço,
"Não desista, mais um passo,
é uma ordem,
continue a lutar e tenha calma",
diz-me a terapeuta
com voz crente
e inteligente
Está bem, continuo em frente
mas por onde andará a minha alma?
domingo, 2 de outubro de 2016
Melancolia
Melancolia
mas que palavra tão melancólica,
soa à almotolia
que dava o azeite que embebia a tocha
da candeia que alimentava de esperança
a minha vista já frouxa
quando eu era criança,
essa candeia que deixava de alumiar
com uma simples corrente de ar
Agora a melancolia
acompanha-me todo o dia,
agora soa a arrelia,
chateia,
tira-me toda a energia
e nem sequer alumia
como a ténue luz da candeia
quando lia e relia
os textos da escola primária
A minha perna esquerda
perdeu toda a energia,
por isso quero voltar à luz incerta
da minha candeia
de azeite lampante
sempre pronta, sempre esperta,
que se punha cintilante
quando a porta estava aberta
Melancolia
mas que palavra tão melancólica,
soa à almotolia
que dava o azeite que embebia a tocha
da candeia que alimentava de esperança
a minha vista já frouxa
quando eu era criança,
essa candeia que deixava de alumiar
com uma simples corrente de ar
Agora a melancolia
acompanha-me todo o dia,
agora soa a arrelia,
chateia,
tira-me toda a energia
e nem sequer alumia
como a ténue luz da candeia
quando lia e relia
os textos da escola primária
A minha perna esquerda
perdeu toda a energia,
por isso quero voltar à luz incerta
da minha candeia
de azeite lampante
sempre pronta, sempre esperta,
que se punha cintilante
quando a porta estava aberta
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Tudo se repete *
Tenta,
tenta experimentar a felicidade
logo de manhã,
tenta saborear a tarde
que ainda não é noite
À noite,
tenta varrer o escuro
para o alçapão da claridade,
assim não te arrefece,
e nunca esqueças que depois da noite
amanhece,
é outro dia e novamente a luz,
e tudo se repete
______________________________________________________________________________
* Encontrei agora estes versos que publico tal como os deixara em rascunho na manhã de 2 de Fevereiro passado.
Nesse 2 de Fevereiro, terça-feira, à noite, haveria de ter a visita medonha do avc que me mudou a vida sem pedir autorização nem me dar tempo de varrer nada ...
Tenta,
tenta experimentar a felicidade
logo de manhã,
tenta saborear a tarde
que ainda não é noite
À noite,
tenta varrer o escuro
para o alçapão da claridade,
assim não te arrefece,
e nunca esqueças que depois da noite
amanhece,
é outro dia e novamente a luz,
e tudo se repete
______________________________________________________________________________
* Encontrei agora estes versos que publico tal como os deixara em rascunho na manhã de 2 de Fevereiro passado.
Nesse 2 de Fevereiro, terça-feira, à noite, haveria de ter a visita medonha do avc que me mudou a vida sem pedir autorização nem me dar tempo de varrer nada ...
Ar
Olá, caros leitores
Tive alta do hospital,
já lá estava a mais
e vim para casa
para os braços de outros terapeutas,
a minha mulher e as nossas filhas
Agora apetece-me reconquistar Ceuta
e outras 'melilhas'
mas ainda não recuperei o andar
Continuo maneta
e canto sem parar
Eu não quero
um avc tão severo
quero andar, andar, andar
marchar, marchar
Quando inspiro
entra ar
quando expiro
sai ar,
ar, ar ar, ar
deixem circular o ar,
respirar, respirar, respirar
Deixem soprar o ar
ar puro, ar sujo,
e fujo, fujo, fujo
do pessimismo, da derrota,
deixem de poluir o ar
que eu arfo, arfo, arfo
se me falta o ar
Estou farto, farto, farto
da falta de ar,
deixem entrar o ar por aqui adentro
para eu respirar
e acalmar
a força do vento
que é só ar
por vezes quente e cheio de humidade,
e da chuva
que faz estalar a tempestade,
vento que empurra, empurra
e quebra tudo
mesmo o que se agarra
à terra com raízes de verga dura
com garras e pouca parra
Quero andar,
quero mergulhar
no ar em movimento
e nunca vergar
com a força do vento
que me move
com ais de lamento
sempre que chove
na minha varanda
de cimento
Anda, anda, anda,
tenho medo
do desespero
de ficar só
com a minha voz,
mas não ficarei
enquanto tiver uma Luz
que sempre amarei
Mas tenho medo
da voz do ar seco,
do ar manchego
que respirava o Dom Quixote
sempre a gritar e a ditar
o que estava errado e certo
e ninguém lhe roubou o dote
de grande filósofo a cavalgar
no deserto
Quero o ar
o ar do mar
que ventila
a minha janela
e a varanda
e anda e anda e anda
encostado à cancela
ao ritmo da batuta
da chefe da orquestra
Olá, caros leitores
Tive alta do hospital,
já lá estava a mais
e vim para casa
para os braços de outros terapeutas,
a minha mulher e as nossas filhas
Agora apetece-me reconquistar Ceuta
e outras 'melilhas'
mas ainda não recuperei o andar
Continuo maneta
e canto sem parar
Eu não quero
um avc tão severo
quero andar, andar, andar
marchar, marchar
Quando inspiro
entra ar
quando expiro
sai ar,
ar, ar ar, ar
deixem circular o ar,
respirar, respirar, respirar
Deixem soprar o ar
ar puro, ar sujo,
e fujo, fujo, fujo
do pessimismo, da derrota,
deixem de poluir o ar
que eu arfo, arfo, arfo
se me falta o ar
Estou farto, farto, farto
da falta de ar,
deixem entrar o ar por aqui adentro
para eu respirar
e acalmar
a força do vento
que é só ar
por vezes quente e cheio de humidade,
e da chuva
que faz estalar a tempestade,
vento que empurra, empurra
e quebra tudo
mesmo o que se agarra
à terra com raízes de verga dura
com garras e pouca parra
Quero andar,
quero mergulhar
no ar em movimento
e nunca vergar
com a força do vento
que me move
com ais de lamento
sempre que chove
na minha varanda
de cimento
Anda, anda, anda,
tenho medo
do desespero
de ficar só
com a minha voz,
mas não ficarei
enquanto tiver uma Luz
que sempre amarei
Mas tenho medo
da voz do ar seco,
do ar manchego
que respirava o Dom Quixote
sempre a gritar e a ditar
o que estava errado e certo
e ninguém lhe roubou o dote
de grande filósofo a cavalgar
no deserto
Quero o ar
o ar do mar
que ventila
a minha janela
e a varanda
e anda e anda e anda
encostado à cancela
ao ritmo da batuta
da chefe da orquestra
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
Saudade
Tenho saudade
dos rostos das pessoas
que cirandam pela minha cidade
e da gente que passeia
nas ruas da minha aldeia
Choro de saudade
do amigo
que passava por mim
no Rossio
Choro de saudade
da liberdade
de seguir a alcateia
por montes e vales
Por favor, tirem-me desta cadeia
que me prende o corpo
com correntes de avc e com outros males
Por favor, tragam-me a panaceia
que endireite este corpo torto
Por favor, não me faltes
agora, ó esperança de sal do mar morto
que ainda não morreu
Tenho saudade
dos rostos das pessoas
que cirandam pela minha cidade
e da gente que passeia
nas ruas da minha aldeia
Choro de saudade
do amigo
que passava por mim
no Rossio
Choro de saudade
da liberdade
de seguir a alcateia
por montes e vales
Por favor, tirem-me desta cadeia
que me prende o corpo
com correntes de avc e com outros males
Por favor, tragam-me a panaceia
que endireite este corpo torto
Por favor, não me faltes
agora, ó esperança de sal do mar morto
que ainda não morreu
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
Domingo à tarde pelas sete e tal
Domingo à tarde
ainda é fim-de-semana,
mas não estou na praia
nem à sombra
das frondosas árvores do parque,
estou a ser conduzido pela Mariana
para o hospital onde reside agora a minha fronha,
terminando assim o meu fim-de-semana
E vem o vazio
domingo à tardinha
A água do meu rio
continua escondida
mas ainda é rio
apesar da erva daninha
outra vez nas suas margens
Muito obrigado, filhinha,
pelo carinho com que tu e a Luzinha
me conduzem
ao hospital
domingo à tardinha,
pelas sete e tal
Todavia
depois destas curvas
conto encontrar
a minha cura
Domingo à tarde
ainda é fim-de-semana,
mas não estou na praia
nem à sombra
das frondosas árvores do parque,
estou a ser conduzido pela Mariana
para o hospital onde reside agora a minha fronha,
terminando assim o meu fim-de-semana
E vem o vazio
domingo à tardinha
A água do meu rio
continua escondida
mas ainda é rio
apesar da erva daninha
outra vez nas suas margens
Muito obrigado, filhinha,
pelo carinho com que tu e a Luzinha
me conduzem
ao hospital
domingo à tardinha,
pelas sete e tal
Todavia
depois destas curvas
conto encontrar
a minha cura
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