sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Um ano de avc

Faz hoje um ano de avc,
avc, a vida continua,
vejo-a a passar na rua que se vê
da  janela
do meu solitário quarto,
a minha cela
onde reflicto,
vejo-a a passar
no relógio de quartzo
sempre aflito
a dar horas e ordens,
quando soa o apito:
Bom dia, bom dia,
ergue-te dos lençóis
de Morfeu,
são horas da fisioterapia,
ergue-te, ergue-te
e mira a montanha
de Neruda,
faz-te foguete
e vai para a rua
estalar, voar, explodir,
chorar, rir e agradecer
porque tens ajuda,

Ó Luz, ó Luz,
Ajuda, ajuda!,
ainda preciso de ti
para vestir o capuz
e o bibe.

"Pai, pai,
menos lamúrias,
tanto ai
para nada,
quero mais luta
e menos lamentos",
é a voz da Lúcia
Que já se cansou
dos meus elementos.

Está bem, filha,
vou tentar
não me lamentar mais
nesta ilha
sem cais,
vou cantar

avc, a vida continua,
faz hoje um ano
que me deu a fúria,
mas ainda não se fechou o pano
do palco onde jogo a minha vida,
ainda quero caminhar
de perna esticada e erguida

sábado, 21 de janeiro de 2017

Quem me vende paciência?

Está quase passado
mais um sábado
em que não fui à praça,
não levantei o rabo
a horas,
fiquei enrolado
na cama
como um cágado
fica na lama,
congelado e sem graça,
a tentar restaurar
a sua carapaça
sem o sal e a água do mar
Porra, estou farto desta doença,
quem me vende paciência?

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Boas Festas

Angústia é uma vereda que finda num beco
onde só moram o escuro e o medo,
lágrimas de angústia são pingos de pez
que queimam e enrugam a face de quem as verte,
angústia é tempo perdido e inerte
angústia é talvez, talvez, talvez ...
... acorde um dia a poder ANDAR e com a mão a mexer

Caros leitores, amigos e amigas,
desejo a todos vós
um Feliz Natal
e Boas Festas em geral
com muitas migas,
pedaços de noz
e outras misturas que não façam mal
e se virem o Feiticeiro de Oz
digam-me

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Conformar

Tenho de me conformar
com a forma como o mar
mostra que é feroz
a bater na rocha
e como é meigo a lamber a areia,
Tenho de me conformar
com a forma como o ar
se mostra veloz
quando é vento
a soprar nos telhados da aldeia
onde mora o meu pensamento

domingo, 11 de dezembro de 2016

Guerras

Sete anos durou a guerra dos sete anos,
entre 1756 e 1763 os principais reis da Europa
conduziram os seus exércitos ufanos
para batalhas sangrentas e sem glória

O Luís XV, da França, e o Frederico II, da Prússia,
lá tiveram as suas razões para se desentenderem,
ganharam aliados, força, astúcia
e exércitos poderosos para se combaterem

A guerra dos sete anos
foi mais uma guerra na Europa,
teve muitas batalhas com muita gente,
redesenharam-se fronteiras na óptica
dos vencedores das linhas da frente,
e, como sempre,
os vencedores e os vencidos assinaram
um tratado

E o povo?, e o povo?, sim, o povo?,
como ficou o povo?
o povo morreu esfomeado,
é sempre assim a guerra,
A minha guerra
contra as sequelas
de um severo avc,
um horror,
dura há cerca
de um ano,
serei eu o vencedor?
espero que sim,
apesar de continuar muito aflito
sem armas e sem pujança,
conto com o meu exército:
amigos, família, calor, fisioterapeutas,
esperança

domingo, 13 de novembro de 2016

Nas margens de um rio

Já sinto o frio
nas margens deste rio
Ó rio, leva-me contigo
leva-me na força da tua corrente
até ao sopé
da colina.
Não te levo, não,
facilmente perdes o pé
e ninguém te dá a mão.
Mas, ó rio
eu levo o meu tripé
O que é isso?
Acho que tens razão,
é melhor não ir
contigo,
o tripé não é barco
e tu és muito rápido
Fico
aqui
nesta margem
a olhar para ti
e a sonhar
na minha
próxima viagem,
quando o meu andar
for visto assim:
"Olhem, ele já caminha!"

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Olá, meus queridos pais

Desculpem-me por não ter ido ontem, 2 de Novembro,
visitar o sítio onde repousam os vossos restos mortais
Não fui porque não pude
e não por falta de virtude

Sabem, a minha vida agora é andar em cais
cada vez mais
escorregadios e, porque não me consigo segurar,
se não tiver quem me ajude,
qualquer dia caio ao mar
Se me faltar a mão de quem me anda a ajudar
se cair não consigo nadar
nem sequer navegar,
depressa ficarei com falta de ar

Nessa altura alguém no cais
ficará a chorar
como eu por vocês,
meus queridos pais,
quando deixaram de respirar

Mas enquanto não chegar a minha vez
continuarei a segurar-me a este cais
embora ainda não consiga andar
sem contar um, dois, três,
e sempre muito devagar
até voltar a renascer
como faz o mar
ao amanhecer

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ensinem-me

Ensinem-me a remar,
ensinem-me a remar
contra a maré, contra a maré
ensinem-me a andar,
ensinem-me a andar,
a andar de pé, a andar de pé
ensinem-me a ter fé,
a ter fé, a ter fé
ensinem-me a suportar,
a suportar a dor, a dor
e a amar, a amar
seja como for, seja como for
ensinem-me a não desistir,
a não desistir
de passar o Bojador,
de encontrar de novo o meu corpo,
com mais calor
ensinem-me o caminho, o caminho
para ir "além da dor"
e ouço: cresça, cresça, cresça mais um pouquinho,
estique o joelho, estique o joelho, se faz favor
olhe em frente, olhe em frente! 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Boa noite, doença

ainda estás aí?
queres dar cabo de mim?
Vai-te embora daqui, da minha cabeça,
do meu corpo, das minhas pernas,
do meu tronco avesso,
das minhas mãos perras

Vai-te embora, peço,
por que razão me encerras?
Confesso,
isto é duro como o aço,
"Não desista, mais um passo,
é uma ordem,
continue a lutar e tenha calma",
diz-me a terapeuta
com voz crente
e inteligente

Está bem, continuo em frente
mas por onde andará a minha alma?

domingo, 2 de outubro de 2016

Melancolia

Melancolia
mas que palavra tão melancólica,
soa à almotolia
que dava o azeite que embebia a tocha
da candeia que alimentava de esperança
a minha vista já frouxa
quando eu era criança,
essa candeia que deixava de alumiar
com uma simples corrente de ar

Agora a melancolia
acompanha-me todo o dia,
agora soa a arrelia,
chateia,
tira-me toda a energia
e nem sequer alumia
como a ténue luz da candeia
quando lia e relia
os textos da escola primária

A minha perna esquerda
perdeu toda a energia,
por isso quero voltar à luz incerta
da minha candeia
de azeite lampante
sempre pronta, sempre esperta,
que se punha cintilante
quando a porta estava aberta