Uma flor azul
Sou um gineceu
d´uma flor azul,
azul como o céu
que me dá a luz
Abano o estigma,
sacudo o estilete,
estou feminina,
quero ser semente
Bate as asas, bate,
pássaro do céu,
com o teu bate, bate,
cai o androceu
E eu aqui ao léu
para o amar,
e tu a voar,
pássaro do céu
Vem meu androceu,
beija o meu estilete
com o teu filete,
vem que tu és meu
Vem meu androceu,
quero que me ames,
vem meu androceu,
dá-me os teus estames
Fizemos amor,
guardei o pólen,
se brilhar o Sol
nasce outra flor
domingo, 19 de julho de 2015
sexta-feira, 17 de julho de 2015
O velho da praia dos Medos
O velho da praia dos Medos
apanhava sol e sal
sem segredos,
mostrava tudo tal e qual,
mostrava o cu e o vergalho,
mostrava as nádegas
e o volumoso malho
que das pernas lhe pendia
como um chocalho
a badalar o meio-dia
O velho da praia dos Medos
estava a ser honesto,
estava com calor
como quando veio ao mundo,
e veio todo nu, sem complexos,
despido de panos e de pudor
Um dia,
se eu chegar a velho
e se perder o medo
de não ter coragem de ser velho,
alguém dirá também
que me viu velho
a apanhar sol e sal
na praia dos Medos,
feio, sem complexos
e animal
O velho da praia dos Medos
apanhava sol e sal
sem segredos,
mostrava tudo tal e qual,
mostrava o cu e o vergalho,
mostrava as nádegas
e o volumoso malho
que das pernas lhe pendia
como um chocalho
a badalar o meio-dia
O velho da praia dos Medos
estava a ser honesto,
estava com calor
como quando veio ao mundo,
e veio todo nu, sem complexos,
despido de panos e de pudor
Um dia,
se eu chegar a velho
e se perder o medo
de não ter coragem de ser velho,
alguém dirá também
que me viu velho
a apanhar sol e sal
na praia dos Medos,
feio, sem complexos
e animal
quarta-feira, 15 de julho de 2015
domingo, 12 de julho de 2015
Enquadrando o tempo
Acordo e ouço o tempo,
muito sol no continente,
nortada no norte e centro,
no sul, vento do poente
Ouço o tempo que faz,
que está ou que vai fazer,
o que passa já não está
e passou sem nada dizer
O tempo que passa, voa,
tem uma rota, um destino
e nada o abalroa,
segue sempre o seu caminho
O tempo voa e passa
por nós, mas não o sentimos
a passar, nem o ouvimos,
passa por cima, perpassa
Mas envelhece-nos, mói-nos,
cruza-nos com tempestades,
raios, coriscos, demónios,
alegrias, ansiedades
O tempo passa por nós
e nós temos que ocupá-lo
com o nosso corpo e voz,
dentro do nosso espaço
O tempo passa por nós
e nós passamos o tempo,
mas há quem o mate só,
e quem o perca pra sempre
E cada um de nós tem
o seu tempo, não há mais,
há-que aproveitá-lo bem
porque ele não volta atrás
Amanhã quero acordar
novamente a escutar
o tempo, se o meu tempo
me deixar chegar a tempo
Estou eu assim modorrento,
quando uma voz me reclama:
- acorda, salta da cama,
estás a perder o teu tempo
E também me diz o tempo:
- levanta-te, companheiro,
na cama e pachorrento
perdes tempo e dinheiro
Sigo a voz e o tempo
salto da cama alfazema,
lavo o meu pensamento
e escrevo este poema
Acordo e ouço o tempo,
muito sol no continente,
nortada no norte e centro,
no sul, vento do poente
Ouço o tempo que faz,
que está ou que vai fazer,
o que passa já não está
e passou sem nada dizer
O tempo que passa, voa,
tem uma rota, um destino
e nada o abalroa,
segue sempre o seu caminho
O tempo voa e passa
por nós, mas não o sentimos
a passar, nem o ouvimos,
passa por cima, perpassa
Mas envelhece-nos, mói-nos,
cruza-nos com tempestades,
raios, coriscos, demónios,
alegrias, ansiedades
O tempo passa por nós
e nós temos que ocupá-lo
com o nosso corpo e voz,
dentro do nosso espaço
O tempo passa por nós
e nós passamos o tempo,
mas há quem o mate só,
e quem o perca pra sempre
E cada um de nós tem
o seu tempo, não há mais,
há-que aproveitá-lo bem
porque ele não volta atrás
Amanhã quero acordar
novamente a escutar
o tempo, se o meu tempo
me deixar chegar a tempo
Estou eu assim modorrento,
quando uma voz me reclama:
- acorda, salta da cama,
estás a perder o teu tempo
E também me diz o tempo:
- levanta-te, companheiro,
na cama e pachorrento
perdes tempo e dinheiro
Sigo a voz e o tempo
salto da cama alfazema,
lavo o meu pensamento
e escrevo este poema
quinta-feira, 9 de julho de 2015
A vida deste mar imenso
Estou na praia e o mar está ali,
calmo, sereno, maré vazia,
entrei nele há pouco,
mas só me molhou os pés,
não gostou de mim,
pois é,
este mar imenso
seduz-me, droga-me
e depois não me deixa entrar no silêncio
do seu ventre,
se lá entro, afoga-me
Por isso só vejo o que se passa
à flor da sua água
Se está bravo,
ruge, fustiga, enerva-se, escuma,
suga as pesadas nuvens de chuva,
cria grandes ondas para, uma a uma,
morrerem na praia,
numa cama de espuma,
ou contra as rochas,
num choque de raiva
Se está calmo,
é um vasto espelho de água
onde a Lua espalha
os seus cabelos de prata
e onde o Sol se esconde
para lá do horizonte
E não consigo ver mais nada
que seja dele
Ó mar imenso,
por que razão não me mostras
a vida que tens no teu ventre?
por que razão me afogas
se eu entrar por ti adentro?
Responde-me, ó mar imenso,
pode ser com um remoinho,
com um bramido mais intenso,
com um guincho de um golfinho,
pode ser como quiseres,
mas responde-me, ó mar imenso
E nada, ele não me responde,
só me manda ondas e marés,
ó, quem me dera ser anfíbio,
ó, quem me dera ser esponja,
ó, quem me dera ser tudo,
para poder mergulhar no infinito
profundo
Estou na praia e o mar está ali,
calmo, sereno, maré vazia,
entrei nele há pouco,
mas só me molhou os pés,
não gostou de mim,
pois é,
este mar imenso
seduz-me, droga-me
e depois não me deixa entrar no silêncio
do seu ventre,
se lá entro, afoga-me
Por isso só vejo o que se passa
à flor da sua água
Se está bravo,
ruge, fustiga, enerva-se, escuma,
suga as pesadas nuvens de chuva,
cria grandes ondas para, uma a uma,
morrerem na praia,
numa cama de espuma,
ou contra as rochas,
num choque de raiva
Se está calmo,
é um vasto espelho de água
onde a Lua espalha
os seus cabelos de prata
e onde o Sol se esconde
para lá do horizonte
E não consigo ver mais nada
que seja dele
Ó mar imenso,
por que razão não me mostras
a vida que tens no teu ventre?
por que razão me afogas
se eu entrar por ti adentro?
Responde-me, ó mar imenso,
pode ser com um remoinho,
com um bramido mais intenso,
com um guincho de um golfinho,
pode ser como quiseres,
mas responde-me, ó mar imenso
E nada, ele não me responde,
só me manda ondas e marés,
ó, quem me dera ser anfíbio,
ó, quem me dera ser esponja,
ó, quem me dera ser tudo,
para poder mergulhar no infinito
profundo
sábado, 4 de julho de 2015
Alfa e Ómega
Alfa, Beta, Gama, Delta,
Épsilon, Zeta, Eta, Teta,
Iota, Kapa, Lambda, Mu,
Nu, Csi, Ómicron, Pi,
Rô, Sigma, Tau, Úpsilon,
Fi, Qui, Psi, Ómega
Alfa e Ómega,
o princípio e o fim
do alfabeto grego,
e é com algumas dessas letras
que se escreve não, sim,
em grego
Eu não sou grego,
mas também estou assustado,
tenho o mesmo medo,
dizer sim, dizer não, ou dizer nada,
tanto faz,
fico na mesma crucificado
quando, daqui a uns meses,
todos os portugueses
forem também obrigados
a dizer sim, ou não,
aos seus credores endinheirados
que querem ficar ainda mais ricos
sugando quem não tem pão,
vão todos bardamerda: os credores, os mercados,
os banqueiros e os seus porta-vozes, os políticos
Sim, vão todos bardamerda,
mas se não quiserem ir
fiquem e expliquem-me por que razão
convenceram os tesos a pedir
emprestado o vosso dinheiro?
Foi por solidariedade? Foi por compaixão?
Não acredito, seus vis usurários
Alfa, Beta, Gama, Delta,
Épsilon, Zeta, Eta, Teta,
Iota, Kapa, Lambda, Mu,
Nu, Csi, Ómicron, Pi,
Rô, Sigma, Tau, Úpsilon,
Fi, Qui, Psi, Ómega
Alfa e Ómega,
o princípio e o fim
do alfabeto grego,
e é com algumas dessas letras
que se escreve não, sim,
em grego
Eu não sou grego,
mas também estou assustado,
tenho o mesmo medo,
dizer sim, dizer não, ou dizer nada,
tanto faz,
fico na mesma crucificado
quando, daqui a uns meses,
todos os portugueses
forem também obrigados
a dizer sim, ou não,
aos seus credores endinheirados
que querem ficar ainda mais ricos
sugando quem não tem pão,
vão todos bardamerda: os credores, os mercados,
os banqueiros e os seus porta-vozes, os políticos
Sim, vão todos bardamerda,
mas se não quiserem ir
fiquem e expliquem-me por que razão
convenceram os tesos a pedir
emprestado o vosso dinheiro?
Foi por solidariedade? Foi por compaixão?
Não acredito, seus vis usurários
sexta-feira, 3 de julho de 2015
A vida é uma maravilha
Nascemos e já está,
somos,
estamos cá,
já não voltamos para dentro
do mundo dos gnomos,
estamos cá,
e começamos logo a chorar,
sim, quando nascemos
temos que chorar,
é a nossa marca, o nosso selo,
somos os únicos animais
a fazê-lo
Sim, nascemos a chorar,
choramos porque vimos a sofrer
e a fazer sofrer,
porque vimos num corpo
de cálcio, ferro, água e sal,
um corpo onde corre sangue a ferver
temperado com o bem e com o mal
Nascemos e desde muito cedo
temos medo,
gritam connosco,
somos empurrados,
temos de crescer,
começamos colados ao colo
e acabamos desamparados
a morrer
Mas temos de crescer sem pensar na morte,
dizem-nos que a vida é uma maravilha,
e, de facto, é uma maravilha a vida,
andamos sempre em frente, o desejo é forte,
nunca voltamos atrás, isso não está previsto,
estamos sempre na linha de partida
agarrados ao que está feito, ao que está escrito,
não há espaço para desfazer o erro,
nem para apagar a verdade que era mentira,
e, por vezes, nem sequer há tempo
para o arrependimento
Porque, de repente,
foge-nos o chão,
ficamos com o corpo tenso,
falha-nos o coração,
não sentimos o vento
a soprar no peito,
vemos tudo de perfil,
e pronto! chegou o momento,
ela entra, olha, encadeia-se com o cheiro
e, num acto de misericórdia, estica-nos o pernil
A vida é uma maravilha
Nascemos e já está,
somos,
estamos cá,
já não voltamos para dentro
do mundo dos gnomos,
estamos cá,
e começamos logo a chorar,
sim, quando nascemos
temos que chorar,
é a nossa marca, o nosso selo,
somos os únicos animais
a fazê-lo
Sim, nascemos a chorar,
choramos porque vimos a sofrer
e a fazer sofrer,
porque vimos num corpo
de cálcio, ferro, água e sal,
um corpo onde corre sangue a ferver
temperado com o bem e com o mal
Nascemos e desde muito cedo
temos medo,
gritam connosco,
somos empurrados,
temos de crescer,
começamos colados ao colo
e acabamos desamparados
a morrer
Mas temos de crescer sem pensar na morte,
dizem-nos que a vida é uma maravilha,
e, de facto, é uma maravilha a vida,
andamos sempre em frente, o desejo é forte,
nunca voltamos atrás, isso não está previsto,
estamos sempre na linha de partida
agarrados ao que está feito, ao que está escrito,
não há espaço para desfazer o erro,
nem para apagar a verdade que era mentira,
e, por vezes, nem sequer há tempo
para o arrependimento
Porque, de repente,
foge-nos o chão,
ficamos com o corpo tenso,
falha-nos o coração,
não sentimos o vento
a soprar no peito,
vemos tudo de perfil,
e pronto! chegou o momento,
ela entra, olha, encadeia-se com o cheiro
e, num acto de misericórdia, estica-nos o pernil
A vida é uma maravilha
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Os cavalos à solta
Os cavalos à solta trotam a caminho
da pradaria
e assustam a lebre, o arminho
e o rio que, correndo veloz entre a penedia,
parece que tem pressa de chegar ao destino
Os cavalos à solta
cruzam-se com os bisontes
que também andam à solta,
mas que brutamontes,
relincham os cavalos,
assustando os castores
que estavam de amores
Os cavalos à solta são livres,
só carregam a sua energia
e galopam ligeiros com alegria,
são felizes
Os cavalos à solta
não têm cavaleiros, nem cavalaria,
nem donos, nem patrões,
nem ferraduras, nem pitons, nem selins,
nem colares, nem rédeas, nem arreios,
nem cabrestos, nem palas, nem cabeções,
os cavalos à solta andam nus
Hoje acordei com a cama revolta,
estava a sonhar que era um cavalo à solta
Os cavalos à solta trotam a caminho
da pradaria
e assustam a lebre, o arminho
e o rio que, correndo veloz entre a penedia,
parece que tem pressa de chegar ao destino
Os cavalos à solta
cruzam-se com os bisontes
que também andam à solta,
mas que brutamontes,
relincham os cavalos,
assustando os castores
que estavam de amores
Os cavalos à solta são livres,
só carregam a sua energia
e galopam ligeiros com alegria,
são felizes
Os cavalos à solta
não têm cavaleiros, nem cavalaria,
nem donos, nem patrões,
nem ferraduras, nem pitons, nem selins,
nem colares, nem rédeas, nem arreios,
nem cabrestos, nem palas, nem cabeções,
os cavalos à solta andam nus
Hoje acordei com a cama revolta,
estava a sonhar que era um cavalo à solta
domingo, 21 de junho de 2015
Aquele jacarandá
Aquele jacarandá
que vive naquela rua
está cansado e já não dá
flores em Junho,
aquelas flores roxas ou azuis
que lembram sinos a badalar,
tlim, tlão, tlim, tlão,
ou grafonolas a tocar
a cantiga do Verão
Aquele jacandará esmoreceu
e já não se pinta de cores,
será que morreu?
ou será que se aborreceu
com os seus amores?
Ergue-te, ó meu jacandará,
não te inclines para o chão,
olha bem para cima, para o ar,
e respira fundo este novo Verão
que já está aí a aquentar,
ergue-te, ó meu jacandará
--------------------------------
Viva o Verão de 2015
Aquele jacarandá
que vive naquela rua
está cansado e já não dá
flores em Junho,
aquelas flores roxas ou azuis
que lembram sinos a badalar,
tlim, tlão, tlim, tlão,
ou grafonolas a tocar
a cantiga do Verão
Aquele jacandará esmoreceu
e já não se pinta de cores,
será que morreu?
ou será que se aborreceu
com os seus amores?
Ergue-te, ó meu jacandará,
não te inclines para o chão,
olha bem para cima, para o ar,
e respira fundo este novo Verão
que já está aí a aquentar,
ergue-te, ó meu jacandará
--------------------------------
Viva o Verão de 2015
sábado, 20 de junho de 2015
Afastem-me
Afastem-me da força das palavras,
da força dos segredos,
da força dos medos,
afastem-me do alcatrão das estradas
Quero subir este rio de margens bravas
que me tira a calma,
que me enche de lama,
quero derrapar nas suas fragas
Quero esgotar-me na minha margem,
estou velho, estamos velhos,
e não quero mais conselhos,
quero apenas uma mochila e uma viagem
Hoje acordei assim, amanhã estarei melhor
Afastem-me da força das palavras,
da força dos segredos,
da força dos medos,
afastem-me do alcatrão das estradas
Quero subir este rio de margens bravas
que me tira a calma,
que me enche de lama,
quero derrapar nas suas fragas
Quero esgotar-me na minha margem,
estou velho, estamos velhos,
e não quero mais conselhos,
quero apenas uma mochila e uma viagem
Hoje acordei assim, amanhã estarei melhor
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