sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Poema adolescente

Estava acorrentado a uma rocha
quando alguém,
possuído de rezas e de força,
rasgou os ferros
da corrente
e, aos berros,
anunciou um nascimento

Assim nasci,
nasci livre, solto,
mamei, chupei, chorei, rezei,
ri, cantei,
fui bebé, miúdo, garoto,
chateei, encantei

Nasci e cresci
sempre solto,
era franzino, inocente,
era o mais novo,
depois encontrei-me adolescente
e voltaram os ferros,
outros ferros,
com eles rolei pelas encostas,
rasguei os joelhos,
deixei-me ir em águas revoltas,
espantei bichos e feras,
mergulhei em barreiros e lagoas,
encharquei-me nas marés,
remei contra a corrente,
que força! que raiva!,
sempre aos pulos, sempre impaciente,
queria sempre mais

Até que, encostado
a um tronco esburacado,
descansei um pouco,
estava exausto de miragens,
não estava louco,
era só um viajante de más viagens

Foi quando
uma folha caída se agitou,
não havia vento,
a folha era uma voz
- eu sou alguém de que tu precisas,
ó alma adolescente,
sou a musa das premissas
e chamo-me Consequência,
segue-me
e afasta-te da inconsequência

Fiquei agarrado
e amparado

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A pantera

Desequilibrou-se a pantera
e caiu no fundo da cratera
depois de um longo voo
sempre em queda
sem pára-quedas
e sem enjoo,
era cor de rosa
e ficou da cor das panquecas,
mas logo se recompôs
e seguiu a sua vida airosa,
era pantera e era cor de rosa

Desenhos animados,
animados porque andam
e porque me animam,
vivam os desenhos animados,
abaixo os desenhos desanimados
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Hoje é o Dia Mundial do Desenho Animado

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sou do Governo

Hoje apetece-me ser do Governo,
apetece-me ser o Ministro
da Despensa e do Frigorífico
e, ao mesmo tempo,
o Ministro Tesoureiro
do Fisco,
esperem, tenho uma mensagem do Primeiro ...
lá está ele a chatear!
quer saber se há caviar, Moët & Chandon e marisco,
já estou a desesperar, o dinheiro
nem chega para a marmelada!
bem, vou telefonar ao meu peixeiro
e talvez arranje uma caldeirada

sábado, 24 de outubro de 2015

Sou caucasiano

Sempre me foi mais fácil determinar
a origem de uma mercadoria
do que identificar
a origem de uma pessoa

As regras de origem das mercadorias
estão escritas nos códigos aduaneiros
e nos acordos bilaterais, ou multilaterais,
negociados e assinados por suas senhorias,
os patrões desta aldeia global donos dos dinheiros,
das almas e dos materiais

As regras de origem das mercadorias
são muito divertidas,
ainda por cima estão escritas,
estudem-nas, sim, estudem-nas,
de certeza que se vão rir

Não é o que se passa
com as regras de origem das pessoas,
estas não estão escritas em acordos,
apenas estão escritas as normas
que determinam a nacionalidade,
ou a dupla nacionalidade,
que passam a constar no passaporte

Mas, cidadania não é o mesmo que origem,
sendo assim, não entendo por que razão
continuam a existir grupos de cidadãos
a defender a pureza da origem das pessoas
gritando a quem passa:
- não, não queremos cá os que não são da nossa raça

Eu explico,
agarramos em mim,
tenho a nacionalidade portuguesa
porque nasci aqui,
se tivesse nascido mais a norte,
ou mais a sul, ou do outro lado da fortaleza,
teria outra cor o meu passaporte

Mas, qual é a minha origem?

Seguramente, os meus antepassados
remotos não eram daqui, vieram para cá,
sim, vieram de lá para cá
e ficaram cá porque não lhes apeteceu
voltar para lá,
terão vindo para cá
como invasores, peregrinos,
refugiados sequiosos, famintos,
sei lá,
mas vieram e ficaram

Desde 1179, ano em que o Papa
reconheceu o primeiro Rei de Portugal
(ele não era filho da mãe, nem do pai,
era filho do aio),
todos os humanos que viviam aqui
passaram a ter nacionalidade portuguesa,
a não ser que tivessem de fugir
para não morrer,
e tiveram mesmo, e muitas vezes,
e continuam a fugir

Pronto, eu não fugi,
mas, repito, qual será a minha origem?

Será que tenho tecidos fenícios, cartagineses,
celtas, iberos, romanos, alanos,
vândalos, suevos, visigodos,
judeus, bascos, saxões, sarracenos,
castelhanos, francos, africanos ...?

Não sei,
mas acho que sou de origem dispersa,
acho que sou predominantemente alano
da Ossétia,
com uma pitada de sarraceno e de sefardita,
falo e escrevo o português, uma língua do ramo
do baixo latim,
mas a minha língua-mãe deveria ser o farsi

Ai se alguém sabe, o que será de mim?

Por favor, não digam nada, nem façam caso,
é tudo tão relativo, não, não me expulsem daqui,
por favor, não façam isso,
não, não me obriguem a regressar ao Cáucaso

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sol de Outono

O Sol aparece
mais ao lado
e a manhã aquece
em banho-maria
enquanto ele sobe
até ao meio do dia

Depois desce
e dorme a sesta,
quando acorda já é tarde
para aquecer
e vai para a cama mais cedo

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Um poema do meu sótão

Amor livre,
amor impossível,
amor à primeira vista,
amor hippie,
amor utópico,
amor à Woodstock,
amor desgosto,
amor a arder no fogo
do inferno
porque não entra no paraíso,
diz o confessor
como aviso,
não, não sigam esse amor,
repete o confessor,
porque é pecado e merece castigo,
sigam antes o destino
já destinado pelo destino

Mas eu não engulo esse fogo,
por isso sou esta tristeza ambulante,
um ser perdido
no meio da floresta
de abetos,
sou um condor ferido,
não, não quero o meu destino,
não quero esta tristeza ambulante,
quem me mandou ler Dante?

E sonhei que parti,
que parti com o sonho de ser cavaleiro andante,
sonhei que parti sozinho com a desventura
por esse mundo além
à procura do palácio encantado da ventura,
sonhei que cheguei a um castelo
 e que perguntei:
- vive aqui alguém?
e ninguém respondeu,
mas continuei,
subi uma montanha,
desci uma colina,
atravessei um vale,
e vi numa esquina
um ser vivo
e perguntei:
- vive aqui alguém?
e ele respondeu,
- ninguém,
depois atravessei um rio,
transpus um outeiro,
aguentei o sol
e numa árvore
encontrei um rouxinol
a cantar, e cantava, e cantava,
e perguntei:
- cantas sozinho?,
- sim, eu canto sozinho,
também ele!

Mas, quem é que me mandou para este vale?
mas, quem é que me mandou ler Antero de Quental?

domingo, 18 de outubro de 2015

Deus

Vejo cruzes, vejo campanários,
vejo estátuas, vejo colunatas,
vejo basílicas, catedrais, torreões,
conventos, santuários,
vejo altares, vejo arcadas,
ouço missas, terços, sermões,
ouço milagres em promessas pagas,
tudo em nome de Deus,
aí O procuro, mas não O vejo

Vejo muros, lamentações,
vejo explosões e orações
em terras prometidas
pelo mesmo Deus
a tribos por Ele escolhidas,
aí O procuro, mas não O vejo

Vejo mesquitas, minaretes,
multidões de fiéis
a atirar seixos a paredes
transfiguradas no diabo
e a vociferar contra os infiéis
que abominam o mesmo diabo,
tudo em nome do mesmo Deus,
aí O procuro, mas não O vejo

Vejo um sorriso
de uma criança feliz
a jogar ao berlinde
com outra criança feliz,
não o fazem em nome de Deus,
mas, se Ele existe, talvez esteja aí,
escondido, para eu não O ver

sábado, 17 de outubro de 2015

Vento

Não me consigo concentrar,
nem a ler, nem a pensar,
o forte vento
leva o meu pensamento
a voar
sobre os telhados, sobre as árvores,
onde estarão os pássaros?

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A boda dos espíritos

A sala tem uma excelente acústica,
vibra desde o soalho até ao topo,
neste serão vai vibrar com música
clássica allegro ma non troppo

A orquestra já afinou os tons,
na plateia já não há pigarreia,
os dedos dos músicos estão prontos,
o maestro levanta a mão direita

E a orquestra começa a tocar,
os tímbalos marcam a cadência,
tumba, tumba, tumba, a dar, a dar,
e o maestro a perder a paciência

Os tímbalos não abrandam o ritmo,
os violoncelos falham os acordes,
os violinos entram em desatino,
seguindo os oboés e os fagotes

O piano embala uma valsa,
as cordas das violas um flamenco,
o pífaro chama nomes à flauta
e as trompas levantam um pé-de-vento

Uma tuba sussurra que não toca
mais nesta ditadura da batuta,
a harpa quer violar a viola
e a lira delira com o kama sutra

O piano começa a dar pulos,
um violino voa contra o tímbalo,
um contrabaixo só emite urros
e o maestro cai redondo no palco

Todos os instrumentos estão loucos,
os das cordas enrolam os dos sopros,
os dos metais vomitam bicharocos,
os da percussão estão todos rotos

O caos finda quando o gongo anuncia
o início da boda dos espíritos,
os músicos ficam quietos e hirtos
e na plateia começa uma orgia

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Caminhadas

Ando a caminhar
no ar
de pernas para o ar,
vejo o mundo
a ir ao fundo,
não sou capaz
de aterrar

Ando a caminhar
no chão
de pernas para o chão,
vejo o mundo
de olhos no chão,
não sou capaz
de os levantar

Ando a caminhar
na Lua
sem gravidade,
vejo a Terra iluminada,
bonita, azul,
será mesmo verdade?