quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tenho saudades do Rossio

Naquele tempo, o Rossio
era calor, era manifestação,
era comício,
falava-se livremente e com temperança,
falava-se do comunismo, do socialismo,
do fascismo, do social-fascismo,
da reforma agrária, da esperança,
da desventura dos regressados do Ultramar,
e, quando fugia a perseverança,
ouvia-se gritar
"abaixo a reacção, ditadura nunca mais"

Naquele tempo, no Rossio,
cada palrador tinha o seu grupinho,
sucediam-se as palestras,
as perguntas, as respostas,
por vezes havia burburinho,
um grupinho dada vivas ao Enver Hoxha,
outro entoava em coro ao ritmo do Kung Fu:
Marx, Engels, Lenine, Estaline,
Mao Tsé-Tung

Naquele tempo, no Rossio,
havia palradores,
eram políticos ainda sem gabaritos,
mas eram corajosos e sabedores,
conheciam Marx e os seus materialismos,
o dialéctico e o histórico,
também citavam Weber e Leibholz,
e convenciam, eram bons oradores,
onde andarão eles agora? estarão pobres?
estarão ricos? já terão morrido?

Agora vou ao Rossio
e não o vejo,
não é nada, não se passa nada,
nem um discurso, nem um gargarejo
de política, de protesto,
nem sequer uma arruada

Agora vou ao Rossio
só para ver quem passa por mim,
mas, um dia destes, agarro num clarim
e faço lá um comício

Viva o 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões 
e das Comunidades Portuguesas