domingo, 2 de agosto de 2015

Recordo

Estou aqui e recordo,
recordo um tempo ido,
recordo o calor, o frio, os fumos,
o carinho, o colo, o abrigo,
recordo o cheiro podre dos fungos
quando se tirava o esterco húmido
dos currais dos fundos
do movimentado pátio

Recordo como a vida corria,
a agricultura de subsistência,
os sons e os cheiros da eira,
a junta de vacas, o burro, as ovelhas,
as galinhas, os leitões na pocilga
que não largavam as tetas
da volumosa marrã aflita,
recordo os coelhos e as suas moléstias,
- ó prima,
unte a coelheira com creolina

Recordo a venda, as tulhas, a taberna,
os pratos da balança, os fregueses,
o cheiro a vinho, a aguardente, a ginebra,
a prateleira dos "Porto", dos "Provisórios",
a bancada das jarras, dos copos,
a gaveta dos trocos,
recordo os bêbados da aldeia às turras,
recordo a caixa dos lenços, das cuecas,
das meias de vidro, das peúgas,
recordo as mulheres com saias de pregas
e os homens de barrete e de colete
quando regressavam da feira ou do dia treze
a cavalo nos seus burros em trânsito para a Torre,
eles nem desciam das suas montadas
para beberem a sua dose,
aquilo é que eram albardas!

Recordo os dias bons, os dias maus,
recordo o vazio e a falta de esperança
ao ver os irmãos e irmãs partirem
com o peso das malas
para uma estranha França

Recordo agora o que passou,
recordo também esta sala,
era tão acolhedora,
sempre com flores, soalheira,
arrumada e bonita como a dona,
recordo o cheiro do seu chão de madeira
sempre encerado, tinha um ar tão doce

Mas tudo acaba quando tudo abala
e já tudo abalou deste casarão em ruínas,
ficaram apenas os restos desta sala,
as janelas, as cortinas,
a luz do sol, o sítio do relógio,
uma moldura com rostos de meninas,
um calendário com o Santo António,
um fruto de plástico, umas mesinhas
já carcomidas,
focos de caruncho e de pó,
e silêncio, muito silêncio,
um silêncio doloroso,
já não ouço aquela voz

Recordo e choro