terça-feira, 16 de setembro de 2014

Naufrágio

Deixam-se embarcar
amontoados,
com sede, com fome,
e já enjoados,
já com cheiro a morte

E flutuam,
já em alto-mar,
na piroga da esperança,
será que vamos chegar
às costas da bonança?

E continuam embarcados
a flutuar em alto-mar,
desamparados,
os corações a espumar
e a piroga a afundar

E continuam a flutuar
em alto-mar,
mas agora afogados,
a piroga não era para navegar,
era só para iludir os desgraçados

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O Marinho e Pinto e a Genoveva

Para aonde irá a Genoveva
assim vestida toda airosa
com a sua alcofa cor de rosa
e o que será que ela leva?

Para aonde irá aquele Pinto
com uma alcofa de arminho
e um fato de azul marinho
e gravata com tons de tinto?

Vai a Genoveva para a Suíça
ter com o seu homem trolha,
leva na alcofa broa e chouriça
e uma réstia de alhos e cebola

Vai o Pinto marinho para Bruxelas,
leva na alcofa votos e votos em vão,
e vaidade, e demagogia e balelas,
não disfarça, é um deputado da Nação

Foi-se a Genoveva e não voltou,
ficou como "femme de ménage"
e tanto limpou e tão pouco ganhou
que encheu a sua alcofa de "rage"

Mas voltou o Pinto marinho,
que não quer ser tão bem pago
como um europeu deputado
e ei-lo de novo aqui pobrezinho

E agora diz que é um rei mago
e que voltou para nos governar,
mas se já nos governa tanto gado,
para quê outro, um pinto do mar?

Vamos é pedir à Genoveva
a sua esfregada esfregona
e vamos esfregar a tromba
da bicharada que nos governa

Para aprenderem a não mentir,
para aprenderem a não roubar,
para aprenderem a não matar
a nossa esperança no porvir

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Fui aduaneiro

A fronteira é uma linha imaginária
que demarca a língua, a tribo, a nação,
os países, os estados, os clãs, a pátria,
os costumes e, por vezes, a religião

A fronteira é ruptura,
e atravessar uma fronteira
é, por vezes, uma aventura,
e eu fui aduaneiro
e controlava a fronteira,
não toda, apenas um dos seus lados,
porque o outro lado era controlado
por outro aduaneiro
que não estava do meu lado,
porque estava do seu lado

E assim é,
de um lado da fronteira está um aduaneiro,
do outro lado está outro aduaneiro,
mas afinal qual é o lado certo?
o direito, o esquerdo,
ou o que não está à vista?
"para mim, qualquer lado é o certo",
conclui o contrabandista

E eu fui aduaneiro
e nunca percebi as fronteiras,
do outro lado falam diferente,
têm mais dinheiro, têm mais gente,
têm outras maneiras,
mas no meu lado são estrangeiros
e eu no lado deles estrangeiro sou

E eu fui aduaneiro
e nunca percebi as fronteiras,
olhem os peixes, as aves,
os ratos, os cães vadios, as toupeiras,
andam sempre em viagem
e a cruzar fronteiras,
mas nunca mostram o passaporte,
nem a bagagem,
nem o seu meio de transporte

- Alguma coisa a declarar?
- Sim, eu, que sou uma coisa.
- Está bem, pode passar,
mas para a próxima vou desconfiar

E eu fui aduaneiro
e gostei,
gostei muito,
mas nunca percebi as fronteiras

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Chuva

Hoje está a chover,
está a chover e bem,
caem gotas de chuva,
gotas de água de beber
e de molhar quem
anda a apanhar a uva
já temperada,
já madura

Hoje está a chover
e o dom plúvio
não desarma,
provoca o dilúvio
e não deixa a Santa Clara
abrir o céu e mostrar
o que está por cima do plúvio,
a luz do sol a brilhar

Mas a chuva também aconchega,
e continua a chover,
desde que eu não molhe a cabeça
pode continuar a chover,
e continua a chover

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Um poema de ideias feitas

Um poema feito
de ideias feitas
não pode dizer nada de novo,
não pode dizer que um parapeito
deve ser parte de uma janela
sempre aberta para a rua,
um poema de ideias feitas
diz que essa janela é para estar fechada
e que só se vê através dela uma parede nua
quando está aberta

Um poema feito
de ideias feitas
não pode dizer "abram a janela
e vejam através dela
as maravilhas perfeitas,
o sol, a noite, a chuva, o homem,
e sintam o fulgor da primavera em flor
e o intenso aroma do pólen,
o intenso aroma do amor"

Um poema feito
de ideias feitas
diz apenas "fechem a janela
e quebrem-lhe o parapeito"

Um poema feito
de ideias feitas
não pode dizer nada de novo,
não pode explicar como pode um ovo
dar uma estrela,
só pode dizer "um ovo estrelado
sai de uma frigideira com óleo a ferver"

Um poema feito
de ideias feitas
só pode dizer que um ovo
não é redondo, é oval,
mas um ovo é fenomenal,
foi desenhado sem esquinas, sem arestas
para daí nascer uma vida,
para daí nascerem estrelas,
e um ovo estrelado
é estrelado, não por ser estrela,
mas porque não foi chocado
para dar uma estrela

Um poema feito de ideias feitas
não pode dizer que no mar
há versos imersos
que se vestem de claras em castelo
quando são dispersos
pelas ondas de espuma
e que são inspirados
por quem procura a poesia
na bruma,
na maresia

Um poema feito
de ideias feitas
só pode dizer que existe o mar
porque está lá,
ponto

E o poeta que não é livre
só pode escrever poemas de ideias feitas,
livrem-nos disso, livrem-nos disso,
e que ninguém tire
ou compre a imaginação dos poetas,
e que haja suspeitas
quando um poema inteiro
é  só feito de ideias feitas,
quem o escreveu pode estar prisioneiro

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Fui ver os aviões

O avião levanta voo contra o vento,
e aí vai o aviador e o avião
e ainda quem se aviou a tempo
de o apanhar a aviar no chão

E eu, ao vê-lo levantar, estarreço,
aquilo tudo no ar! não pode ser,
e foi apenas um jacto, um arremesso,
que o arremessou até desaparecer

E vejo outro avião a voar baixinho,
e aterra, e oscila, e vai parar,
e parou, parou suave e direitinho

Vejo aviões, mas assim não vou voar,
quero antes voar como um passarinho,
livre, a cantar e sem sinal de radar

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Não me mostrem mais sangue

A dor não tem cor,
é incolor a dor, mas a dor
dói, sufoca, e se a dor
não adormece,
mói, arde, é ardor,
enlouquece

A dor não tem cor,
mas tem o sangue
que é todo da mesma cor,
e quando jorra
não muda de cor,
seja o sangue da derrota,
o sangue do perdedor,
seja o sangue da vitória,
o sangue do herói,
mas ver sangue derramado dói,
dói muito, dói sempre,
mesmo se for sangue de herói,
porque o sangue tem cor,
é vermelho ardente

Por isso,
não me mostrem mais sangue
derramado por corpos caídos,
estropiados, desmembrados,
mortos, inválidos, vencidos,
não me mostrem mais sangue
derramado em vão,
definitivamente,
não quero ver mais o chão
molhado de vermelho ardente,
por favor, não me mostrem mais sangue
assim, derramado e ainda quente

sábado, 30 de agosto de 2014

Trinta e três anos

Estava tão longe daqui
quando chamaste por mim,
andava nas nuvens aluado
montado num atrelado
puxado por um arlequim

Estava tão longe daqui
quando me disseste
que ainda gostavas de mim,
que ainda não me perdeste
e que vai ser assim até ao fim

Estava tão longe daqui
quando me anunciaste
que estamos assim e aqui
há 33 anos neste cais
e que vai ser assim até ao fim

Estava tão longe daqui
quando chamaste por mim
e me recordaste tanta coisa,
e eu nem sequer me lembrei
de te oferecer uma rosa,
desculpa, sou assim

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O fim do mundo

Naquela manhã
as árvores da alameda
não davam sombra
e as pessoas caminhavam
e a sua própria sombra
também não aparecia,
e já fazia muito sol,
e ainda não era meio-dia,
e já ninguém aguentava o sol,
mas onde é que estaria
a sombra?
ninguém sabia

Começou o pânico,
não havia sombra,
nada fazia sombra ao sol,
e o sol aquecia, aquecia,
e ainda não era meio-dia,
e já estava tudo a ficar mole,
quase em papa,
mas onde é que estava
a sombra?
nem dentro de casa

E veio uma informação da NASA,
o Sol vai engolir a Terra,
dentro de dias, talvez semanas,
ninguém se safa

O Homem
começou a rezar aos seus deuses,
os animais, os outros, começaram a morrer
mais cedo,
as plantas começaram a secar e a arder,
os rios e os oceanos minguaram de sede,
o Sol começava a ficar mais perto,
meu Deus, é o fim do mundo,
deste mundo já quase deserto

Foi então que o Sol
enviou uma comunicação à Terra
que dizia
"ou o Homem acaba com a guerra,
ou eu acabo com o Homem"
e, mesmo com esta ameaça de morte certa,
o Homem só assinou acordos
temporários de cessar fogo
para se poderem contar os mortos,
para se poderem reconstruir as casas,
e o Homem anunciou ao Sol
que não haveria mais guerra na Terra,
que haveria paz, paz, paz, só paz,
mas o Sol não acreditou no Homem
e, zás-catrás,
engoliu a Terra

Bem feito!,
os terráqueos desapareceram,
bem feito!,
só estavam a estorvar,
disseram os habitantes de Marte
e da Europa,
(sim da Europa, uma das luas de Júpiter),
ao lerem o boletim meteorológico
daquele dia,
do dia em que o Sol engoliu a Terra

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Uma história

Os netinhos e as netinhas
estavam à volta do avô
a ouvir contos e adivinhas
enquanto a avó limpava o pó
da cantareira e das cantarinhas

Ó avô, conta-nos outra história,
queremos continuar a ouvir-te,
vá lá, ainda tens boa memória,
nós queremos saber mais de ti,
queremos ouvir a tua sabedoria

Era uma vez uma bruxa muito má
que tinha como sua única vizinha
uma fada muito boa, muito amada,
e que repartia tudo o que tinha
com quem batia à porta da sua casa

E um dia a bruxa muito má
bateu à porta da fada boa
e pediu-lhe torradas e chá
e queijo e presunto e broa,
e começou logo a praguejar

Ó Avô, não nos contes mais
histórias de bruxas e de fadas,
e de castelos com fantasmas,
e de donzelas sós e encantadas,
e de milagres e outras que tais

Ó Avô, conta-nos antes a história
dos senhores ricos e banqueiros,
já disseste que são a nossa escória,
que roubam os nossos mealheiros,
que gastam o nosso dinheiro lá fora

Era uma vez um Banco bom
e um Banco mau, criados na hora,
(e o Avô desmaiou e acabou
aqui esta história)