sexta-feira, 28 de março de 2014

O meu cabelo

Estou na onda dos Sikhs
e não vou cortar o meu cabelo,
mas já estou a ganhar uns tiques,
estou sempre a mirar-me ao espelho
e a ajeitar a trunfa
que felizmente ainda abunda,
mas como não quero esconder
o meu cabelo, como fazem os Sikhs,
vou tentar parecer como os hippies,
daqueles que vivem bem e não querem morrer

Mas pensando melhor,
vou mesmo ao barbeiro
e encomendar um corte
igual ao do Kim-Jong-un,
o Presidente da Coreia do Norte,
e serei mais um
a imitar esse grande e redondo dirigente
que parece ter saído dum filme de terror
em versão cartoon,
e vou gozar a minha reforma
numa qualquer estância balnear
da Coreia do Norte

quarta-feira, 26 de março de 2014

Vistos GOLD

Tenho um amigo, que não é de cá,
que quer um visto
para passar a ser de cá,
mas não é um visto qualquer,
o visto que ele quer
tem que ser de ouro maciço,
um visto GOLD,
alguém me arranja isso?

Um outro amigo meu,
que é cá dos nossos
e muito bem posicionado,
disse-me que arranjava o visto ao meu amigo
se ele trouxesse nos seus bolsos
muito papel, muita narta, el contado
(tás a topar, ou não, observou ele meio calado),
se assim é, está combinado,
dinheiro não falta ao meu amigo

O meu amigo entrou cá
e obteve logo o visto Gold,
fiquei muito contente,
voltou a dar a aura de outrora
à Rua do Benformoso,
ao Intendente,
e à encosta da Meia Laranja, ao Casal Ventoso,
e quer comprar o Tribunal da Boa Hora
para aí instalar um serviço altamente
eficaz, eficiente e resiliente
de residencial de luxo, para arrendar quartos à hora
com jacuzzi de água de nascente,
será um grande investimento
que cria postos de trabalho
e mais impostos para o orçamento
(estou a ficar baralhado,
querem ver que à custa de tanta austeridade
já percebo de economia)

Já agora, e não me levem a mal,
como a CPLP também dá vistos GOLD
(seja bem-vindo Sr. Presidente da Guiné Equatorial)
vou propor à União Europeia, a BOLD,
para conceder vistos GOLD
a quem conseguir atravessar a nado
o Mar Mediterrâneo,
e pode ser um visto em papel almaço,
ou em qualquer outro sucedâneo

terça-feira, 25 de março de 2014

As pombinhas do Papa

A pomba
é branquinha, é coitadinha,
até lhe chamamos pombinha,
o seu voo é suave
e não se defende
quando é atacada por outra ave
mais feroz, com mais dente

As pombinhas do Papa
foram lançadas por ele ao vento
como símbolos da paz e da amizade,
mas foram atacadas à vista de toda a gente
e reduzidas a nada
por uma gaivota e por um corvo,
que horror

Não sei se a gaivota
significa alguma coisa,
mas o corvo sim, é todo preto,
traz mau agoiro
e pode anunciar a morte,
mas sobre o corvo nada mais digo,
leiam o "o corvo" de Edgar Allan Poe

sexta-feira, 21 de março de 2014

O horizonte

Daqui, o horizonte
é esta vastidão de água salgada
onde o sol se apaga
ao deixar-se cair na água
no final de cada jornada
mesmo onde o horizonte acaba

Dacolá, o horizonte
é aquela vista de montes, vales
e povoados,
e do voo das aves,
umas vezes voos rápidos,
outras vezes voos planados,
mas sempre voos em liberdade

Porventura, o horizonte
não passa de uma miragem
que vai até onde a vista alcança,
mas não me tirem essa imagem,
não me tirem a esperança
de poder ir mais além
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Viva o dia mundial da poesia

quinta-feira, 20 de março de 2014

É Primavera

Árvores despidas
cobri-vos todas
de cores garridas,
de vistosas flores,
e com grandes bodas
festejai a era
pois é Primavera

Aves friorentas
cantai com genica
do medo isentas
a linda cantiga
desta primavera
tão jovial e amiga
que há muito se espera

Barulhento rio
desce suave o monte
e o outeiro esguio
e alimenta a fonte
e a trôpega nora,
lembra-te que agora
já é Primavera

E tu, lavrador,
que és meu irmão,
semeia o teu suor
para obteres o pão,
e exulta também,
mais do que ninguém,
que é Primavera
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Escrito na Perulheira, em 1970.
Feliz primavera de 2014 para todos,
em especial para os que já estão no Outono da vida

quarta-feira, 19 de março de 2014

Prescreveram

Acudam ao Gonçalves,
parece que se perdeu
no seu jardim
que não tem fim,
se calhar prescreveu,
coitado,
já não deve dar uma para a Caixa,
(daquela que nos paga o ordenado,
bem entendido),
lá tem ele que continuar de baixa,
a não ser que tenha prescrito,
de vez

Parece que o Oliveira 
também se perdeu
na encosta da Estrela,
se calhar também já prescreveu,
coitado,
será que ainda dá alguma para a Caixa?
ouvi dizer que sim,
deve ser com a ajuda
de muitas folhas de loureiro
e de pós de perlimpimpim
que usa para temperar
os seus fartos manjares de banqueiro,
(faisão, ouro em pó e caviar
não lhe devem faltar)

Já o Rendeiro
não deve ter prescrito,
ainda é muito novo para isso
e ainda pode dar muito para a Caixa
e levar no toutiço
até que se renda e pague o que deve,
pois a força não lhe deve faltar,
(parece que foi visto a escalar
uma montanha coberta de neve
e não tinha falta de ar)

Mas, mais dia menos dia,
estes três vão mesmo prescrever,
perdão, eles não,
mas as coimas deles que estão a arrefecer
no Banco que dizem que é de todos nós,
ou na Justiça que só é para alguns,
para os que têm dinheiro, para os que têm voz

terça-feira, 18 de março de 2014

A Senhora Sophia de Mello Breyner Andresen


Gosto de estar no cais quando chove,
a chuva transporta sabores
e odores
que, quando misturados com o mar,
transformam a atmosfera
num ambiente de caldo
que me faz flutuar ...

Talvez porque estes meus versos
também cheiram a maresia,
andam a dizer por aí
que são versos da Senhora Sophia
e não meus

Perguntem, pois, à Senhora Sophia,
que deve andar lá pelos céus,
se os meus versos de maresia
são versos seus e não meus

Perguntem-lhe também
se continua a sentir por lá, no além,
o som dos búzios e do mar
e digam-lhe que nós,
que ainda andamos por cá, no aquém,
sentimos muito a falta que nos faz
a Senhora Sophia de Mello Breyner Andresen

E que descanse em paz,
esteja ela no Panteão Nacional,
esteja ela a aguardar o dia do Juízo Final,
esteja ela nos braços de Morfeu,
e, sobretudo, que sejam glorificados
os seus versos de sal
e a língua em que os escreveu,
a língua de Portugal

domingo, 16 de março de 2014

A menina da trancinha

A menina da trancinha
toda feliz e colorida
foi com a sua cestinha
apanhar laranjas da Baía
ao laranjal da sua quinta

No chão do laranjal
jazia uma laranja doente
no meio das laranjas sãs
e estas pediram
à menina da trancinha
para não irem na sua cestinha
juntamente
com a laranja doente

E disseram ainda
à menina da trancinha
que a laranja doente
estava sempre a chorar
e a pedir para alguém a abraçar
e beijar

E a menina da trancinha
só levou na sua cestinha
as laranjas sãs e deixou
a laranja doente só e a sofrer,
que chorou, chorou, chorou,
até morrer

sábado, 15 de março de 2014

Quem é o Vitório Rei?

Ontem alguém me abordou
e perguntou
se eu conhecia o Vitório Rei,
eu respondi logo, não sei
quem é esse Vitório Rei

Mas sei,
o Vitório Rei
é meu amigo, quase íntimo,
e esta manhã vim visitá-lo
ao seu local de trabalho

Ele ficou tão feliz ao ver-me
que foi logo à pastelaria
comprar bolas de Berlim com creme
e "chaussons aux pommes",
porque estava com fome
e eu também

Enquanto ele vai aos bolos,
eu vou-vos dizer quem ele é
(ele não encerrou o computador):
é um poeta não fingidor,
ao contrário do outro,
diz sempre a verdade,
mesmo quando pretende mentir,
só está bem aonde não está,
como o outro, sempre a fugir,
por vezes desaparece-me,
vejo-o na rua e não me reconhece,
vai a pensar nas teias que o tempo tece,
é bonzinho,
mas tem os seus demónios,
por vezes convive com eles
e, então, passa-se dos neurónios,
só pensa no fim do mundo,
quer saber donde vimos, para aonde vamos,
mergulha no profundo
da alma e ninguém o atura,
tem medo da morte e é hipocondríaco,
enfim, não tem cura
(ele já chegou com os bolos,
ai se ele sabe que eu escrevi isto)

sexta-feira, 14 de março de 2014

Por uma saída limpa da "troika"

Quando a "troika" entrou
o hall de entrada estava limpo,
que nem um brinco,
agora que ela está de partida
dizem que o hall de saída
está sujo
e que cheira a carne frita
e a papas de sarrabulho

Eu também sou por uma saída limpa,
por isso acho que devem limpar
o hall de saída da "troika"
com esfregonas e aguarrás
e deixem-nos em paz

Mas eu preferia uma saída
ainda mais limpa
com pura lixívia, daquela que intoxica
e mata as bactérias
que enxameiam os talheres com que comemos,
os bancos onde nos depositamos,
os lençóis onde nos deitamos
e os lenços que enxaguam as lágrimas que vertemos
pelo que sofremos
porque os nossos salários
estão a ser comidos
pelos capitalistas usurários,
raios os partam a eles e à "troika"
e a quem os chamou,
que venha a "perestroika"