As seis caravelas
As notícias não se calaram,
anteontem atracaram
no Porto de Lisboa
seis caravelas,
ficaram todas juntinhas,
qual delas
a mais bela,
comentavam as varinas
Vinham cheias de gente gira,
de silhuetas espampanantes
e vaidosas,
Lisboa merece uma visita
nem que seja só por três horas,
dizia o seu alcaide
Por isso,
acabou-se a ginjinha no Rossio,
a tasca do Petisco
esgotou o creme de cenouras
e teve que repor as empadas de galinha,
a loja do Evaristo
vendeu todas as vassouras,
a palha de aço e a farinha,
a loja da Tatão
ficou sem os tecidos de seda
e de organdi e não deu vazão
a tanto pedido,
o Grandela
não aguentou a confusão
e teve que encerrar a cancela
antes da hora,
a loja de música da Rua do Carmo
vendeu todos os discos de folclore
e de fado,
o balcão dos pastéis de Belém
rebentou pelas costuras
e nas ruas da Prata, do Ouro e Augusta
não cabia mais ninguém,
mas, pelo que ouço,
ninguém perguntou quanto custa
a nossa prata e o nosso ouro
E ao cair do dia
foram-se embora as caravelas
e a sua gente gira,
Lisboa ficou a vê-las
a descer o Tejo,
e ficou mais triste o entardecer
porque se foram embora as caravelas
E fizeram-se as contas
e as notícias disseram depois
que a gente gira
não era assim tão rica,
não gastaram milhões,
como estava previsto,
mas só quinhentos,
paciência, digo eu,
somos mesmo maus
a fazer orçamentos
sexta-feira, 9 de maio de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
Gostava
Gostava de gostar um pouco
mais de ti,
gostava de gostar um pouco
mais de mim,
gostava de ser menos louco
quando estou fora de mim
e de ti
Gostava de ser mais um pouco
quando perguntam por mim,
gostava de viver mais um pouco
e menos louco,
porque ainda perguntam por mim
e porque assim o fim
já não está por pouco,
por um fio,
e vou ser até ao fim
assim,
um pouco menos louco
porque ainda perguntam por mim
Gostava de gostar um pouco
mais de ti,
gostava de gostar um pouco
mais de mim,
gostava de ser menos louco
quando estou fora de mim
e de ti
Gostava de ser mais um pouco
quando perguntam por mim,
gostava de viver mais um pouco
e menos louco,
porque ainda perguntam por mim
e porque assim o fim
já não está por pouco,
por um fio,
e vou ser até ao fim
assim,
um pouco menos louco
porque ainda perguntam por mim
sábado, 3 de maio de 2014
A roda do tempo
A vida é esta energia
que transporta a nossa existência,
faz-nos avançar no tempo,
sempre à mesma cadência,
sempre em frente,
não volta atrás,
e nesta corrente
embarca toda a gente,
ninguém fica para trás,
e só vão mais à frente
os que vêm mais de trás
Com essa mesma energia,
caminhamos na dimensão do espaço,
uns com vagar, outros mais apressados,
mas ninguém, mesmo ninguém,
consegue mexer na roda do tempo,
e ainda bem
Porque se não fosse assim,
os que podem comprar energia
para poderem andar mais depressa no espaço,
poderiam também comprar energia
para poderem mexer na roda do tempo,
adaptando-a aos humores do seu cansaço,
ora atrasando-a, ora adiantando-a, ora parando-a,
como se o tempo fosse um compasso,
ou uma tômbola, ou uma girândola,
e assim o tempo poderia ser comprado,
como se compra o espaço
Continuem, pois, os apressados
a andar com pressa no espaço,
que corram, que lutem, que se esfolem,
que passem por cima, que passem ao lado,
que passem por baixo,
que utilizem a violência, que sejam velozes,
que enriqueçam, que roubem o que lhes apetece,
que gastem mais depressa a energia da existência,
mas na roda do tempo ninguém mexe,
seja pobre, seja rico, seja dono de um harém,
e ainda bem
A vida é esta energia
que transporta a nossa existência,
faz-nos avançar no tempo,
sempre à mesma cadência,
sempre em frente,
não volta atrás,
e nesta corrente
embarca toda a gente,
ninguém fica para trás,
e só vão mais à frente
os que vêm mais de trás
Com essa mesma energia,
caminhamos na dimensão do espaço,
uns com vagar, outros mais apressados,
mas ninguém, mesmo ninguém,
consegue mexer na roda do tempo,
e ainda bem
Porque se não fosse assim,
os que podem comprar energia
para poderem andar mais depressa no espaço,
poderiam também comprar energia
para poderem mexer na roda do tempo,
adaptando-a aos humores do seu cansaço,
ora atrasando-a, ora adiantando-a, ora parando-a,
como se o tempo fosse um compasso,
ou uma tômbola, ou uma girândola,
e assim o tempo poderia ser comprado,
como se compra o espaço
Continuem, pois, os apressados
a andar com pressa no espaço,
que corram, que lutem, que se esfolem,
que passem por cima, que passem ao lado,
que passem por baixo,
que utilizem a violência, que sejam velozes,
que enriqueçam, que roubem o que lhes apetece,
que gastem mais depressa a energia da existência,
mas na roda do tempo ninguém mexe,
seja pobre, seja rico, seja dono de um harém,
e ainda bem
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Dia do Trabalhador
Varre a rua ó varredor,
varre, varre sem parar,
varre o lixo e a tua dor,
varre o pó do meu olhar
Varre a rua ó varredor,
deixa a calçada a brilhar,
varre o sujo e o bolor,
varre, varre sem parar
Mas hoje, ó varredor
não tens que varrer a rua,
é Dia do Trabalhador,
celebra a festa que é tua
Desce à mina, ó mineiro,
leva o cantil e o farnel,
ficas lá o dia inteiro,
mas não deixes lá a pele
Mas hoje não vás à mina,
fica com o teu amor,
não ligues a quem te mina,
é Dia do Trabalhador
Trabalha ó operário
na forja ou na fábrica,
luta pelo teu salário,
luta pela tua vida
Mas hoje, ó operário,
não vás para o teu labor,
é dia do proletário,
é Dia do Trabalhador
Camponeses ou doutores,
mineiros ou operários,
escrivães ou pescadores,
todos os assalariados
Vamos todos festejar
o dia do trabalhador,
exigir justo salário
por uma vida melhor
Vamos também recordar
com gratidão e com dor
os que caíram a lutar
pelo bem do trabalhador
-----------------------------------
Viva o Primeiro de Maio,
viva o Dia do Trabalhador
Varre a rua ó varredor,
varre, varre sem parar,
varre o lixo e a tua dor,
varre o pó do meu olhar
Varre a rua ó varredor,
deixa a calçada a brilhar,
varre o sujo e o bolor,
varre, varre sem parar
Mas hoje, ó varredor
não tens que varrer a rua,
é Dia do Trabalhador,
celebra a festa que é tua
Desce à mina, ó mineiro,
leva o cantil e o farnel,
ficas lá o dia inteiro,
mas não deixes lá a pele
Mas hoje não vás à mina,
fica com o teu amor,
não ligues a quem te mina,
é Dia do Trabalhador
Trabalha ó operário
na forja ou na fábrica,
luta pelo teu salário,
luta pela tua vida
Mas hoje, ó operário,
não vás para o teu labor,
é dia do proletário,
é Dia do Trabalhador
Camponeses ou doutores,
mineiros ou operários,
escrivães ou pescadores,
todos os assalariados
Vamos todos festejar
o dia do trabalhador,
exigir justo salário
por uma vida melhor
Vamos também recordar
com gratidão e com dor
os que caíram a lutar
pelo bem do trabalhador
-----------------------------------
Viva o Primeiro de Maio,
viva o Dia do Trabalhador
terça-feira, 29 de abril de 2014
Preto no branco
Eu tenho um amigo que é racista,
esperem, ele não defende os arianos puros,
aqueles branquinhos sardentos de olho azul,
até porque ele tem a pele e a vista
da cor dos caucasianos escuros,
daqueles que nascem na Europa do Sul
que são quase da cor dos africanos
que nascem na África do Norte
O que o meu amigo diz
é que não suporta
tanto africano a viver na Europa
- pois eles não são... como se diz...
brancos, como nós; são pretos,
pronto, já disse, são pretos,
cheiram muito a catinga
e devem ficar na terra deles -
Eu tenho um outro amigo
que também é racista
e não gosta que os brancos
vivam na terra dele em África,
diz que cheiram a alpista
e que comem os frangos
sem cachupa ou moamba
Eu explico aos dois que a cor da nossa pele
resulta de um processo de pigmentação
que nos defende do meio ambiente hostil
e que por dentro temos o mesmo coração,
as mesmas células, o mesmo sangue cor de rubi
E digo-lhes também que se os africanos
invadirem agora a Europa
têm o direito de fazer aos brancos
o mesmo que estes lhes fizeram outrora,
há cerca de quatrocentos anos
(os africanos foram conduzidos ao som do tambor
para navios de carga, onde foram embarcados
como carga geral com destino à América,
nem sequer tinham espaço para chorar, para aliviar a dor,
eram apenas escravos contados à tonelada,
sem terem direito, pelo menos, a uma expressão numérica)
Mas não se vai repetir a História,
e por uma simples razão:
os brancos europeus já não se dedicam à sua reprodução
e, pelo andar da carruagem, daqui a quatrocentos anos
serão uma minoria, ou estarão mesmo em vias de extinção
E descansem que eu não descubro
mais amigos para esta história,
poderia arranjar um amarelo, um rubro,
um rosa albino ou um feito de mixórdia,
mas não, fico-me apenas por um preto e um branco,
assim mesmo, preto no branco
Eu tenho um amigo que é racista,
esperem, ele não defende os arianos puros,
aqueles branquinhos sardentos de olho azul,
até porque ele tem a pele e a vista
da cor dos caucasianos escuros,
daqueles que nascem na Europa do Sul
que são quase da cor dos africanos
que nascem na África do Norte
O que o meu amigo diz
é que não suporta
tanto africano a viver na Europa
- pois eles não são... como se diz...
brancos, como nós; são pretos,
pronto, já disse, são pretos,
cheiram muito a catinga
e devem ficar na terra deles -
Eu tenho um outro amigo
que também é racista
e não gosta que os brancos
vivam na terra dele em África,
diz que cheiram a alpista
e que comem os frangos
sem cachupa ou moamba
Eu explico aos dois que a cor da nossa pele
resulta de um processo de pigmentação
que nos defende do meio ambiente hostil
e que por dentro temos o mesmo coração,
as mesmas células, o mesmo sangue cor de rubi
E digo-lhes também que se os africanos
invadirem agora a Europa
têm o direito de fazer aos brancos
o mesmo que estes lhes fizeram outrora,
há cerca de quatrocentos anos
(os africanos foram conduzidos ao som do tambor
para navios de carga, onde foram embarcados
como carga geral com destino à América,
nem sequer tinham espaço para chorar, para aliviar a dor,
eram apenas escravos contados à tonelada,
sem terem direito, pelo menos, a uma expressão numérica)
Mas não se vai repetir a História,
e por uma simples razão:
os brancos europeus já não se dedicam à sua reprodução
e, pelo andar da carruagem, daqui a quatrocentos anos
serão uma minoria, ou estarão mesmo em vias de extinção
E descansem que eu não descubro
mais amigos para esta história,
poderia arranjar um amarelo, um rubro,
um rosa albino ou um feito de mixórdia,
mas não, fico-me apenas por um preto e um branco,
assim mesmo, preto no branco
sexta-feira, 25 de abril de 2014
A minha alvorada
Há precisamente quarenta anos,
morava em Lisboa, na Avenida João Crisóstomo,
num quarto com vista para o Quartel-General,
cama, mesa e roupa lavada, tudo óptimo,
uma casa de banho para catorze,
onde é que está o mal?
No meu quarto dormiam mais dois,
e mesmo que eu me metesse todo
debaixo dos meus lençóis,
quase não conseguia dormir,
porque um deles passava a noite toda
de luz acesa a ler livros de cowboys
e a roer grossas maçãs de engorda
Na dita madrugada
acordei com a dona da casa a gritar
- eles querem a guerra, mas Deus não a quer -
(era Testemunha de Jeová)
e quando espreitei pela janela do meu quarto
vislumbrei vários carros de combate,
uns de rastos de pneus e outros de lagarta,
e eu, que simpatizava
com a Resistência Popular Anti-Colonial,
pensei logo que a guerra colonial
tinha alastrado à Metrópole
e que ia ser já mobilizado, não para Angola,
mas para atacar o Quartel-General,
e o que se passou a seguir já não é desta história,
porque já é História
--------------------------
Viva o 25 de Abril
Há precisamente quarenta anos,
morava em Lisboa, na Avenida João Crisóstomo,
num quarto com vista para o Quartel-General,
cama, mesa e roupa lavada, tudo óptimo,
uma casa de banho para catorze,
onde é que está o mal?
No meu quarto dormiam mais dois,
e mesmo que eu me metesse todo
debaixo dos meus lençóis,
quase não conseguia dormir,
porque um deles passava a noite toda
de luz acesa a ler livros de cowboys
e a roer grossas maçãs de engorda
Na dita madrugada
acordei com a dona da casa a gritar
- eles querem a guerra, mas Deus não a quer -
(era Testemunha de Jeová)
e quando espreitei pela janela do meu quarto
vislumbrei vários carros de combate,
uns de rastos de pneus e outros de lagarta,
e eu, que simpatizava
com a Resistência Popular Anti-Colonial,
pensei logo que a guerra colonial
tinha alastrado à Metrópole
e que ia ser já mobilizado, não para Angola,
mas para atacar o Quartel-General,
e o que se passou a seguir já não é desta história,
porque já é História
--------------------------
Viva o 25 de Abril
quinta-feira, 24 de abril de 2014
O Barroso, o Durão, outra vez, não
Eh pá não voltes, o Zé já não te quer,
fica onde estás, que te aturem por aí,
fica no PE ou na REPER,
ou então descobre um novo PI,
dá conferências como fazem
o Bush júnior, o Blair, ou o Aznar,
os teus amigos a quem serviste café
(eles estavam sentados vestidos de fraque
a planear a invasão do Iraque,
e tu de avental e de pé
para lhes servires o café,
apenas para isso,
como um tuga submisso
a quem é mais importante,
foi tão tão humilhante)
Eh pá não voltes, ou se voltares fica calado,
a gente não se esquece que já tinhas tudo embalado
para ires para a Bruxelas Capital,
quando negavas a pé juntos
que não ias abandonar o Governo de Portugal
E foste, sabemos que foste,
e deixaste-nos entregues ao teu amigo
do tempo da FD de Lisboa,
o tal do MID, quando tu eras o tal da FEM-L,
mas que acabaram os dois por se converterem
ao PPD e ao ideal da social democracia,
que virou liberalismo tipo Milton Friedman,
que virou azia
E o que é que o teu amigo fez no Governo?
Fez o que esperavas,
só borradas,
e assim o convenceste que, afinal,
ele não era melhor que tu,
e com isso comprometeste Portugal
E o que é que tu fizeste
na CE por Portugal?
Nada que não tenhas feito
pelos outros EM, bem ou mal,
e se fizesses algo de especial
a Portugal,
tinhas logo que o desfazer,
ou eras demitido de Presidente da CE
por violação do dever de ...
(óóó ... esqueci-me do nome desse dever)
Eh pá não voltes, o Zé já não te quer,
fica onde estás, que te aturem por aí,
fica no PE ou na REPER,
ou então descobre um novo PI,
dá conferências como fazem
o Bush júnior, o Blair, ou o Aznar,
os teus amigos a quem serviste café
(eles estavam sentados vestidos de fraque
a planear a invasão do Iraque,
e tu de avental e de pé
para lhes servires o café,
apenas para isso,
como um tuga submisso
a quem é mais importante,
foi tão tão humilhante)
Eh pá não voltes, ou se voltares fica calado,
a gente não se esquece que já tinhas tudo embalado
para ires para a Bruxelas Capital,
quando negavas a pé juntos
que não ias abandonar o Governo de Portugal
E foste, sabemos que foste,
e deixaste-nos entregues ao teu amigo
do tempo da FD de Lisboa,
o tal do MID, quando tu eras o tal da FEM-L,
mas que acabaram os dois por se converterem
ao PPD e ao ideal da social democracia,
que virou liberalismo tipo Milton Friedman,
que virou azia
E o que é que o teu amigo fez no Governo?
Fez o que esperavas,
só borradas,
e assim o convenceste que, afinal,
ele não era melhor que tu,
e com isso comprometeste Portugal
E o que é que tu fizeste
na CE por Portugal?
Nada que não tenhas feito
pelos outros EM, bem ou mal,
e se fizesses algo de especial
a Portugal,
tinhas logo que o desfazer,
ou eras demitido de Presidente da CE
por violação do dever de ...
(óóó ... esqueci-me do nome desse dever)
terça-feira, 22 de abril de 2014
Eles dormem de noite na calçada
Digam-me, se souberem,
por que razão se chama noite
àquela parte do dia
em que o sol se esconde
lá para os lados do poente
e ficamos sem o seu brilho
Mas ainda bem que a noite escura
nem sempre dura,
porque o dia volta de novo
quando o sol se levanta pleno de vigor
e espalha os seus raios de luz e de calor,
iluminando e aquecendo a parte do dia
que não se chama noite
E então vivemos mais um dia
em reboliço, com azáfama,
até que o sol volte a partir
e apague a sua chama
para que não se saiba onde vai dormir
E volta a noite
e outra vez a escuridão,
e ouvem-se vozes desencontradas
de corpos vazios cheios de solidão
que encontram sonhos nas calçadas
e que têm trapos de cartão como lençol,
dormem assim, no chão, enroscados
e quando amanhece já estão acordados,
o seu despertador foi a luz do sol
Eles dormem de noite na calçada,
na calçada é mais fácil dormir de noite,
se dormirem aí de dia, correm mais perigo
de ficar sem o seu cantinho, sem o seu abrigo,
porque nos choca mais olhar em plena luz do dia
para o seu corpo assim deitado e embrulhado,
porque é uma imagem mais nítida da miséria
e que denuncia, sem rodeios, a nossa hipocrisia
enquanto membros de uma sociedade dita solidária,
por isso eles preferem dormir de noite na calçada,
porque escondem melhor o seu corpo, o seu olhar,
a sua aflição, a sua desgraça
Mas eles aguentam, eles sobrevivem,
eles não se queixam,
talvez porque a noite os ajuda
a transformarem-se em vultos,
em fantasmas, em sombras da lua,
em intocáveis, em impolutos,
em imateriais, em nadas,
talvez porque sonham que têm asas
e que levantam voo para um vazio
cheio de conforto, cheio de paz,
e enquanto sonham não sentem o frio,
a chuva, ou as dores das ressacas,
será que eles não têm medo de acordar?
Digam-me, se souberem,
por que razão se chama noite
àquela parte do dia
em que o sol se esconde
lá para os lados do poente
e ficamos sem o seu brilho
Mas ainda bem que a noite escura
nem sempre dura,
porque o dia volta de novo
quando o sol se levanta pleno de vigor
e espalha os seus raios de luz e de calor,
iluminando e aquecendo a parte do dia
que não se chama noite
E então vivemos mais um dia
em reboliço, com azáfama,
até que o sol volte a partir
e apague a sua chama
para que não se saiba onde vai dormir
E volta a noite
e outra vez a escuridão,
e ouvem-se vozes desencontradas
de corpos vazios cheios de solidão
que encontram sonhos nas calçadas
e que têm trapos de cartão como lençol,
dormem assim, no chão, enroscados
e quando amanhece já estão acordados,
o seu despertador foi a luz do sol
Eles dormem de noite na calçada,
na calçada é mais fácil dormir de noite,
se dormirem aí de dia, correm mais perigo
de ficar sem o seu cantinho, sem o seu abrigo,
porque nos choca mais olhar em plena luz do dia
para o seu corpo assim deitado e embrulhado,
porque é uma imagem mais nítida da miséria
e que denuncia, sem rodeios, a nossa hipocrisia
enquanto membros de uma sociedade dita solidária,
por isso eles preferem dormir de noite na calçada,
porque escondem melhor o seu corpo, o seu olhar,
a sua aflição, a sua desgraça
Mas eles aguentam, eles sobrevivem,
eles não se queixam,
talvez porque a noite os ajuda
a transformarem-se em vultos,
em fantasmas, em sombras da lua,
em intocáveis, em impolutos,
em imateriais, em nadas,
talvez porque sonham que têm asas
e que levantam voo para um vazio
cheio de conforto, cheio de paz,
e enquanto sonham não sentem o frio,
a chuva, ou as dores das ressacas,
será que eles não têm medo de acordar?
domingo, 20 de abril de 2014
A Igreja
Envolvida de brancura,
caixinha pequena,
pedaço de ouro,
hóstia pura,
imagem serena
Paredes rústicas,
vitrais românticos,
torres imóveis,
ouvem-se cânticos
entoados por jovens
Assembleia viva,
o Senhor é louvado,
Igreja activa,
ressuscitou Jesus,
povo saciado
Almas caridosas,
pobres socorridos,
pessoas com fé
e muito piedosas,
viva Jesus de Nazaré
-------------------------------
Escrito na Perulheira, em 1971 (tenho saudades da minha fase mística)
Páscoa feliz para todos
Envolvida de brancura,
caixinha pequena,
pedaço de ouro,
hóstia pura,
imagem serena
Paredes rústicas,
vitrais românticos,
torres imóveis,
ouvem-se cânticos
entoados por jovens
Assembleia viva,
o Senhor é louvado,
Igreja activa,
ressuscitou Jesus,
povo saciado
Almas caridosas,
pobres socorridos,
pessoas com fé
e muito piedosas,
viva Jesus de Nazaré
-------------------------------
Escrito na Perulheira, em 1971 (tenho saudades da minha fase mística)
Páscoa feliz para todos
sábado, 19 de abril de 2014
A pulseira do Lima
Sempre quis ter uma pulseira
de ouro puro, bem grossa, bem pesada,
sempre a luzir a sua cor dourada,
seria uma rica braçadeira
Mas nunca tive uma pulseira,
nem de ouro, nem de lata,
nem sequer uma coleira
feita de restos de sucata
Agora andam a oferecer
pulseiras electrónicas
feitas de aço a ferver
que emitem ondas ultra-sónicas
O Lima tinha uma dessas
(mas que inveja a minha)
que emitia os sons das suas preces
quando orava à sua santinha
E com tanta choradeira
- sou inocente, não roubei dinheiro,
não matei a Rosalina Ribeiro -
tiraram ao Lima a sua pulseira
Coitado, ficou sem uma pulseira,
mas não não tenham dó dele,
do Lima, o Duarte,
ele tem mais pulseiras
e obras de arte
e jóias milionárias
e propriedades
e outras riquezas várias
E mais palavras para quê,
é mais um rico político português
do grupo cavaquístico
que teve muita sorte nos negócios que fez,
e, para além disso,
também não faria muito sucesso
cumprimentar o seu xeique
com uma humilde pulseira de pechisbeque
Sempre quis ter uma pulseira
de ouro puro, bem grossa, bem pesada,
sempre a luzir a sua cor dourada,
seria uma rica braçadeira
Mas nunca tive uma pulseira,
nem de ouro, nem de lata,
nem sequer uma coleira
feita de restos de sucata
Agora andam a oferecer
pulseiras electrónicas
feitas de aço a ferver
que emitem ondas ultra-sónicas
O Lima tinha uma dessas
(mas que inveja a minha)
que emitia os sons das suas preces
quando orava à sua santinha
E com tanta choradeira
- sou inocente, não roubei dinheiro,
não matei a Rosalina Ribeiro -
tiraram ao Lima a sua pulseira
Coitado, ficou sem uma pulseira,
mas não não tenham dó dele,
do Lima, o Duarte,
ele tem mais pulseiras
e obras de arte
e jóias milionárias
e propriedades
e outras riquezas várias
E mais palavras para quê,
é mais um rico político português
do grupo cavaquístico
que teve muita sorte nos negócios que fez,
e, para além disso,
também não faria muito sucesso
cumprimentar o seu xeique
com uma humilde pulseira de pechisbeque
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