O açúcar
O açúcar é doce e adoça,
e é tão bom o açúcar,
uma madalena, um queque, uma torta,
um jesuíta, um bolo de arroz, um folar,
um bom-bocado, uma tíbia, um caracol,
um pastel de nata, de feijão, de Tentúgal,
uma trouxa, um travesseiro, um ovo mole,
ai esta doçaria de Portugal,
e um bolo-rei, e um bolo-rainha,
e engole, e engole, e engole,
e sabe tão bem esta fatiazinha
de entremeio de ananás,
e sabe tão bem esta vianinha
barrada com compotas
de morango e de maracujá,
ai que sabe tão bem, ó vizinha,
e engordo, e engordas,
e engordamos a comer açúcar,
e ai a diabetes e as aortas
cheias de colesterol e de âmbar
e as tromboses e as enxaquecas
e a tensão alta e o mal-estar
e a corrida às panquecas
sem açúcar, só com erva-doce
e canela, e aos chás de cidreira
e de tília e de camomila,
mas agora venha uma barriga-de-freira
e um papo de anjo e um arroz-doce
e um leite-creme, e um suspiro,
ai que bom este açúcar com claras,
e venha também uma vichyssoise
para desenjoar,
e depois um palmier, e um duchaise
a transbordar de chantilly,
e um pão-de-ló e um pudim
na forma de alumínio,
e uma bavaroise de ananás,
e quase não sobra nada para mim,
e um doce de natas com palitos la reine,
e um molotov e umas farófias,
e filhoses e sonhos e coscorões
e rabanadas e bilharacos e tigeladas,
e tudo para enfardar aos encontrões,
e não te encolhas, e não te encolhas,
e, para terminar, um mil-folhas
e depois bebam muito chá de funcho,
ou de hortelã,
e respirem fundo, e respirem fundo,
senão ainda acordam com a cama
recheada de Encharcada do Convento
de Santa Clara,
mas não desistam, o açúcar é tão doce
e combina tão bem com tudo, com o quente,
com o frio, até com o agridoce,
ai é tão bom o açúcar, o mascavado bruto,
o refinado branco, granulado ou em pó,
e também o xarope para a tosse,
e o açúcar é tão bom e combina tão bem
com tudo, até com o champanhe,
com o cacau e com o conhaque,
e a tombar, e a cambalear,
lá vamos para a cama
dormir, talvez sonhar
Esperem,
não adormeçam já,
quero que fiquem ainda a saber
que, por causa do açúcar,
deste açúcar tão doce,
deste açúcar tão bom,
fiquei furioso, amargo,
pior que estragado,
quando me disseram
que quem corta e apanha
a cana,
a cana que dá o açúcar,
vive num barraco,
e é quase escravo,
ganha menos que um chavo,
e ainda paga a renda do barraco
à patroa,
que é rica, muito rica,
merda,
isto tem mesmo que ser assim?
merda,
revoltem-se ó escravos,
não sejam parvos,
matem a patroa,
dêem-lhe com força com a podoa
e vendam vocês a cana e o seu suco,
o suco do açúcar bruto
que me é servido refinado e branqueado
Pronto, já disse tudo,
podem adormecer
Boas festas
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
O som do tambor
Por favor,
não toquem mais nesse tambor,
já chega de som abafado,
já chega de dor,
e a marcha continua lenta
ao ritmo do tambor,
em silêncio, sem cor,
marcha lenta, não tem pressa
de chegar ao fim este cortejo
engalanado de cruzes e de rosas
desmaiadas em forma de coroas
e vem-me um desejo, um forte desejo
de colorir as rosas
e de começar a dançar e a cantar,
em vez de rezar
Não, não toquem mais nesse tambor
que dá a cadência da decadência,
do crepúsculo, do fim,
não, não toquem mais nesse tambor
com sons do pôr-do-sol
neste final do caminho
Não, não toquem mais nesse tambor,
quero ouvir um som mais alegre,
um som mais ritmado, que atenue a dor,
ouviste, ou não, ó tocador do tambor?,
mas onde estás tu? desapareceste?
O quê? ninguém tocou o tambor
neste cortejo!
mas de onde veio o som
que eu vim a ouvir e que agora
não ouço, nem vejo?
"já não estás bom",
diz-me uma voz real e acolhedora
Por favor,
não toquem mais nesse tambor,
já chega de som abafado,
já chega de dor,
e a marcha continua lenta
ao ritmo do tambor,
em silêncio, sem cor,
marcha lenta, não tem pressa
de chegar ao fim este cortejo
engalanado de cruzes e de rosas
desmaiadas em forma de coroas
e vem-me um desejo, um forte desejo
de colorir as rosas
e de começar a dançar e a cantar,
em vez de rezar
Não, não toquem mais nesse tambor
que dá a cadência da decadência,
do crepúsculo, do fim,
não, não toquem mais nesse tambor
com sons do pôr-do-sol
neste final do caminho
Não, não toquem mais nesse tambor,
quero ouvir um som mais alegre,
um som mais ritmado, que atenue a dor,
ouviste, ou não, ó tocador do tambor?,
mas onde estás tu? desapareceste?
O quê? ninguém tocou o tambor
neste cortejo!
mas de onde veio o som
que eu vim a ouvir e que agora
não ouço, nem vejo?
"já não estás bom",
diz-me uma voz real e acolhedora
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
Auto-retrato
Não quero que se saiba
nem que se divulgue,
mas eu tenho uma papada
que me põe com uma cara
de bonacheirão quase rude,
só me falta a cabeça rapada
para parecer um almude
oco, sem nada
Papada mole
logo por baixo do queixo,
parece um fole,
e, por isso, sou feio,
mas não só por isso,
também não se nota
o meu pescoço
e sou de pouca altura
e um pouco grosso,
sim, pareço uma escultura
saída do período barroco
Contudo,
o pior é a minha papada,
e já fiz quase tudo
para a tirar, mas desisti,
e porque também sou peludo
não me apetece ficar pelado
para ir ao bisturi
Por isso,
vou deixar ficar a minha papada,
mesmo que pareça um ouriço,
quero-a apenas lapidada,
como um diamante,
quero-a a brilhar,
polida e flamejante,
e quem por mim passar
vai, decerto, exclamar
"mas que senhor elegante
ali vai"
Não quero que se saiba
nem que se divulgue,
mas eu tenho uma papada
que me põe com uma cara
de bonacheirão quase rude,
só me falta a cabeça rapada
para parecer um almude
oco, sem nada
Papada mole
logo por baixo do queixo,
parece um fole,
e, por isso, sou feio,
mas não só por isso,
também não se nota
o meu pescoço
e sou de pouca altura
e um pouco grosso,
sim, pareço uma escultura
saída do período barroco
Contudo,
o pior é a minha papada,
e já fiz quase tudo
para a tirar, mas desisti,
e porque também sou peludo
não me apetece ficar pelado
para ir ao bisturi
Por isso,
vou deixar ficar a minha papada,
mesmo que pareça um ouriço,
quero-a apenas lapidada,
como um diamante,
quero-a a brilhar,
polida e flamejante,
e quem por mim passar
vai, decerto, exclamar
"mas que senhor elegante
ali vai"
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Diga-me quem souber
Diga-me quem souber
aonde irei ter
quando sentir que o chão
me está a fugir,
quando já não ouvir
o meu arfar, o meu coração,
quando escorregar para o abismo
do fim,
quando me enfiarem no buraco
do destino
Porventura,
ouvirei uma voz seca e cavernosa
a ordenar-me com cínica doçura
"vem, vou levar-te nesta carroça,
fica quieto, a viagem será curta"
Porventura,
voarei nas asas de um querubim
depois de passar pela sepultura
apenas para tirar o bilhete de ida
para uma viagem celeste sem fim
Porventura,
serei separado em dois,
um ficará a chamejar,
o outro aguardará o depois,
o que vier a reencarnar
Porventura,
algo fará parar o meu coração
e nada a fazer, não tem cura,
e depois nada, e depois nada,
apenas um corpo, um corpo vão
Porventura... Porventura...
não, não adianto mais hipóteses,
não, não me consumo mais,
mas se alguém souber,
por favor, diga-me,
mas não me consumo mais
Diga-me quem souber
aonde irei ter
quando sentir que o chão
me está a fugir,
quando já não ouvir
o meu arfar, o meu coração,
quando escorregar para o abismo
do fim,
quando me enfiarem no buraco
do destino
Porventura,
ouvirei uma voz seca e cavernosa
a ordenar-me com cínica doçura
"vem, vou levar-te nesta carroça,
fica quieto, a viagem será curta"
Porventura,
voarei nas asas de um querubim
depois de passar pela sepultura
apenas para tirar o bilhete de ida
para uma viagem celeste sem fim
Porventura,
serei separado em dois,
um ficará a chamejar,
o outro aguardará o depois,
o que vier a reencarnar
Porventura,
algo fará parar o meu coração
e nada a fazer, não tem cura,
e depois nada, e depois nada,
apenas um corpo, um corpo vão
Porventura... Porventura...
não, não adianto mais hipóteses,
não, não me consumo mais,
mas se alguém souber,
por favor, diga-me,
mas não me consumo mais
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Os moinhos de vento que não são de pedra
Os moinhos rodam e rodam
no alto dos montes,
rodam e rodam com a força
do vento a soprar,
mas estes moinhos não são de pedra,
nem têm pequenas janelas
nem mós a rodar, a rodar
e a esmagar o cereal da terra,
transformando-o em farinha e farelos
Sim,
estes moinhos são moinhos de vento,
mas não têm velas de pano
desfraldadas ao vento,
as velas destes moinhos são pás de aço,
de aço fino e leve, e giram e giram,
e são de tanto comprimento
que se não saíssem do transferidor e do compasso
nunca se mexeriam com a força do vento
Sim,
estes moinhos são moinhos de vento,
e também produzem energia,
não a que resulta da farinha alimento,
mas a que resulta das turbinas em movimento,
energia limpa, ainda bem
Mas estes moinhos de vento
não são como os meus velhos moinhos
redondos e de pedra com as velas
desfraldadas ao vento
e com o moleiro atento aos sons miudinhos
dos búzios a assobiarem e a anunciarem
a intensidade do vento
Sim,
são moinhos de vento modernos
que produzem energia limpa,
ainda bem que os temos,
mas não são os meus moinhos de vento,
não, com esta envergadura
não são os meus moinhos de vento,
chamem-lhes antes ventoinhas gigantes,
como reagiria a elas o Cavaleiro da Triste Figura
de Miguel de Cervantes?
Os moinhos rodam e rodam
no alto dos montes,
rodam e rodam com a força
do vento a soprar,
mas estes moinhos não são de pedra,
nem têm pequenas janelas
nem mós a rodar, a rodar
e a esmagar o cereal da terra,
transformando-o em farinha e farelos
Sim,
estes moinhos são moinhos de vento,
mas não têm velas de pano
desfraldadas ao vento,
as velas destes moinhos são pás de aço,
de aço fino e leve, e giram e giram,
e são de tanto comprimento
que se não saíssem do transferidor e do compasso
nunca se mexeriam com a força do vento
Sim,
estes moinhos são moinhos de vento,
e também produzem energia,
não a que resulta da farinha alimento,
mas a que resulta das turbinas em movimento,
energia limpa, ainda bem
Mas estes moinhos de vento
não são como os meus velhos moinhos
redondos e de pedra com as velas
desfraldadas ao vento
e com o moleiro atento aos sons miudinhos
dos búzios a assobiarem e a anunciarem
a intensidade do vento
Sim,
são moinhos de vento modernos
que produzem energia limpa,
ainda bem que os temos,
mas não são os meus moinhos de vento,
não, com esta envergadura
não são os meus moinhos de vento,
chamem-lhes antes ventoinhas gigantes,
como reagiria a elas o Cavaleiro da Triste Figura
de Miguel de Cervantes?
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
A natureza do homem
O sexo e a natureza
são os motores do homem,
o sexo dá prazer e reproduz
e a natureza dá-lhe a luz,
o belo e o que ele bebe e come
Mas o homem quer mais,
ele trabalha para isso,
mas podia não fazer nada:
ele tem que comer,
a natureza o dá,
ele tem que beber,
a natureza o dá,
ele tem que se aquecer,
o natureza o faz,
ele tem que dormir,
o sono o satisfaz
E ele podia viver em paz,
mas não consegue,
porque quer sempre mais
Mas porque quer o homem
sempre mais?
Porque o homem discerne,
é inteligente,
e por isso é diferente,
se fosse animal só de sexo,
só de comer, só de beber,
só de dormir,
seria um animal menos complexo,
comeria e beberia apenas do que havia
e chegar-lhe-ia
Mas não chega,
o homem quer mais, sempre mais,
e, por isso, inventou deuses e demónios,
o bem, o mal e os demais,
as guerras e os ódios,
a escravatura e o trabalho,
as armas e os clãs,
as pátrias e os territórios,
a política e a esperança,
o dinheiro e a artimanha,
a inveja e a vingança,
e não lhe chega,
e não lhe chega tanta abastança
E depois morre
e julga que hiberna,
e o homem quer sempre mais,
vejam, ele até quer a vida eterna!
e o que ele faz,
e o que ele não faz,
para ganhar a vida eterna,
a vida eterna de sorriso,
de prazer, de felicidade,
nos jardins etéreos do paraíso,
e o que ele faz e não faz para isso!
Isto tudo
porque o homem discerne,
é inteligente,
mas, seguramente,
o homem não é mais do que um acidente
da natureza
O sexo e a natureza
são os motores do homem,
o sexo dá prazer e reproduz
e a natureza dá-lhe a luz,
o belo e o que ele bebe e come
Mas o homem quer mais,
ele trabalha para isso,
mas podia não fazer nada:
ele tem que comer,
a natureza o dá,
ele tem que beber,
a natureza o dá,
ele tem que se aquecer,
o natureza o faz,
ele tem que dormir,
o sono o satisfaz
E ele podia viver em paz,
mas não consegue,
porque quer sempre mais
Mas porque quer o homem
sempre mais?
Porque o homem discerne,
é inteligente,
e por isso é diferente,
se fosse animal só de sexo,
só de comer, só de beber,
só de dormir,
seria um animal menos complexo,
comeria e beberia apenas do que havia
e chegar-lhe-ia
Mas não chega,
o homem quer mais, sempre mais,
e, por isso, inventou deuses e demónios,
o bem, o mal e os demais,
as guerras e os ódios,
a escravatura e o trabalho,
as armas e os clãs,
as pátrias e os territórios,
a política e a esperança,
o dinheiro e a artimanha,
a inveja e a vingança,
e não lhe chega,
e não lhe chega tanta abastança
E depois morre
e julga que hiberna,
e o homem quer sempre mais,
vejam, ele até quer a vida eterna!
e o que ele faz,
e o que ele não faz,
para ganhar a vida eterna,
a vida eterna de sorriso,
de prazer, de felicidade,
nos jardins etéreos do paraíso,
e o que ele faz e não faz para isso!
Isto tudo
porque o homem discerne,
é inteligente,
mas, seguramente,
o homem não é mais do que um acidente
da natureza
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Cantiga a um passarinho que perdeu tudo
Que se passa ó passarinho
que estás a cantar
assim tão baixinho,
assim tão quietinho?
Perdi a voz,
perdi o meu ninho,
perdi o pio e a alegria,
perdi o calor
e o meu amor
Mas ó passarinho
arrebita,
o sol já nasceu e não faz frio,
arrebita,
afina o teu pio
e canta, e canta, e grita
Não consigo,
tiraram-me tudo, perdi tudo,
já não me sai a voz,
tiraram-me tudo,
deixa-me, quero ficar só
Que se passa ó passarinho
que estás a cantar
assim tão baixinho,
assim tão quietinho?
Perdi a voz,
perdi o meu ninho,
perdi o pio e a alegria,
perdi o calor
e o meu amor
Mas ó passarinho
arrebita,
o sol já nasceu e não faz frio,
arrebita,
afina o teu pio
e canta, e canta, e grita
Não consigo,
tiraram-me tudo, perdi tudo,
já não me sai a voz,
tiraram-me tudo,
deixa-me, quero ficar só
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
O meu nascimento visto por mim
Havia um lugar perdido num planalto calcário de uma serra situada entre o Tejo e o Lis que não tinha electricidade, nem estradas, só caminhos de terra, de lama e de cascalho. Quando chegou o saibro, foi um enorme progresso.
A Senhora Maria acordou naquela manhã de Outubro muito atarefada. Mas as dores de parto vieram mais cedo do que o previsto e a sua boca do corpo estava a dilatar de uma forma tão constante e dolorosa que só lhe restou deitar-se na varanda da sua casa e começar a gritar para alguém que passava na rua para chamar a Ti Pliquéria.
A Ti Pliquéria tinha bigode e era destemperada, mas o certo é que não havia criança nascida naquele lugar, e nasciam muitas, que não tivesse sido arrancada por ela às entranhas das mães.
E a Ti Pliquéria veio a correr para socorrer a Senhora Maria. Entrou em sua casa e encheu logo um alguidar de barro com água quase a ferver que retirou da panela de ferro que estava sempre ao lume. De seguida, abriu uma arca da roupa e tirou algumas toalhas de linho e, com essas toalhas e com a água a ferver, prantou-se junto à cama onde jazia a Senhora Maria e começou a dar ordens:
- Abre as pernas.
- Faz força e respira fundo.
- Não te preocupes se te borras toda, eu limpo.
- Continua a fazer força, faz força, não te vás abaixo, não é agora ao quinto que vais desistir.
E a Ti Pliquéria já estava a ver o caso mal parado.
- Alguém que chame a tua comadre Sapateira para me ajudar, mas não deixes de fazer força.
E os alguidares de água quente e as toalhas de linho andavam numa reviravolta que só visto.
- A lareira precisa de mais lenha. E o canto da lenha está vazio, porra. Faz força, porra.
Gritou a Ti Pliquéria.
De repente, é expulso do corpo da Senhora Maria um ser vivo todo ensanguentado e escamoso, tendo passado pelo canal uterino sem ter dado por isso, tal eram aquelas engrenagens.
e virou-me de pernas para o ar
e gritou, e gritou,
"temos mais um moço
e ouçam, e ouçam, já começou a berrar"
E juntaram-se logo as avós
e outras velhas,
todas cobertas com negros xailes,
e acenderam velas ao Santo António,
ao São João, e a outros que tais,
e tinham água benta contra o demónio
e terços e crucifixos e santinhas
e rezaram e não pararam de se benzer
e de pedir às alminhas
para protegerem o novo ser
e que não lhe falte nadinha
desde o seu amanhecer
até ao seu anoitecer
E eu assim já nascido
ouvi clamores e orações
e esperança e júbilo
e promessas e aflições
e a Ti Pliquéria a gritar
"chamem depressa o Doutor Júlio"
-----------------------------------------------
Meus caros leitores, hoje faço anos.
Mais informo que suspendo aqui estes relatos de uma existência. São cento e cinquenta. Desfrutem.
Voltarei com mais relatos, mas não sei quando.
Obrigado por me lerem e não se esqueçam de respirar.
Obrigado por me lerem e não se esqueçam de respirar.
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Ó fada boa
Ajuda-me, ó fada boa,
quero saber se nasci
de cabeça,
ou virado do avesso,
ou se já vinha de cócoras,
como estou agora
Ajuda-me ó fada boa
a ter uma vida boa,
boa como o milho,
de que se faz a farinha,
de que se faz o pão,
de que se faz a açorda
quando o pão já tem gota
Ajuda-me ó fada boa
a ser ruim,
ruim como as cobras
que são tão mazinhas
que só rastejam,
coitadinhas
Ajuda-me ó fada boa
a cortar este nó górdio
que me agarra ao absurdo
do conteúdo deste mundo
envolto em vapores de ódio
e minado com bombas e mísseis
e canhões e guerreiros
e armas de destruição maciça,
visíveis e invisíveis,
que prometem grandes feitos
quando explodirem
Responde-me ó fada boa,
porque é que o homem
não é capaz
de viver em paz?
E a fada boa desapareceu
da vista da minha janela
e nem uma palavra me deu,
e eu que acredito em fadas,
sobretudo nas que poisam
na minha janela
Mas esta foi-se e nada me disse,
e agora, só com a minha janela,
vou continuar a ler o Camilo José Cela
que me explica que tudo isto é parvoíce
que não há fadas, nem paraíso,
que não valemos um chavelho,
que somos feitos para ser desfeitos,
e que acabamos tortos, sem juízo,
e com as tetas fora dos peitos
E pergunto eu:
será que o homem imundo
merece este mundo?
Ajuda-me, ó fada boa,
quero saber se nasci
de cabeça,
ou virado do avesso,
ou se já vinha de cócoras,
como estou agora
Ajuda-me ó fada boa
a ter uma vida boa,
boa como o milho,
de que se faz a farinha,
de que se faz o pão,
de que se faz a açorda
quando o pão já tem gota
Ajuda-me ó fada boa
a ser ruim,
ruim como as cobras
que são tão mazinhas
que só rastejam,
coitadinhas
Ajuda-me ó fada boa
a cortar este nó górdio
que me agarra ao absurdo
do conteúdo deste mundo
envolto em vapores de ódio
e minado com bombas e mísseis
e canhões e guerreiros
e armas de destruição maciça,
visíveis e invisíveis,
que prometem grandes feitos
quando explodirem
Responde-me ó fada boa,
porque é que o homem
não é capaz
de viver em paz?
E a fada boa desapareceu
da vista da minha janela
e nem uma palavra me deu,
e eu que acredito em fadas,
sobretudo nas que poisam
na minha janela
Mas esta foi-se e nada me disse,
e agora, só com a minha janela,
vou continuar a ler o Camilo José Cela
que me explica que tudo isto é parvoíce
que não há fadas, nem paraíso,
que não valemos um chavelho,
que somos feitos para ser desfeitos,
e que acabamos tortos, sem juízo,
e com as tetas fora dos peitos
E pergunto eu:
será que o homem imundo
merece este mundo?
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Um serão
Sentei-me com amigos de longa data
à volta de uma mesa oferecida
e contámos histórias da vida passada,
da vida que ainda não foi esquecida
Após cada bocado de marmelada
e de requeijão suave e branquinho,
lembrámos pedaços do nosso caminho
e rimo-nos de nós e da vã saudade
E, por cada degustação do tinto,
vinha mais uma história de encantar
que era contada até ao último pingo
Antes deste belo serão terminar,
ainda elegemos o melhor vinho,
ganhou o mais robusto no paladar
Sentei-me com amigos de longa data
à volta de uma mesa oferecida
e contámos histórias da vida passada,
da vida que ainda não foi esquecida
Após cada bocado de marmelada
e de requeijão suave e branquinho,
lembrámos pedaços do nosso caminho
e rimo-nos de nós e da vã saudade
E, por cada degustação do tinto,
vinha mais uma história de encantar
que era contada até ao último pingo
Antes deste belo serão terminar,
ainda elegemos o melhor vinho,
ganhou o mais robusto no paladar
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