sexta-feira, 18 de abril de 2014

O sítio das penas do talho da cova

São penas porque são rochas, penedos,
mas também são penas porque são tristezas,
lamúrias, medos.
A cova é o vale, a depressão,
mas também é o buraco onde cabem corpos
embalados em credos.
A morte não ocupa espaço,
é um simples rectângulo
da superfície às profundezas,
e, rodeada de cedros,
desfaz-se.

Ah!, mas a vida,
essa sim, ocupa espaço e tempo,
é imensa.
Nasce, cresce, rodopia, voa, emerge,
submerge, respira, ri, chora,
come, mata , defeca,
ejacula,
e ama, e odeia, e pensa,
e discute, e peca.

E, por fim,
um pequeno rectângulo
e um corpo
embalado em credos
e rodeado de cedros,
desfaz-se.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O fim

Deixa pousar o meu cansaço
no teu regaço
e deixa que te ofereça um ramo de flores
com cheiros de primavera
que apaziguam as tuas dores
e purificam a atmosfera
com tonificantes odores

Também podes pousar o teu cansaço
no meu regaço,
mas não me ofereças flores,
fala-me antes de esperança
e não desistas, não chores,
não te lamentes de já não dançares
aquela que era a nossa dança

Os dois pousamos o cansaço
e os dois voltamos a cansar-nos,
mais um passo, mais um passo,
já está, já chegámos, conseguimos,
descansa outra vez no meu regaço
e daremos sempre mais um passo
até chegarmos ao fim
do nosso derradeiro cansaço

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Estou confuso

Venho de um tempo confuso
e permaneço num tempo confuso,
o passado e o presente,
e quando julgo que já cheguei ao futuro,
dizem-me que estou no presente,
que ao futuro ninguém pertence,
está sempre um passo à frente
do presente

Continuo, pois, confuso
com o passado e o presente
e não posso esclarecer-me
com o futuro,
porque se não passo deste andamento,
nunca chego ao futuro

Mas se assim é,
porque lutamos por um futuro melhor
do que o presente,
se nunca chegamos ao futuro?

Ah! já percebi:
do nosso tempo
só dispomos do passado e do presente
e quem nos promete um futuro melhor
sabe perfeitamente
que esse futuro melhor devia ser agora,
o nosso presente

sábado, 12 de abril de 2014

São doidos, doidos, doidos

Peço-vos encarecidamente,
não me atentem hoje,
estou virado do avesso,
estou indigente,
estou trouxe-mouxe,
estou desesperadamente burgesso,
é que estão a cair-me em cima
vapores tóxicos solidificados
soprados por ventos agrestes
que trazem imagens de guerras cruéis
em muitas partes do mundo 

Não entendo os homens,
fazem as guerras, estropiam-se,
destroem, incendeiam, matam-se,
e depois de tudo acabado
divertem-se a escrever e a estudar
o que fizeram, o que estragaram,
dizem que é História
(de facto, a História pouco mais é do que relatos
de guerras sucessivas entre conquistadores
e conquistados),
mas eu acho que eles são é doidos, doidos, doidos,
e o pior é que se esquecem
e voltam a fazer o mesmo,
são doidos, doidos, doidos

Por isso, quero fugir das notícias,
não desejo presenciar a História
agora,
quero antes ver as borboletas
e o seu voo colorido,
que belas,
devem ser muito felizes,
gostava de ser como elas,
quero antes ver os melros,
o melro é um pássaro belo,
veste de preto
e tem o bico amarelo,
esconde-se nos silvados
e não nos diz onde tem o ninho
que faz com "mil cuidados",
canta sempre que levanta voo,
e que bem que canta o melro,
o melro é um pássaro bom

E porque não desejo presenciar a História agora,
quero fugir
das notícias que mostram quem chora
por causa da loucura dos homens,
dos seus caprichos, dos seus devaneios,
quero fugir
das imagens dos voos dos bombardeiros,
essas sinistras aves pretas,
vou antes para o campo ver o voo dos melros
e das borboletas
e aguardar a vinda dos gnomos
que costumam aparecer nos meus sonhos

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A sanguessuga e a pulga

A sanguessuga suga o nosso sangue
lentamente, sem dor,
enquanto a pulga suga o nosso sangue
mordendo, causando ardor,
mas a sanguessuga bebe mais,
por isso é gorda, é mole, é pachorrenta,
quase arrebenta,
e a pulga bebe apenas o que precisa
e pula, e pula e pula e bebe mais
e aguenta

Mas ambas sugam, sugam
o nosso sangue
exangue, exangue,
pula, pula, diz a sanguessuga para a pulga
e a pulga pula, pula, mas também bebe
do nosso sangue
exangue, exangue

E quem pula mais
são os nossos jovens, os nossos trabalhadores,
o nosso futuro, o nosso melhor sangue,
pulam daqui, deste país portuga
exangue, exangue,
com tanta sanguessuga,
com tanta pulga

terça-feira, 8 de abril de 2014

Relato de uma procissão

Quando eu era menino
alguém me levou pela mão
a uma procissão
à Moita do Martinho

À hora marcada
junto à Igreja Paroquial
organizou-se a marcha
da procissão quaresmal
debaixo de muita água
e de forte vendaval
e a ameaçar trovoada

Na frente iam uns senhores
vestidos com fatos roxos
e atrás os seguidores,
incluindo alguns coxos,
e a Senhora dos Remédios
vestida de várias cores
e enfeitada com lírios e camélias

E já era noite escura
quando a procissão seguiu
para o lugar da Moita do Martinho
comandada pelo senhor Cura
e quase ninguém sentiu
o primeiro redemoinho
gerado pelo vento e pela chuva

Já o cortejo tinha percorrido
algumas ruas daquele lugar
quando um forte estampido
fez estremecer a terra e o ar,
era o barulho de um trovão
que silenciou o som da procissão,
pois toda a gente parou de rezar

Esse trovão terá rachado
a bola de fogo que sobrevoava
aquele tranquilo povoado
e originou uma terrível trovoada
que pôs a procissão a rezar credos
à bendita Santa Bárbara
esquecendo a Senhora dos Remédios

E foi tão forte a trovoada
que os fiéis menos convictos
retiraram em debandada
e a procissão quase dava em nada
quando uma mulher aos gritos
exigiu que a Santa desse entrada
no seu pátio cheio de bacoritos

Tanto implorou, tanto gritou
que a procissão que restou
entrou mesmo naquele redil
e foi abençoada uma marrã
que estava quase a parir
para que a ninhada saísse sã
e deixasse aquele lar mais feliz

O que se passou a seguir
já não me recordo bem,
só sei que cheguei a casa todo molhadinho
e a tremer de medo e de frio,
e mesmo o calor do colo da minha mãe
não evitou que eu ficasse doentinho,
com tosse, febre e muita pieira,
e fui tratado com caldos de galinha
e xaropadas de açúcar, mel e chá de carqueja

sábado, 5 de abril de 2014

O emigrante

Ele tinha apenas quinze anos quando partiu
para fugir à guerra, à miséria e à fome,
foi a salto para a França que nunca viu,
com um bilhete sem destino e sem nome

Foi deixado perdido nos desfiladeiros
das montanhas dos Pirenéus intransponíveis,
mas seguiu sempre em frente, cruzando ribeiros
e as vertentes de picos inatingíveis

- Espero que encontres uma vida boa -,
desejou-lhe a sua mãe com fé e esperança,
- segue o teu caminho e não andes à toa -

E o seu filho querido não teve "chance",
morreu afogado no Rio Bidasoa,
quando na margem de lá já era a França

sexta-feira, 4 de abril de 2014

A Rainha e o Papa

Ontem, a Rainha do Reino Unido
e da Commonwealth
foi, pela primeira vez, ao Vaticano,
levava na cabeça um chapéu florido,
calçava luvas brancas e sapatos pretos de fivela,
ia de vestido roxo, não sei de que pano,
que tinha seis botões e um broche de ouro fino
incrustado com diamantes e pérolas,
numa das mãos segurava uma mala preta

O Papa recebeu-a vestido com uma sotaina,
um solidéu, uma romeira e uma estola,
tudo num branco limpo e imaculado,
calçava sapatos pretos e de fina sola,
usava uma cruz peitoral, talvez de prata,

e tiveram o seguinte diálogo:

- Por que motivo não me obedeces, ó Rainha dos Anglicanos?
questionou o Papa;
- Eu não venho preparada para responder a essa questão,
retorquiu a Rainha;
- Então o que vens cá fazer?
observou o Papa;
- Venho ver-te e tentar saber por que razão és mais famoso do que eu,
respondeu a Rainha;
- Porque sou o único representante do Cristianismo, da Igreja Cristã
fundada por Pedro, a Igreja Católica, Apostólica, Romana,
adiantou o Papa com autoridade;
- Está bem, vou falar com o Arcebispo de Cantuária para ouvir a opinião dele,
e depois volto cá, adeus,
disse a Rainha com humildade;
- Não te vás já embora, fica para o chá das cinco,
sugeriu o Papa;
- Não tenho tempo, a minha comitiva já me aguarda,
finalizou a Rainha;
- Está bem, mas não te esqueças que as Ilhas Malvinas são da Argentina,
finalizou o Papa

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Parabéns, Glória

Foi ela que me guardou quando era menino,
foi ela que aturou as minhas malandrices
de criança traquina e de pouco tino,
foi ela que acalmou as minhas birrices

No Carnaval, era ela que cozinhava
as couves com batatas e a morcela de arroz,
e também era ela que fotografava
os nossos sorrisos, bem como as nossas dores

Comeste muito açúcar com papos-secos,
temos em comum o António e a Vitória
e teremos enfrentado os mesmos medos

Parabéns pelo teu aniversário, ó Glória,
que contes muitos junto dos teus brinquedos
e que não se apague a nossa memória

terça-feira, 1 de abril de 2014

Hoje

Hoje estou vestido de palhaço rico
e tenho uma varinha mágica
e é assim:
O meu país não necessita de mais ajustamentos e acabou-se a austeridade;
Os passageiros do avião desaparecido estão a jogar o jogo dos sobreviventes numa ilha desértica do Oceano Índico;
Acabou-se a guerra civil na Síria e no Sudão do Sul, e os cristãos e os muçulmanos da República Centro-Africana chegaram a um acordo e vão viver em paz;
Não haverá mais atentados à bomba e os terroristas vão dedicar-se apenas ao estudo da teologia;
Uma nave espacial da Virgin foi a Marte e voltou;
Foi descoberta uma vacina contra a sida, a malária e o cancro;
Nenhum ser humano passa fome e sede;
Nenhum ser humano tem falta de habitação digna e de educação;
Nenhum ser humano morre por falta de assistência médica;
A Declaração Universal dos Direitos do Homem é efectivamente aplicada em toda a Terra;
A Convenção "CITES" é integralmente respeitada;
Acabaram-se os derrames de crude no delta do Rio Níger e deu-se início à sua despoluição;
As florestas virgens não são dizimadas; 
Os salários são justos em todos os países e não há desemprego;
Os pobres estão muito menos pobres em comparação com os ricos;
Os idosos são respeitados e confortados;
A escravatura, antiga ou moderna, deixou de existir;
A droga já não é um flagelo social;
Os fabricantes de armas passaram a fabricar apenas alfaias agrícolas;
As religiões deixaram de provocar guerras;
As salas de teatro e de outros espectáculos culturais estão sempre cheias;
A felicidade não se compra, apenas se cultiva;
etc. etc. etc. etc. etc.;

Hoje estou vestido de palhaço rico
e tenho uma varinha mágica
e mesmo que não seja verdade o que eu digo,
por favor, não me digam que é mentira