A minha aura
A frescura
das margens de um ribeiro
de água pura
a correr por um caneiro
com pressa de chegar,
talvez ao mar
E a sombra de uma acácia
também pura, também fresca,
que refresca
quem está e quem passa
nas margens do ribeiro
que alimentam o melro e o moleiro
E que também alimentam a minha aura,
fresca, mas também quente,
como um banho de sauna,
olhem, estou a levitar, sou transcendente,
imóvel, mas sempre a viajar,
ó ribeiro, leva-me contigo para o mar
O ribeiro não me levou,
fiquei estático e aluado,
afinal, não sou mais do que sou,
mas ainda sonho que sou alado,
será que preciso de voar
para continuar a sonhar?
Guarda-me ó ribeiro,
protege-me ó acácia,
o vento que sopra é sobranceiro,
quase desmorona a minha estátua,
eu quero continuar a levitar,
eu quero continuar a sonhar
Resguarda-me ó minha aura,
não te evapores, não rebentes,
quero estar junto desta água pura,
assim, desligado, transcendente,
dentro de ti, minha aura dourada,
porque fora de ti serei ninguém, serei nada
sexta-feira, 27 de junho de 2014
quinta-feira, 26 de junho de 2014
- Um poema basco -
Hegoak
Hegoak ebaki banizkio
neria izango zen
ez zuen aldegingo
bainan honela
ez zen gehiago txoria izango
eta nik
txoria nuen maite
(autor: Joxean Artze, musicado e cantado por Mikel Laboa)
Tradução para castelhano (fonte: internet)
Alas
Si le hubiera cortado las alas
habia sido mio,
no habia escapado,
pero así,
habia dejado de ser pájaro
y yo
yo lo que amaba era un pájaro
Hegoak
Hegoak ebaki banizkio
neria izango zen
ez zuen aldegingo
bainan honela
ez zen gehiago txoria izango
eta nik
txoria nuen maite
(autor: Joxean Artze, musicado e cantado por Mikel Laboa)
Tradução para castelhano (fonte: internet)
Alas
Si le hubiera cortado las alas
habia sido mio,
no habia escapado,
pero así,
habia dejado de ser pájaro
y yo
yo lo que amaba era un pájaro
terça-feira, 24 de junho de 2014
Não toquem nas minhas flores
Exércitos, carnificinas, invasões,
raptos, fuzilamentos, bombardeios,
toyotas de caixa aberta e canhões,
e obuses, e nuvens de pó e morteiros,
guerreiros bem nutridos, matulões,
bombas, sangue, mísseis certeiros
Combatentes crentes e fortes
conquistam aqui e acolá,
disparam e contam mortes
e se morrerem voam para lá
da fronteira dos contrafortes
e aterram no paraíso do ... sei lá
Sunitas contra xiitas contra alauítas
contra alevitas contra ismaelitas
contra judeus contra sikhs
contra hindus contra budistas
contra maronitas contra coptas
contra ortodoxos contra anglicanos
contra luteranos contra calvinistas
contra católicos contra seitas,
contra, contra, contra,
quase todas as religiões são contra,
e são contra porque quase todas nasceram violentas
e cresceram matando quem era contra
Pois, que se continuem a matar, que se comam,
que defendam os vossos deuses, as vossas divas,
os vossos profetas, os vossos mestres, as vossas fadas,
as vossas tribos, os vossos califas,
com ódio, com sangue, com espadas,
com pólvora, com terror,
pois, que se continuem a matar, que se comam,
que ergam fábricas de horrores,
que se comam, que se esfolem,
mas não toquem nas minhas flores,
ouviram bem?
não toquem nas minhas flores
Exércitos, carnificinas, invasões,
raptos, fuzilamentos, bombardeios,
toyotas de caixa aberta e canhões,
e obuses, e nuvens de pó e morteiros,
guerreiros bem nutridos, matulões,
bombas, sangue, mísseis certeiros
Combatentes crentes e fortes
conquistam aqui e acolá,
disparam e contam mortes
e se morrerem voam para lá
da fronteira dos contrafortes
e aterram no paraíso do ... sei lá
Sunitas contra xiitas contra alauítas
contra alevitas contra ismaelitas
contra judeus contra sikhs
contra hindus contra budistas
contra maronitas contra coptas
contra ortodoxos contra anglicanos
contra luteranos contra calvinistas
contra católicos contra seitas,
contra, contra, contra,
quase todas as religiões são contra,
e são contra porque quase todas nasceram violentas
e cresceram matando quem era contra
Pois, que se continuem a matar, que se comam,
que defendam os vossos deuses, as vossas divas,
os vossos profetas, os vossos mestres, as vossas fadas,
as vossas tribos, os vossos califas,
com ódio, com sangue, com espadas,
com pólvora, com terror,
pois, que se continuem a matar, que se comam,
que ergam fábricas de horrores,
que se comam, que se esfolem,
mas não toquem nas minhas flores,
ouviram bem?
não toquem nas minhas flores
sábado, 21 de junho de 2014
Somos tão pequeninos
Já viram
que andamos todos à volta do Sol,
à mesma velocidade,
na mesma trajectória elíptica,
transportados pela gravidade
da Terra,
da nossa terra?
Já viram
que a Terra roda e roda
e não entorna
os oceanos, os lagos, a fauna, a flora,
nem se descontrola,
dá apenas uma volta
sobre si mesma e chega sempre a tempo
de termos um novo dia,
onde estamos,
e vermos nascer o Sol que nos alumia
e que nos aquece?
Já viram
que a Terra oscila e oscila
e não cai, e não vira,
e mantém-se sempre na mesma rota
à volta do Sol
que alumia e aquece mais uns do que outros,
porque a Terra oscila, oscila
e não cai, e não vira?
Já viram
que ainda não descobrimos mais sóis
com terras como a nossa?
apetece-me procurar Averróis
e abaná-lo e dizer-lhe: acorda
e encontra-nos outros sóis,
outras terras, outras órbitas,
outras gentes com outra semântica,
e tira-nos desta solidão,
desta mecânica quântica
que explica a nossa dimensão,
que é tão curta, tão parca, tão assimétrica,
tão só, tão em vão
Já viram
como somos tão pequeninos,
como somos tão mesquinhos,
perante um universo imenso
com outros mundos desconhecidos,
com outros mundos também em suspenso,
como somos tão pequeninos,
tão sozinhos?
- Vira-te para nós e acredita
em Deus -,
dizem-me vozes terrenas
convictas,
- foi Ele que fez os Céus
e a Terra que tu habitas
e não faças mais perguntas,
acredita e pronto,
de que mais precisas?
és mesmo tonto
Já viram
que andamos todos à volta do Sol,
à mesma velocidade,
na mesma trajectória elíptica,
transportados pela gravidade
da Terra,
da nossa terra?
Já viram
que a Terra roda e roda
e não entorna
os oceanos, os lagos, a fauna, a flora,
nem se descontrola,
dá apenas uma volta
sobre si mesma e chega sempre a tempo
de termos um novo dia,
onde estamos,
e vermos nascer o Sol que nos alumia
e que nos aquece?
Já viram
que a Terra oscila e oscila
e não cai, e não vira,
e mantém-se sempre na mesma rota
à volta do Sol
que alumia e aquece mais uns do que outros,
porque a Terra oscila, oscila
e não cai, e não vira?
Já viram
que ainda não descobrimos mais sóis
com terras como a nossa?
apetece-me procurar Averróis
e abaná-lo e dizer-lhe: acorda
e encontra-nos outros sóis,
outras terras, outras órbitas,
outras gentes com outra semântica,
e tira-nos desta solidão,
desta mecânica quântica
que explica a nossa dimensão,
que é tão curta, tão parca, tão assimétrica,
tão só, tão em vão
Já viram
como somos tão pequeninos,
como somos tão mesquinhos,
perante um universo imenso
com outros mundos desconhecidos,
com outros mundos também em suspenso,
como somos tão pequeninos,
tão sozinhos?
- Vira-te para nós e acredita
em Deus -,
dizem-me vozes terrenas
convictas,
- foi Ele que fez os Céus
e a Terra que tu habitas
e não faças mais perguntas,
acredita e pronto,
de que mais precisas?
és mesmo tonto
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Hoje começa o Verão. Que tenham um bom Verão de 2014,
meus caros leitores
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Felipe VI de Espanha
Sua Alteza Real Dom Juan Carlos Alfonso
Víctor Maria de Borbón e Borbón-Dos Sicílias
(o João Carlos, cá para nós)
era o Rei de Espanha, mas já não é,
já foi, abdicou,
a partir de hoje o Rei de Espanha é
Sua Alteza Real Dom Felipe Juan Pablo Alfonso
de Todos los Santos de Borbón y Grécia
(o Felipe VI, para todos)
Se Portugal tivesse hoje um Rei,
seria o Dom Duarte Pio de Bragança,
mas não sabemos bem se seria,
é que há discussão na herança
e essa discussão
já se tornou uma questão:
"a questão dinástica portuguesa",
o que, a bem dizer, significa
que só teremos rei, ou rainha,
ou qualquer outra realeza,
depois de os candidatos ao trono
andarem à batatada,
desculpem, à real batatada,
e é bom que um real trono
tenha um real dono
Mas esqueçam isso agora,
o que interessa é que temos
um novo Rei em Espanha,
o Felipe, o Sexto,
e os reis felipes de Espanha
costumam virar o nariz e o queixo
para Portugal,
já cá tivemos o primeiro, o segundo e o terceiro,
que foram o segundo, o terceiro e o quarto deles
Meu caro Felipe VI de Espanha,
desejo-te muita saúde e sorte
e que seja longo e próspero
o teu reinado,
mas toma cuidado,
a tua Espanha são várias e diferentes
e pode desmembrar-se em repúblicas
de gentes soberanas e independentes
como já o fizeram as lusitanas gentes
há muito tempo
Mas, segundo as minhas informações,
tu vais ser mesmo um forte rei,
com fortes razões,
e vais dominar todas as espanhas
com muito empenho,
até já li vaticínios
que dizem que vais ter muito engenho
e que, de entre muitos projectos e desígnios,
estás a planear invadir Portugal,
por ser a única república da Península dos Túrdulos,
dos Fenícios, dos Cartagineses, dos Lusitanos,
dos Celtas, dos Iberos, dos Romanos,
dos Alanos, dos Vândalos, dos Suevos,
dos Visigodos, dos Árabes, dos Judeus,
dos Moçárabes, dos Vascões, dos Galegos,
dos Asturianos, dos Navarros, dos Castelhanos,
dos Catalães, dos Aragoneses, dos Valencianos,
dos Andaluzes, dos Extremenhos, dos Leoneses,
dos Portugueses ...
(quem faltar, bata à porta duas vezes)
Mas será mesmo verdade
que nos queres invadir?
Não me digas
que estão a ser instigadas por ti
as altas conspirações e intrigas
que se cruzam nos passos perdidos
do templo republicano
deste pequeno rectângulo
Vá lá, tem calma e não nos invadas,
mas se o fizeres não o faças
sem me avisares,
eu preparo tudo e não haverá azar:
com astúcia e perícia
instalo-me no trono de Portugal,
sim, eu, o Vitório Rei,
e caso-me com a tua ...
para unirmos as duas coroas
com um grande e real casamento,
não sendo preciso recorrer outra vez
às históricas bordoadas
nas nossas raias, secas e molhadas,
e, obviamente, passarei a ser eu o único Rei de Portugal,
das Espanhas, dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar
e d'O-Que-Mais-Der-E-Vier,
como o foi o nosso querido Manuel,
o Venturoso
Por lo tanto, querido Felipe,
yo te llamaré muy pronto
y prepara ya la mesa y las sillas
para nuestra próxima reunión
en el pueblo de Tordesillas
para firmar nuestro nuevo Tratado
de Unión de los Reinos de la Península Ibérica,
siendo yo El Rey e tu El Conde del Condado
de Treviño
Hasta muy pronto, niño,
adeus, adiós, adéu, agur
Sua Alteza Real Dom Juan Carlos Alfonso
Víctor Maria de Borbón e Borbón-Dos Sicílias
(o João Carlos, cá para nós)
era o Rei de Espanha, mas já não é,
já foi, abdicou,
a partir de hoje o Rei de Espanha é
Sua Alteza Real Dom Felipe Juan Pablo Alfonso
de Todos los Santos de Borbón y Grécia
(o Felipe VI, para todos)
Se Portugal tivesse hoje um Rei,
seria o Dom Duarte Pio de Bragança,
mas não sabemos bem se seria,
é que há discussão na herança
e essa discussão
já se tornou uma questão:
"a questão dinástica portuguesa",
o que, a bem dizer, significa
que só teremos rei, ou rainha,
ou qualquer outra realeza,
depois de os candidatos ao trono
andarem à batatada,
desculpem, à real batatada,
e é bom que um real trono
tenha um real dono
Mas esqueçam isso agora,
o que interessa é que temos
um novo Rei em Espanha,
o Felipe, o Sexto,
e os reis felipes de Espanha
costumam virar o nariz e o queixo
para Portugal,
já cá tivemos o primeiro, o segundo e o terceiro,
que foram o segundo, o terceiro e o quarto deles
Meu caro Felipe VI de Espanha,
desejo-te muita saúde e sorte
e que seja longo e próspero
o teu reinado,
mas toma cuidado,
a tua Espanha são várias e diferentes
e pode desmembrar-se em repúblicas
de gentes soberanas e independentes
como já o fizeram as lusitanas gentes
há muito tempo
Mas, segundo as minhas informações,
tu vais ser mesmo um forte rei,
com fortes razões,
e vais dominar todas as espanhas
com muito empenho,
até já li vaticínios
que dizem que vais ter muito engenho
e que, de entre muitos projectos e desígnios,
estás a planear invadir Portugal,
por ser a única república da Península dos Túrdulos,
dos Fenícios, dos Cartagineses, dos Lusitanos,
dos Celtas, dos Iberos, dos Romanos,
dos Alanos, dos Vândalos, dos Suevos,
dos Visigodos, dos Árabes, dos Judeus,
dos Moçárabes, dos Vascões, dos Galegos,
dos Asturianos, dos Navarros, dos Castelhanos,
dos Catalães, dos Aragoneses, dos Valencianos,
dos Andaluzes, dos Extremenhos, dos Leoneses,
dos Portugueses ...
(quem faltar, bata à porta duas vezes)
Mas será mesmo verdade
que nos queres invadir?
Não me digas
que estão a ser instigadas por ti
as altas conspirações e intrigas
que se cruzam nos passos perdidos
do templo republicano
deste pequeno rectângulo
Vá lá, tem calma e não nos invadas,
mas se o fizeres não o faças
sem me avisares,
eu preparo tudo e não haverá azar:
com astúcia e perícia
instalo-me no trono de Portugal,
sim, eu, o Vitório Rei,
e caso-me com a tua ...
para unirmos as duas coroas
com um grande e real casamento,
não sendo preciso recorrer outra vez
às históricas bordoadas
nas nossas raias, secas e molhadas,
e, obviamente, passarei a ser eu o único Rei de Portugal,
das Espanhas, dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar
e d'O-Que-Mais-Der-E-Vier,
como o foi o nosso querido Manuel,
o Venturoso
Por lo tanto, querido Felipe,
yo te llamaré muy pronto
y prepara ya la mesa y las sillas
para nuestra próxima reunión
en el pueblo de Tordesillas
para firmar nuestro nuevo Tratado
de Unión de los Reinos de la Península Ibérica,
siendo yo El Rey e tu El Conde del Condado
de Treviño
Hasta muy pronto, niño,
adeus, adiós, adéu, agur
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Os nossos submarinos
Não tenho visto os nossos novos
submarinos,
ah! estão a dizer-me que os submarinos
não são para se ver,
são para navegar escondidos,
debaixo de água,
e se forem vistos
podem ser logo abatidos
pelos inimigos
Mas os submarinos
não se mostram à tona da água
de vez em quando?
Eu queria ver
os nossos novos submarinos,
descer às suas entranhas,
descobrir os seus segredos,
as suas rotas, os seus destinos,
como se disparam os torpedos,
como limpam os intestinos
os seus marinheiros
E também queria saber
de outros segredos:
quem os encomendou?
quem os pagou?
quem desenhou os enredos
de uma necessidade
talvez desnecessária?
quem enriqueceu
como intermediário?
e, estando provada a corrupção,
por que razão
só descobriram os corruptores?
quem são os corrompidos?
quem esconde as provas?
serão os doutores?
serão os políticos?
ou será somente quem comprou as portas?
ah! dizem-me que os submarinos
não têm portas,
nem janelas, nem frestas,
nem chaminés,
se calhar é por isso que não servem para festas,
nem para bailes no convés
Não tenho visto os nossos novos
submarinos,
ah! estão a dizer-me que os submarinos
não são para se ver,
são para navegar escondidos,
debaixo de água,
e se forem vistos
podem ser logo abatidos
pelos inimigos
Mas os submarinos
não se mostram à tona da água
de vez em quando?
Eu queria ver
os nossos novos submarinos,
descer às suas entranhas,
descobrir os seus segredos,
as suas rotas, os seus destinos,
como se disparam os torpedos,
como limpam os intestinos
os seus marinheiros
E também queria saber
de outros segredos:
quem os encomendou?
quem os pagou?
quem desenhou os enredos
de uma necessidade
talvez desnecessária?
quem enriqueceu
como intermediário?
e, estando provada a corrupção,
por que razão
só descobriram os corruptores?
quem são os corrompidos?
quem esconde as provas?
serão os doutores?
serão os políticos?
ou será somente quem comprou as portas?
ah! dizem-me que os submarinos
não têm portas,
nem janelas, nem frestas,
nem chaminés,
se calhar é por isso que não servem para festas,
nem para bailes no convés
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Fui ao bosque
Fui ao bosque
colher amoras,
fui ao bosque
colher flores,
fui ao bosque
colher amores,
e também fui ao bosque
para colher a paz
Fui ao bosque colher amoras
e arranharam-me as silvas,
colhi amoras e também espinhos
Fui ao bosque colher flores
e picaram-me as abelhas,
colhi flores e também dores
Fui ao bosque colher amores
e encantou-me a bruxa má,
colhi maus humores e não amores
Fui ao bosque colher a paz
e caí nas malhas de uma teia
tão peganhosa como o pez
Vim do bosque
e trouxe amoras e flores,
mas não trouxe os amores,
porque não os vi,
nem a paz;
esta ainda a vi a pairar,
mas não a consegui agarrar
Fui ao bosque
colher amoras,
fui ao bosque
colher flores,
fui ao bosque
colher amores,
e também fui ao bosque
para colher a paz
Fui ao bosque colher amoras
e arranharam-me as silvas,
colhi amoras e também espinhos
Fui ao bosque colher flores
e picaram-me as abelhas,
colhi flores e também dores
Fui ao bosque colher amores
e encantou-me a bruxa má,
colhi maus humores e não amores
Fui ao bosque colher a paz
e caí nas malhas de uma teia
tão peganhosa como o pez
Vim do bosque
e trouxe amoras e flores,
mas não trouxe os amores,
porque não os vi,
nem a paz;
esta ainda a vi a pairar,
mas não a consegui agarrar
sábado, 14 de junho de 2014
O Pentecostes de um contabilista
E ao quinquagésimo dia
desceram línguas de fogo
sobre o contabilista
e ele, sem saber como,
começou a subtrair da lista
as dívidas de milhões
e a inscrever no seu lugar lucros
que também desceram
em línguas de fogo
nos luxemburgos
- Foi o Espírito Santo que fez isto -
disse o contabilista,
já sem o efeito do poder
das línguas a arder
Mas desceram outra vez
umas línguas de fogo
sobre o contabilista,
e ele, sem saber como,
disse que subtraiu da lista
um montante de milhões mal gasto
e de outros milhões
de crédito mal parado,
não com o efeito das alucinações
provocadas pelas línguas de fogo,
mas por causa de umas línguas de gato
que trincou e lhe provocaram comichões
e muitas confusões
Não se riam, não se riam,
isto pode muito bem acontecer
a qualquer pessoa de boas intenções;
experimentem comer línguas de gato
com torrões de amendoim,
daquele muito salgado
Não se riam, não se riam,
e aperitivos salgados
é o que mais há,
há-os em toda a parte
e para todos os palatos,
alguns servem-se bem quentes,
outros frios, outros gelados,
uns estragam os dentes,
outros rebentam a boca,
mas são todos salgados
e se forem feitos à base de pimenta
ainda provocam mais comichão,
sobretudo se forem servidos gelados
no rabo,
primeiro sabe a refresco,
mas depois arde, é fogo, é fogo,
como as línguas de fogo
Foge contabilista, foge,
põe-te ao fresco,
dá corda aos sapatos
antes que sejas outra vez enrabado
por um aperitivo salgado
servido gelado e apimentado,
e protege sempre as tuas costas,
mesmo no dia de Pentecostes
E ao quinquagésimo dia
desceram línguas de fogo
sobre o contabilista
e ele, sem saber como,
começou a subtrair da lista
as dívidas de milhões
e a inscrever no seu lugar lucros
que também desceram
em línguas de fogo
nos luxemburgos
- Foi o Espírito Santo que fez isto -
disse o contabilista,
já sem o efeito do poder
das línguas a arder
Mas desceram outra vez
umas línguas de fogo
sobre o contabilista,
e ele, sem saber como,
disse que subtraiu da lista
um montante de milhões mal gasto
e de outros milhões
de crédito mal parado,
não com o efeito das alucinações
provocadas pelas línguas de fogo,
mas por causa de umas línguas de gato
que trincou e lhe provocaram comichões
e muitas confusões
Não se riam, não se riam,
isto pode muito bem acontecer
a qualquer pessoa de boas intenções;
experimentem comer línguas de gato
com torrões de amendoim,
daquele muito salgado
Não se riam, não se riam,
e aperitivos salgados
é o que mais há,
há-os em toda a parte
e para todos os palatos,
alguns servem-se bem quentes,
outros frios, outros gelados,
uns estragam os dentes,
outros rebentam a boca,
mas são todos salgados
e se forem feitos à base de pimenta
ainda provocam mais comichão,
sobretudo se forem servidos gelados
no rabo,
primeiro sabe a refresco,
mas depois arde, é fogo, é fogo,
como as línguas de fogo
Foge contabilista, foge,
põe-te ao fresco,
dá corda aos sapatos
antes que sejas outra vez enrabado
por um aperitivo salgado
servido gelado e apimentado,
e protege sempre as tuas costas,
mesmo no dia de Pentecostes
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Meia-idade
Crise da meia-idade,
ou da idade mais do que meia,
tanto faz,
finge-se que não é,
mas é verdade,
e olha-se para trás,
mas não adianta,
nem atrasa
Crise da meia-idade,
ou da idade mais do que meia,
esmorecem-nos os músculos
e esvai-se a lucidez,
mas, ó Panaceia
porque não governas?
e porque é que os cremes para as rugas
não prestam?
nós não queremos a fealdade da nudez,
nem o sofrimento, nem as verrugas,
nem os tremeliques, nem a a rigidez
das articulações,
queremos ser sempre sãos
e belos,
até ao fim
E ai o fim, e ai o fim,
e pensamos sempre no fim
como nunca tínhamos pensado,
e o fim é o futuro,
mas um futuro com prazo
que é o fim,
e o passado passado
é apenas passado
Crise da meia idade,
ou da idade mais do que meia,
e tudo isto
porque este ser que somos
que sonha, que discerne, que anseia,
que faz o bem, que faz o mal,
é o único animal terrestre
que sabe do seu final,
melhor seria que não soubesse
Crise da meia-idade,
ou da idade mais do que meia,
tanto faz,
finge-se que não é,
mas é verdade,
e olha-se para trás,
mas não adianta,
nem atrasa
Crise da meia-idade,
ou da idade mais do que meia,
esmorecem-nos os músculos
e esvai-se a lucidez,
mas, ó Panaceia
porque não governas?
e porque é que os cremes para as rugas
não prestam?
nós não queremos a fealdade da nudez,
nem o sofrimento, nem as verrugas,
nem os tremeliques, nem a a rigidez
das articulações,
queremos ser sempre sãos
e belos,
até ao fim
E ai o fim, e ai o fim,
e pensamos sempre no fim
como nunca tínhamos pensado,
e o fim é o futuro,
mas um futuro com prazo
que é o fim,
e o passado passado
é apenas passado
Crise da meia idade,
ou da idade mais do que meia,
e tudo isto
porque este ser que somos
que sonha, que discerne, que anseia,
que faz o bem, que faz o mal,
é o único animal terrestre
que sabe do seu final,
melhor seria que não soubesse
quinta-feira, 12 de junho de 2014
A noite de Santo António
O Santo António é santo,
e diz o povo que merece tanto
ser santo,
que não é só santo,
é um santo popular,
e se fosse só António
não tínhamos o Santo António,
e o que seria de nós
sem o nosso querido Santo António
E eu aprovo,
o Santo António é mesmo nosso,
é um santo do povo,
é adorado, é rico,
é casamenteiro,
merece uma quadra num manjerico,
até podia ser o padroeiro
de Lisboa, mas não é,
é só santo popular
e milagreiro
Como padroeiro
o povo não destronou
o mártir São Vicente
que é de fora, de Saragoça,
mas também é cá da gente,
não por ser popular,
mas por ser mártir,
e também por ser o dono da Freguesia
de São Vicente de Fora
que nada fez até agora
para acabar as obras de Santa Engrácia
E para espairecer um pouco,
vou subir à Freguesia da Graça,
que era de Santo André e de Santa Marinha
(mais um santo e uma santa),
e que era a que tinha mais graça,
mas que, por causa da austeridade,
foi integrada agora
na Freguesia de São Vicente de Fora,
e com isto já estou baralhado,
pois não sei o que vim fazer à Graça,
nem o que estava a fazer em São Vicente de Fora
(a palavra austeridade deixa-me desorientado)
Esperem, já me recordo,
estava a falar do Santo António
(esqueçam agora o São Vicente de Fora),
que viva, pois, o Santo António popularucho
e, em honra dele, vou-me já daqui embora
e vou encher o bucho
de pipis, de moelas e de outros miúdos,
cheios de paprica e de outros unguentos,
ou de sardinhas assadas
em fogareiros ferrugentos
e cheios de carvunça,
e vou beber vinho à tripa-forra
feito das uvas das encostas da Maunça,
e que vivam todos os santos populares
e que nos perdoem esta bagunça,
que vivam todos, que nenhum morra
e que se mantenham hirtos nos altares
e que livrem Lisboa
das penas de Sodoma e de Gomorra,
e que viva a vida boa,
que viva o Santo António,
e se ainda tem milagres na cartola
que os faça aqui em Lisboa
e não em "Padova"
O Santo António é santo,
e diz o povo que merece tanto
ser santo,
que não é só santo,
é um santo popular,
e se fosse só António
não tínhamos o Santo António,
e o que seria de nós
sem o nosso querido Santo António
E eu aprovo,
o Santo António é mesmo nosso,
é um santo do povo,
é adorado, é rico,
é casamenteiro,
merece uma quadra num manjerico,
até podia ser o padroeiro
de Lisboa, mas não é,
é só santo popular
e milagreiro
Como padroeiro
o povo não destronou
o mártir São Vicente
que é de fora, de Saragoça,
mas também é cá da gente,
não por ser popular,
mas por ser mártir,
e também por ser o dono da Freguesia
de São Vicente de Fora
que nada fez até agora
para acabar as obras de Santa Engrácia
E para espairecer um pouco,
vou subir à Freguesia da Graça,
que era de Santo André e de Santa Marinha
(mais um santo e uma santa),
e que era a que tinha mais graça,
mas que, por causa da austeridade,
foi integrada agora
na Freguesia de São Vicente de Fora,
e com isto já estou baralhado,
pois não sei o que vim fazer à Graça,
nem o que estava a fazer em São Vicente de Fora
(a palavra austeridade deixa-me desorientado)
Esperem, já me recordo,
estava a falar do Santo António
(esqueçam agora o São Vicente de Fora),
que viva, pois, o Santo António popularucho
e, em honra dele, vou-me já daqui embora
e vou encher o bucho
de pipis, de moelas e de outros miúdos,
cheios de paprica e de outros unguentos,
ou de sardinhas assadas
em fogareiros ferrugentos
e cheios de carvunça,
e vou beber vinho à tripa-forra
feito das uvas das encostas da Maunça,
e que vivam todos os santos populares
e que nos perdoem esta bagunça,
que vivam todos, que nenhum morra
e que se mantenham hirtos nos altares
e que livrem Lisboa
das penas de Sodoma e de Gomorra,
e que viva a vida boa,
que viva o Santo António,
e se ainda tem milagres na cartola
que os faça aqui em Lisboa
e não em "Padova"
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