- Momentos de uma viagem -
Paris
Paris, Paris,
quem te disse
que eu não quis
dormir nos teus braços
quando os meus sonhos
tinham sabores infantis
Paris, Paris,
quem te disse que eu não te quis
quando acolheste em bidonvilles
gentes do meu país,
gentes fortes que trabalharam para ti,
gentes fortes que agora já estão a cair
com o peso da idade e do muito trabalho
e que não sabem onde tombar,
se no local onde nasceram, se dentro de ti
Paris, Paris,
e eu não sou um dos teus
porque assim calhou, porque não emigrei
nos tempos em que no meu país
a sorte vinha pelos correios
em jeito de "carta de chamada"
e o número de uma barraca
num dos teus bidonvilles
Paris, Paris,
e se agora fosse um dos teus
também teria dúvidas onde cair,
se dentro de ti, se na terra onde nasci
Paris, Paris,
continuas aqui
e eu sempre que posso
venho até ti
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
O Charlie Hebdo e o meu amigo Mé Mé
Tenho um amigo que se chama
Mé Mé,
é alentejano de gema
e tem sido sempre um bom Mé
para mim
e nunca um mau Mé
Se ele fosse de Mértola,
seria o Mé Mé de Mértola,
se ele fossa de Moura,
seria o Mé Mé de Moura,
mas ele é de Vendas Novas
e de figura entroncada e baixa,
e assim já não encaixa
O que encaixa
é que se ele fosse mau Mé
já teria dado baixa
da sua amizade, da sua voz,
talvez com um mortal pontapé,
talvez com uma rajada de kalashnikov
-----------------------------------------------
Estou solidário com o Charlie Hebdo,
viva a liberdade, abaixo os fanáticos
de profetas e de deuses sanguinários
e desconhecidos, são uns velhacos
Tenho um amigo que se chama
Mé Mé,
é alentejano de gema
e tem sido sempre um bom Mé
para mim
e nunca um mau Mé
Se ele fosse de Mértola,
seria o Mé Mé de Mértola,
se ele fossa de Moura,
seria o Mé Mé de Moura,
mas ele é de Vendas Novas
e de figura entroncada e baixa,
e assim já não encaixa
O que encaixa
é que se ele fosse mau Mé
já teria dado baixa
da sua amizade, da sua voz,
talvez com um mortal pontapé,
talvez com uma rajada de kalashnikov
-----------------------------------------------
Estou solidário com o Charlie Hebdo,
viva a liberdade, abaixo os fanáticos
de profetas e de deuses sanguinários
e desconhecidos, são uns velhacos
Uma história urbana muito simples
Um prédio com muitos andares,
muitos apartamentos,
muitas janelas e estendais,
muitos moradores e pensamentos,
muitas portas, escadas, corredores,
barulho, dramas, almas, lamentos,
condutas, canos, elevadores,
cães, gatos, roedores
E foi nesse prédio que o cão do vizinho
quis cheirar a cadela da vizinha,
cheirou e gostou tanto
que se apaixonou,
que se apaixonaram,
saltavam, corriam, cheiravam,
no elevador, no corredor,
na entrada, na saída,
no vão das escadas,
era uma alegria
A vizinha pedia ao vizinho
para levar o seu cão à rua,
não aguentava os ganidos da sua
cadela, o vizinho
também não aturava
o seu cão que ladrava
e ladrava
Fizesse frio, fizesse calor,
o vizinho começou a passear o seu cão
ao mesmo tempo que a vizinha passeava
a sua cadela, eram um amor
Depois vieram os rumores,
o cão do vizinho
fugiu com a cadela da vizinha
e o vizinho com a vizinha,
eram uns amores
Um prédio com muitos andares,
muitos apartamentos,
muitas janelas e estendais,
muitos moradores e pensamentos,
muitas portas, escadas, corredores,
barulho, dramas, almas, lamentos,
condutas, canos, elevadores,
cães, gatos, roedores
E foi nesse prédio que o cão do vizinho
quis cheirar a cadela da vizinha,
cheirou e gostou tanto
que se apaixonou,
que se apaixonaram,
saltavam, corriam, cheiravam,
no elevador, no corredor,
na entrada, na saída,
no vão das escadas,
era uma alegria
A vizinha pedia ao vizinho
para levar o seu cão à rua,
não aguentava os ganidos da sua
cadela, o vizinho
também não aturava
o seu cão que ladrava
e ladrava
Fizesse frio, fizesse calor,
o vizinho começou a passear o seu cão
ao mesmo tempo que a vizinha passeava
a sua cadela, eram um amor
Depois vieram os rumores,
o cão do vizinho
fugiu com a cadela da vizinha
e o vizinho com a vizinha,
eram uns amores
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
- Momentos de uma viagem -
Bordéus
Sob o tecto da estação de Bordéus
peço a todos os santos,
a todos os santos dos céus,
que me deixem tranquilo,
que não me condenem,
que me envolvam antes em véus
de seda pura para me protegerem
dos pecados, do mortais e dos veniais
Sob o tecto da estação de Bordéus
peço a todos os homens deste abrigo,
a nossa Terra,
que não invoquem mais os nomes de deus
para justificarem a guerra,
o ódio, os sacrifícios, a fome,
a inveja, a morte, a maldade,
quero continuar a acreditar num homem
racional, pacífico, ecológico, solidário,
não me desiludas, ó humanidade,
o bem-estar pode chegar a todo o terráqueo
e a miséria não tem que ser uma fatalidade,
que se valorize menos o capital
e muito mais o trabalho,
que os meios de produção apenas contribuam
para o bem-estar e para a paz,
que todos os trabalhadores aufiram salários
que permitam uma vida com dignidade
onde não falte "o pão, a habitação, a saúde
e a educação"
Sob o tecto da estação de Bordéus
estou sentado a pensar,
questiono a pertinência
do existir, do ser, do estar,
questiono a divindade e a essência
do sobrenatural,
duvido da bondade da inteligência
do homem,
esse animal racional
que domina a matemática, a ciência,
a arte, a filosofia, o direito, a economia,
mas que é mais canibal
do que qualquer outro animal
Mas o que é que me deu
para estar assim a cogitar
sob o tecto da estação de Bordéus?
porquê esta sensação de mal-estar
que me consome e nada resolve?
é melhor olhar para o "placard"
que anuncia a certeza dos horários,
olho e volto-me para o "horloge",
ai que me estou a atrasar,
vou no trem das dez e trinta e três,
vou para Limoges
e não me perguntem porquê,
vem meu "trolley",
vem depressa,
temos mais uma viagem para fazer,
vem depressa, vem depressa
que o maquinista está com pressa
Bordéus
Sob o tecto da estação de Bordéus
peço a todos os santos,
a todos os santos dos céus,
que me deixem tranquilo,
que não me condenem,
que me envolvam antes em véus
de seda pura para me protegerem
dos pecados, do mortais e dos veniais
Sob o tecto da estação de Bordéus
peço a todos os homens deste abrigo,
a nossa Terra,
que não invoquem mais os nomes de deus
para justificarem a guerra,
o ódio, os sacrifícios, a fome,
a inveja, a morte, a maldade,
quero continuar a acreditar num homem
racional, pacífico, ecológico, solidário,
não me desiludas, ó humanidade,
o bem-estar pode chegar a todo o terráqueo
e a miséria não tem que ser uma fatalidade,
que se valorize menos o capital
e muito mais o trabalho,
que os meios de produção apenas contribuam
para o bem-estar e para a paz,
que todos os trabalhadores aufiram salários
que permitam uma vida com dignidade
onde não falte "o pão, a habitação, a saúde
e a educação"
Sob o tecto da estação de Bordéus
estou sentado a pensar,
questiono a pertinência
do existir, do ser, do estar,
questiono a divindade e a essência
do sobrenatural,
duvido da bondade da inteligência
do homem,
esse animal racional
que domina a matemática, a ciência,
a arte, a filosofia, o direito, a economia,
mas que é mais canibal
do que qualquer outro animal
Mas o que é que me deu
para estar assim a cogitar
sob o tecto da estação de Bordéus?
porquê esta sensação de mal-estar
que me consome e nada resolve?
é melhor olhar para o "placard"
que anuncia a certeza dos horários,
olho e volto-me para o "horloge",
ai que me estou a atrasar,
vou no trem das dez e trinta e três,
vou para Limoges
e não me perguntem porquê,
vem meu "trolley",
vem depressa,
temos mais uma viagem para fazer,
vem depressa, vem depressa
que o maquinista está com pressa
sábado, 3 de janeiro de 2015
Versos sonhados
Escrevi versos a sonhar,
escrevi-os numa folha de papel,
eram versos de sonho,
soavam-me lindos e doces como o mel,
ao escrevê-los senti-me a flutuar
em paisagens tom de pastel,
era um ambiente estelar
pleno de flores, borboletas,
louva-a-deus e sarças a arder
Mas eram versos estranhos,
escrevia-os, mas não os lia,
não reconhecia as letras,
nem sequer o refrão,
escrevia-os, mas não os entendia,
seriam uma revelação?
seriam uma profecia?
Não sei,
não os decorei,
nem os copiei, nem os gravei,
nem trouxe a folha de papel,
ela voou-me antes de eu acordar,
mas ficou-me o sabor a mel
Escrevi versos a sonhar,
escrevi-os numa folha de papel,
eram versos de sonho,
soavam-me lindos e doces como o mel,
ao escrevê-los senti-me a flutuar
em paisagens tom de pastel,
era um ambiente estelar
pleno de flores, borboletas,
louva-a-deus e sarças a arder
Mas eram versos estranhos,
escrevia-os, mas não os lia,
não reconhecia as letras,
nem sequer o refrão,
escrevia-os, mas não os entendia,
seriam uma revelação?
seriam uma profecia?
Não sei,
não os decorei,
nem os copiei, nem os gravei,
nem trouxe a folha de papel,
ela voou-me antes de eu acordar,
mas ficou-me o sabor a mel
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
- Momentos de uma viagem -
O tempo
Muitos anos depois,
já maduro,
volto ao mesmo sítio
e sento-me no mesmo muro
a contemplar a mesma cidade,
o mesmo lago, o mesmo rio
Está tudo na mesma,
menos eu que estou assim,
o tempo não passou pelas coisas,
mas passou por mim,
passou e deixou mossas
O tempo,
sempre o tempo,
mas onde estive eu
no meu tempo
que passou?
Não respondo,
é uma maçada,
o tempo está bom,
levanto-me, subo a calçada
e aperfeiçoo o tom
da minha balada,
a balada do tempo que passou
Chego
ao cimo da calçada
e esmoreço,
mas procuro o favor do vento
e desço a mesma calçada
para passar o tempo,
mas não mudo de balada,
nem de andamento,
não, não volto a subir a mesma calçada,
viro à esquerda e sigo o rio,
uma ponte, outra ponte,
mais pontes,
acabou a cidade,
o rio continua para o horizonte,
eu volto para trás, pelo outro lado,
e contemplo outra vez o lago
a abastecer o rio e a desejar-lhe
uma boa viagem e um bom fado
Cai a noite, o escuro
invade-me e deixa-me sentado
no mesmo muro,
estou a ver o mesmo lago,
estou a ver o mesmo rio,
não tenho fome, não tenho frio,
deixo-me estar,
só estou a tentar matar o tempo,
mas acho que não o matei,
ele é que me está a matar
---------------------------------
Um feliz 2015 para todos
O tempo
Muitos anos depois,
já maduro,
volto ao mesmo sítio
e sento-me no mesmo muro
a contemplar a mesma cidade,
o mesmo lago, o mesmo rio
Está tudo na mesma,
menos eu que estou assim,
o tempo não passou pelas coisas,
mas passou por mim,
passou e deixou mossas
O tempo,
sempre o tempo,
mas onde estive eu
no meu tempo
que passou?
Não respondo,
é uma maçada,
o tempo está bom,
levanto-me, subo a calçada
e aperfeiçoo o tom
da minha balada,
a balada do tempo que passou
Chego
ao cimo da calçada
e esmoreço,
mas procuro o favor do vento
e desço a mesma calçada
para passar o tempo,
mas não mudo de balada,
nem de andamento,
não, não volto a subir a mesma calçada,
viro à esquerda e sigo o rio,
uma ponte, outra ponte,
mais pontes,
acabou a cidade,
o rio continua para o horizonte,
eu volto para trás, pelo outro lado,
e contemplo outra vez o lago
a abastecer o rio e a desejar-lhe
uma boa viagem e um bom fado
Cai a noite, o escuro
invade-me e deixa-me sentado
no mesmo muro,
estou a ver o mesmo lago,
estou a ver o mesmo rio,
não tenho fome, não tenho frio,
deixo-me estar,
só estou a tentar matar o tempo,
mas acho que não o matei,
ele é que me está a matar
---------------------------------
Um feliz 2015 para todos
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Ele é um aselha
Ele abre os pacotes pelo fundo,
ele empurra as portas quando deve puxá-las,
ele corta-se nas latas de atum,
ele estraga os fechos das malas,
ele entala-se nas portas giratórias,
ele corta-se a fazer a barba,
ele está sempre a pôr nódoas,
ele detesta a gravata,
ele mastiga com a boca aberta,
ele não sabe fazer nada
com as mãos, ele não acerta
uma, perde-as todas,
ele é um verdadeiro aselha
Ele não enrosca os parafusos
a direito,
ele não sabe fazer furos
com brocas e berbequins,
ele não tem jeito
para consertar os estores,
ele dá golpes de rins
quando lhe dizem que é artolas,
ele não muda uma lâmpada,
tem medo de apanhar choques,
ele não sabe comandar o comando
da TV, da BOX, dos não me toques,
ele tem medo das tablets
e dos smartphones
de conduzir com a ponta dos dedos
na pantalha,
e dos iPod, e dos iPad
e de toda a parafernália
high-tech,
ele também não sabe pregar pregos
e foge a sete pés
das panelas de pressão
e das máquinas de lavar loiça e roupa
e do forno do fogão,
ele não conduz de marcha-atrás,
ele não sabe usar o macaco
que viaja sempre na parte de trás
do automóvel,
ele não anda de avião a jacto
e tem vertigens de arrepiar,
ele é um aselha, ele é um aselha,
ai dele se não fosse ela,
ela e elas
Ele abre os pacotes pelo fundo,
ele empurra as portas quando deve puxá-las,
ele corta-se nas latas de atum,
ele estraga os fechos das malas,
ele entala-se nas portas giratórias,
ele corta-se a fazer a barba,
ele está sempre a pôr nódoas,
ele detesta a gravata,
ele mastiga com a boca aberta,
ele não sabe fazer nada
com as mãos, ele não acerta
uma, perde-as todas,
ele é um verdadeiro aselha
Ele não enrosca os parafusos
a direito,
ele não sabe fazer furos
com brocas e berbequins,
ele não tem jeito
para consertar os estores,
ele dá golpes de rins
quando lhe dizem que é artolas,
ele não muda uma lâmpada,
tem medo de apanhar choques,
ele não sabe comandar o comando
da TV, da BOX, dos não me toques,
ele tem medo das tablets
e dos smartphones
de conduzir com a ponta dos dedos
na pantalha,
e dos iPod, e dos iPad
e de toda a parafernália
high-tech,
ele também não sabe pregar pregos
e foge a sete pés
das panelas de pressão
e das máquinas de lavar loiça e roupa
e do forno do fogão,
ele não conduz de marcha-atrás,
ele não sabe usar o macaco
que viaja sempre na parte de trás
do automóvel,
ele não anda de avião a jacto
e tem vertigens de arrepiar,
ele é um aselha, ele é um aselha,
ai dele se não fosse ela,
ela e elas
sábado, 27 de dezembro de 2014
As formigas
Vejo no chão um carreiro, um carreiro bem demarcado,
é um carreiro de formigas pretas, carregadas as que vão
para o formigueiro, leves as que vêm para o mercado
abastecer-se de tudo o que pode servir para o seu pão
São tantas, nunca as contei, é impossível contá-las, são
todas iguais e estão sempre numa correria, num frenesim,
e sempre a trabalhar, e não desertam e não se cansam,
e lá vai parte da seara para a sua toca de ocre carmesim
Parei e agarrei uma das formigas, que ia leve e ligeira,
ela esperneou, cheirou e acalmou, e com voz pousada
disse-me: larga-me ó monstro humano, não valho nada,
sou insecto e não tenho carne, sou uma formiga-obreira
Não como, não descanso, não durmo, ando no carreiro
todo o dia enquanto há calor, grão, palha e folhas frescas
para transportar para o meu clã, para o meu formigueiro,
e se paro sou excluída e entregue às garras das vespas
E não posso fugir, não me cresceram as asas e só sei
andar no carreiro que me marcou a formiga-rainha
a minha rainha a quem obedeço, eu e toda a sua grei,
formigas-obreiras, formigas-soldados, até a joaninha
Por isso, larga-me ó monstro humano cheio de pele
e de pêlos, larga-me, quase morro com o teu cheiro,
e eu larguei a formiga e também tomei o meu carreiro,
afinal, também sou uma formiga, uma formiga com fel
Vejo no chão um carreiro, um carreiro bem demarcado,
é um carreiro de formigas pretas, carregadas as que vão
para o formigueiro, leves as que vêm para o mercado
abastecer-se de tudo o que pode servir para o seu pão
São tantas, nunca as contei, é impossível contá-las, são
todas iguais e estão sempre numa correria, num frenesim,
e sempre a trabalhar, e não desertam e não se cansam,
e lá vai parte da seara para a sua toca de ocre carmesim
Parei e agarrei uma das formigas, que ia leve e ligeira,
ela esperneou, cheirou e acalmou, e com voz pousada
disse-me: larga-me ó monstro humano, não valho nada,
sou insecto e não tenho carne, sou uma formiga-obreira
Não como, não descanso, não durmo, ando no carreiro
todo o dia enquanto há calor, grão, palha e folhas frescas
para transportar para o meu clã, para o meu formigueiro,
e se paro sou excluída e entregue às garras das vespas
E não posso fugir, não me cresceram as asas e só sei
andar no carreiro que me marcou a formiga-rainha
a minha rainha a quem obedeço, eu e toda a sua grei,
formigas-obreiras, formigas-soldados, até a joaninha
Por isso, larga-me ó monstro humano cheio de pele
e de pêlos, larga-me, quase morro com o teu cheiro,
e eu larguei a formiga e também tomei o meu carreiro,
afinal, também sou uma formiga, uma formiga com fel
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
É Natal e confesso-me
Sim,
confesso que me limito a ser
um observador
de pessoas que vivem fora,
à margem, sem calor,
com rostos assustados
e que mostram a quem passa
sorrisos desdentados
que pedem, apenas, menos desgraça
Sim,
confesso que sou só um observador,
disfarço, observo quase sem olhar,
sim, disfarço,
finjo que não vejo e depois fico calado,
calado, mas quase a chorar,
e fico com a alma em cacos,
destruída,
mas não é com estes pedaços
da minha alma partida
que dou mais vida
aos rostos despedaçados
Sim,
confesso que sou um egoísta,
não passo frio, nem fome,
mas ao meu lado há gente
com frio e que não come,
são pessoas sem nada, indigentes,
pessoas com memórias e que têm nome,
mas só o dizem entre dentes:
- olá meu caro senhor, qual é a sua graça?
- chamam-me "o sem abrigo",
mas moro aqui,
mesmo no centro da praça
Sim,
não tenho frio, nem fome,
mas confesso que sou um egoísta,
sim, sou um egoísta
porque não chego a quem não come,
a quem tem frio,
sim, sou um egoísta,
sim, é Natal e confesso-me
Sim,
confesso que me limito a ser
um observador
de pessoas que vivem fora,
à margem, sem calor,
com rostos assustados
e que mostram a quem passa
sorrisos desdentados
que pedem, apenas, menos desgraça
Sim,
confesso que sou só um observador,
disfarço, observo quase sem olhar,
sim, disfarço,
finjo que não vejo e depois fico calado,
calado, mas quase a chorar,
e fico com a alma em cacos,
destruída,
mas não é com estes pedaços
da minha alma partida
que dou mais vida
aos rostos despedaçados
Sim,
confesso que sou um egoísta,
não passo frio, nem fome,
mas ao meu lado há gente
com frio e que não come,
são pessoas sem nada, indigentes,
pessoas com memórias e que têm nome,
mas só o dizem entre dentes:
- olá meu caro senhor, qual é a sua graça?
- chamam-me "o sem abrigo",
mas moro aqui,
mesmo no centro da praça
Sim,
não tenho frio, nem fome,
mas confesso que sou um egoísta,
sim, sou um egoísta
porque não chego a quem não come,
a quem tem frio,
sim, sou um egoísta,
sim, é Natal e confesso-me
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
O Inverno
Inverno, invernia,
esconde-se o melro no silvado
e foge o coelho para a toca,
a chuva bate forte no telhado
e alvoroça a galinha choca
Inverno, invernia,
fustigam os ventos nos vales
e abanam a azeitona madura,
cobrem-se as velhas com xailes
e o dia é quase noite escura
Inverno, invernia,
agasalham-se as ovelhas com lã
e muda-se a cama do seu curral,
enche-se a lagoa e cresce a grama
que alimenta o rebanho e o pardal
Inverno, invernia,
sofrem ainda mais os que estão sós
e os que se agarram à melancolia,
mas os rios chegam mais depressa à foz
e o castanheiro não verga com a ventania
Inverno, invernia,
e eu à lareira com os pés quentes
a ver o Verão nas achas a arder,
diz-me ó rouxinol o que sentes
quando não vês o sol a nascer
Inverno, invernia,
chove chuva pesada e fria,
ao menos que caísse neve
que nos daria mais alegria,
ao cair branquinha e leve
Inverno, invernia,
socorre-me ó deusa da aurora
que o meu coração quase hiberna,
manda o duro Inverno embora
e traz-me já a doce Primavera
E eis o inverno
Inverno, invernia,
esconde-se o melro no silvado
e foge o coelho para a toca,
a chuva bate forte no telhado
e alvoroça a galinha choca
Inverno, invernia,
fustigam os ventos nos vales
e abanam a azeitona madura,
cobrem-se as velhas com xailes
e o dia é quase noite escura
Inverno, invernia,
agasalham-se as ovelhas com lã
e muda-se a cama do seu curral,
enche-se a lagoa e cresce a grama
que alimenta o rebanho e o pardal
Inverno, invernia,
sofrem ainda mais os que estão sós
e os que se agarram à melancolia,
mas os rios chegam mais depressa à foz
e o castanheiro não verga com a ventania
Inverno, invernia,
e eu à lareira com os pés quentes
a ver o Verão nas achas a arder,
diz-me ó rouxinol o que sentes
quando não vês o sol a nascer
Inverno, invernia,
chove chuva pesada e fria,
ao menos que caísse neve
que nos daria mais alegria,
ao cair branquinha e leve
Inverno, invernia,
socorre-me ó deusa da aurora
que o meu coração quase hiberna,
manda o duro Inverno embora
e traz-me já a doce Primavera
E eis o inverno
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