terça-feira, 7 de outubro de 2014

Conjugação do verbo amar

Amar,
o verbo do amor,
do amor amor,
do amor amigo,
do amor carinho,
do amor com dor,
do amor com sabor,
do amor fervor,
do amor paixão e fogo,
do amor platónico,
do amor místico, do amor só,
do amor impossível,
do amor carnal, em carnes vivas,
do amor à primeira vista,
do amor a sangrar,
do amor quase cansado,
do amor reproduzido,
do amor inconsolado,
do amor partido,
do amor morto

"Mas não é assim que se conjuga o verbo amar",
dizem-me os eruditos da gramática
e os peritos em sinalagmática,
para os primeiros conjuga-se "eu amo-te",
para os segundos  "eu amo-te se tu me amares"

Mas o verbo amar não tem gramática,
nem sinalagmática,
o verbo amar só tem amor,
e se o conjugarem como diz a gramática
digam apenas "eu amo",
e amem, e amem, e amem,
não odeiem

Amém

domingo, 5 de outubro de 2014

Ao Ary dos Santos

Espalhaste as amarras
e cuspiste fogo dos teus olhos
flamejantes,
foste poeta lume e de farras,
poeta de versos aos molhos
com amantes

Foste poeta comprometido
com a foice e o martelo
e com palavras de ferro fundido
forjadas na forja do ferreiro
mais feérico

Foste poeta arrepio,
poeta gordo de poesia,
poeta sufoco,
poeta com o cio,
poeta fogo

Não foste poeta castrado,
nem poeta impotente,
mas levou-te a morte apressada
que bebeu o teu corpo farto
de ambrósia ardente

Morreste poeta feroz,
mas continuo a ouvir a tua voz,
voz destilada, voz rouca de riso,
ó Ary, envia-me a tua morada
do paraíso

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Sirvam-me

Se tenho sede, bebo água,
água pura das fontes e minas
que me chega aqui a casa
por canais e serpentinas,
e chega cá e não vasa,
sirvam-me água cristalina

Se tenho fome, como,
como o que compro
e não o que semeio,
nem o que cultivo,
sirvam-me o centeio,
sirvam-me o trigo

Se tenho frio, protejo-me
com tecidos que não teço,
com sapatos que não coso,
com lenha que não corto,
não passo de um ocioso,
mas sirvam-me o conforto

Se estou doente, vou ao médico
e digo-lhe "dói-me aqui e aqui
e quero que me dê um remédio
que me cure, quero o meu xixi
clarinho e o meu coração a bater
sempre, sirva-me, não quero morrer"

Mas afinal não faço nada,
nem a bota, nem a perdigota,
e já me disseram pela calada
que quando bater a bota
não irei pela minha mão,
levam-me, melhor, levar-me-ão

Pois, pois, não vou, levar-me-ão,
mas, então, os que me derem a mão
sirvam-me um humilde esquife de papelão
e vistam-me apenas um calção,
ou levem-me antes todo descoberto,
assim mesmo, todo descoberto,
para não sentir tanto o aperto

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Os guarda-chuvas de Hong Kong

Aparece um, dois, três, dezenas,
aparecem mais,
em pouco tempo já são centenas,
milhares,
são multidão,
gritam, pulam, cantam, choram,
dançam, são figurantes de cenas
de histeria colectiva,
e para onde olha um, olham
todos os outros
e acabam por ter todos a mesma objectiva,
pode ser um jogo, uma cerimónia, uma manifestação,
um fenómeno natural, ou algo paranormal
como um milagre, uma visão ou uma aparição

E da multidão
sai uma força contagiante
de devoção, de emoção, de comoção,
que não deve ser contrariada,
mesmo quando essa força é cega, sem razão,
mesmo quando essa força suporta facínoras,
e um só com razão no meio dessa multidão
corre o risco de ser linchado
se não seguir também a multidão

E todos nós somos multidão,
raramente dizemos não
a quem nos domina, a quem nos controla,
a quem organiza a multidão,
e se alguém diz não, é tresmalhado, só,
mas quando a multidão
diz, em uníssono, não,
quando toda ela é livre, rebelde,
surge logo o controlador com ar sério
e põe a trabalhar os canhões de água, o cassetete
e as bombas de gás lacrimogéneo

E a multidão foge, dispersa,
não luta,
e dos milhares, resta cada um,
e nada muda

Mas olhem hoje para Hong Kong,
a multidão de Hong Kong
que não desiste da luta,
é uma multidão de juventude
que se abriga da chuva
com guarda-chuvas,
querem apenas democracia
em Hong Kong e, também, na China

Viver com a democracia,
esse valor do chamado Ocidente,
é, apesar dos defeitos, uma alegria,
eu gosto dela, eu vivo com ela,
que não desista a juventude
de Hong Kong e da China,
não façam como os dirigentes
democratas do Ocidente
que visitam o poder ditador da China
só com interesse nos negócios
e esquecem a dor e a chacina
dos que aí lutam pela democracia

Jovens de Hong Kong,
não fechem os guarda-chuvas,
chova ou faça sol

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Nas faldas da minha serra

Nas faldas da minha serra,
aqui onde eu sou,
cresce o alecrim, o orégão, o rosmaninho,
o tojo, a moita, o carrasco e o pinho,
e respira-se maresia
quando o vento vem do mar,
do mar que ainda está longe,
mas que já se anuncia
mesmo no fim do horizonte

Nas faldas da minha serra,
cobertas pelo intenso garrigue
e onde a cigarra, sempre aflita,
berra e berra e berra,
viveram os meus antepassados
e aí ficaram acomodados,
para sempre,
em silêncio e em paz

Nas faldas da minha serra
passeio eu agora
na cadência do tempo
e dos sons do horizonte,
e calcorreio os caminhos
que serpenteiam o monte
entre fragas e espinhos,
e pergunto-me se o ar
que agora respiro
não será o mesmo ar
que respirava em menino,
e passeio e anseio
e pergunto-me se o meu destino
não estará traçado,
se não ficarei também
para sempre acomodado
em algum cerrado
ao pé da minha serra,
a leve e ondulada Serra d'Aire

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A motosserra

A motosserra começa a serrar de madrugada
e serra e serra, sempre a gemer,
serra na encosta da serra e serra a árvore
quando lhe afinca os dentes de aço
acorrentados numa corrente que desanda
com força e sem piedade e corta
e corta o tronco da árvore e depois os ramos
e só deixa o cepo e as raízes fundas enterradas
na terra que irão germinar outra vez,
talvez

E a árvore sangra e sangra
e chora e desiste e cai catrapuz,
cai direita com estrondo
sem torcer o tronco
e a motosserra sempre a serrar
na encosta da serra
e ouve-se o seu barulho teimoso
e não desarma e faz faíscas
e serra e serra o osso
na encosta da serra

A motosserra serra e serra
e quem a comanda é o serrador
ou o lenhador ou o rachador
e agarra-a com ambas as mãos
e aguenta os seus coices
e os seus engasganços
e absorve a serradura
que lhe entra pelas ventas
e pela dentadura

E o barulho da motosserra
continuou o dia todo
na encosta da serra
e só parou e só parou
quando a noite começou,
e quando me deitei,
já noite adentro,
ainda ouvia o som da motosserra

Como terá adormecido
o serrador?

sábado, 27 de setembro de 2014

Hoje vou cavar

Hoje vou cavar,
uma cova aqui, outra acolá,
na cadência da enxada,
a de pontas, não a rasa

Hoje vou cavar
esta terra escura
esta terra de falgar,
esta terra dura
se a seca durar

Vou cavar hoje
porque já chove,
cavo, faço covas,
mas algo se move,
são as minhocas

Cavo e cavo e cavo,
e acima e abaixo
e já estou a dar cabo
do cabo da enxada,
quero antes um sacho

E o sacho também pesa,
ou está mal encavado,
vou mas é cavar daqui,
afinal sou da realeza,
alguém que cave por mim

Sim, porque eu sou Rei,
o rei galo entre os galos,
e um Rei tem que reinar,
não tem que ter calos
nem canetas para cavar

Só se tiver que dar à sola
do reino, do povo, do clero,
e se tiver, deixo o sacho e a sachola,
ó pernas para que vos quero,
cava ó Rei daqui para fora

E então diz a Rainha irada,
"para que queres a enxada?
toca a cavar, toca a cavar,
quero nabos e couve lombarda
para o almoço e para o jantar"

Coitado deste humilde Rei,
o Vitório Rei, o sorna,
para não ter que ganhar a jorna
a cavar com a enxada ou com o sacho,
tem que cavar daqui para fora

E ninguém o compreende,
é que só tem canetas para escrever
e calos no dedo onde prende
a caneta para escrever

Vá lá, deixem-se de tretas,
não obriguem o Vitório Rei a cavar,
falta-lhe a vontade de suar
e a força nas canetas

Vá lá, digam à Rainha
para deixar o Rei descansado,
até porque hoje é sábado

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A queda de uma folha

Olá,
sou uma folha verde muito gira,
sou limbo, pecíolo e bainha,
sou aérea e simples no corte,
tenho forma ovada e sou fendida
no recorte

São várias as minhas nervuras,
sou palminérvia,
mas não sofro dos nervos,
nem de tonturas,
sou abstémia,
só bebo da seiva bruta
que, com a minha fotossíntese,
se transforma em seiva elaborada
e alimenta a minha árvore,
enfim, sou uma folha exemplar

Mas recebi ordem de expulsão,
sim, vou ser expulsa,
sem nenhuma razão,
sem nenhuma culpa
formada,
e até já estou a mudar de cor,
estou a ficar amarelada,
estou a ficar seca de dor

E a minha bainha
já quase não se agarra
ao caule da minha árvore,
estou a ficar muito fraquinha,
acho que vou cair,
e vem aí um vendaval,
ai que vou cair,
já quase não sinto o caule
que me segura à minha árvore,
ai que vou cair,
quem me agarra? quem me agarra?
ai que caio, ai que caio,
e caí,
caí no chão, caí na lama,
caí e já não me sinto,
acho que morri
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Começa hoje o Outono de 2014

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Aquela nuvem escura

Aquela nuvem escura
seguiu-me, sempre ameaçadora,
mas em silêncio,
e despejou-me a sua fúria,
assim, de repente,
como uma esponja com o cio,
e apanhou-me de frente,
e vi-me enrolado num rodopio
de vento e de chuva grossa,
bolas de gelo esbranquiçado,
uma terrível escardoça,
um dilúvio de balas de pedraço
que metralhavam a calçada
num ritmado estardalhaço

E o meu caminho
tornou-se numa torrente
de lodo barrento
como um rio revolto,
sem margens, bruto, violento,
"credo, estará o diabo solto?"
gritei eu ao vento

E aquela nuvem escura
não parou de ralhar,
de espirrar, de encharcar,
de estilhaçar, de enxurrar

E depois parou,
nem mais um rugido,
e foi-se embora,
tão naturalmente como chegou,
o céu ficou varrido,
mas o chão não,
era preciso varrê-lo

E a revolta dos elementos
faz-nos sentir minúsculos,
pequenos,
pouco mais do que moluscos
agarrados aos penedos
batidos pelo mar,
e a revolta dos elementos
deixa-nos a gritar,
já chega, já chega, parem,
porque se não pararem
vamos parar ao mar

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Envelhecer

Anda tudo a envelhecer,
envelheces tu, envelheço eu,
envelhece também o céu
e quem acabou de nascer

- É pá, faz tempo que não te via,
estás praticamente na mesma.
- Na mesma uma ova, não vês
que envelheci e que cheiro a azia?

Anda tudo a envelhecer,
o gato, o cão e a catatua,
envelhece o Sol e o amanhecer
e as árvores da minha rua

Anda tudo a envelhecer,
envelhece o velho e a velha
que já estão fartos de envelhecer,
envelhece o zângão e a abelha

Envelhece a alma e a idade,
a cidade e a rotina,
envelhece o querer e o sorrir,
só não envelhece o que é nada,
o que não nasce, o que não germina,
o que falha a oportunidade de existir

Anda tudo a envelhecer,
mesmo quem rejuvenesce
à custa do bem parecer,
mesmo quem cresce
e julga que não envelhece
enquanto cresce

Ouçam-me todos,
não parem de envelhecer,
não parem, porque parar é morrer
isso mesmo, seus tolos,
parar de envelhecer
é morrer